Numa constante contradição, Ele e Ela lutam pela razão, pela retórica e pela lógica em questões relativas ao mundo deles próprios.

O Theatro Circo recebeu, esta sexta-feira, a peça de teatro “Delírio a Dois”, produzida por Ninguém e escrita em 1962 por Eugène Ionesco. Esses “Dois” estavam retratados por Anabela Faustino e Ivo Alexandre, sendo este último também o encenador do trabalho.

Desprovido de grandes artifícios, o palco tinha apenas três cadeiras, uma mesa e um espelho, todos circunscritos a um cubículo claustrofóbico. Numa escuridão máxima, perfurada por sons deambulantes, os dois residentes, um Ele e uma Ela, subiam e posicionavam-se no palco. Ela vestia um robe de tons rosados esbranquiçados e Ele um robe tangido de preto acinzentado, pois até na roupa os atores eram de lados antagónicos.

A mulher maquilhava-se enquanto discutia com o seu companheiro de clausura. A peça foi, aliás, toda uma discussão matrimonial. Nunca em sintonia e sempre em desacordo, o casal era o espelho do debate nada amigável. E, por entre as discórdias, insultavam-se. Há inclusive uma parte em que as personagens trocam estalos. A verdade é que ambos são agressores e agredidos, a causa e a consequência da destruição social, refletindo, assim, o sentido absurdista da existência humana.

Como se de uma casa se tratasse, as personagens vagueavam pelo palco, numa constante necessidade de fuga daquele espaço, mas também de escape um do outro. Só que lá fora ouviam-se disparos e caíam granadas. Ele, com um gesto imaginário no ar, abria a janela numa tentativa de perceber o que se passava no exterior e, nesse movimento, as luzes cegavam o público.

Através de uma construção textual que não deixa o espectador tomar o lado de nenhuma das personagens, a peça faz uma crítica à monotonia do quotidiano, às uniões infelizes e à decadência da sociedade. Transbordando sátira, os atores tiveram em si um papel corrosivo, marcado pela ilustre dicção e projeção de voz. Do início ao fim, a plateia delirou com o espetáculo.