O Twitter explodiu quando a 17 dias do fim do mês de outubro, Ariana Grande anunciou o lançamento de um novo projeto musical. Positions não foi alvo de qualquer promoção e tal é indicativo do patamar que a artista norte-americana alcançou. Mas as surpresas não acabam aqui: Grande afasta-se da narrativa mais melancólica, renuncia aos grandes hits pop e oferece todo um álbum R&B que celebra a sensualidade de um novo amor.

A faixa de abertura deixa, desde logo, um aviso importante – “How you be using your time? / You be so worried ’bout mine”. Em “shut up”, predominam instrumentos de cordas num ambiente orquestral exuberante, que mergulham na sonoridade mais clássica do R&B. Dirigindo-se aos críticos, Ariana enfatiza “You know you sound so dumb”, acrescentando, “So maybe you should shut up”.

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Não é de admirar que esta tenha sido a primeira música que a artista escreveu para Positions.  Ao mesmo passo que, nos últimos anos, Grande lançou algumas das melhores músicas da década, a artista viu também todos os aspetos da sua vida excessivamente noticiados. A última faixa de Sweetener (2018) é dedicada às vítimas do ataque terrorista de 2017, em Manchester; thank u, next (2019) foi lançado após a morte do ex-namorado Mac Miller e depois do fim do noivado com Pete Davidson.

Porém, em Positions, Ariana Grande mostra-se otimista e pronta para escrever o próximo capítulo da sua vida. Cansada de especulações, a artista apodera-se da narrativa e expressa-o livremente: “All them demons helped me see shit differently / So don’t be sad for me”.

Num primeiro momento, a sonoridade deste projeto pode parecer-nos bastante distinta, mas, na verdade, os álbuns anteriores de Grande também possuem influências jazz e blues. A maior questão em torno do som de Ariana Grande tem sido menos um ‘se’, e mais um ‘quando’ nos presenteia com o álbum R&B para o qual a discografia da artista tem vindo a caminhar.

Numa entrevista para o Zack Sang Show, Grande descreveu o momento em que ouviu o instrumental que viria a tornar-se a segunda faixa, “34+35”.  Em oposição a um instrumental robusto, que chega mesmo a lembrar as bandas sonoras da Disney, a lírica de “34+35” é bastante leve, de humor algo libidinoso. Porém, se prestarmos atenção, encontramos lapsos ocasionais de vulnerabilidade que revelam ansiedade face a um novo amor.

Esta sonoridade orquestral constituída maioritariamente por instrumentos de cordas – guitarra, violino e violoncelo – é o elemento unificante do álbum, mas merece destaque em “off the table”. Graças a “Love Me Harder” (2014), era de esperar que este segundo dueto com The Weeknd fosse, no mínimo, edificante. A produção mais misteriosa e pesada, conseguida também através da forte presença de baixo elétrico, enfatiza a delicadeza da performance vocal de ambos os artistas.

Will I ever love the same way again?” é uma forma devastadora de abrir o tema, tendo em conta o passado de Grande. Esta vulnerabilidade e ansiedade são persistentes, mas a voz reconfortante de The Weeknd cria um ambiente suave e calmo.  É, portanto, impossível juntar estes dois artistas sem que dali saia uma canção de (des)amor intemporal.

Também Doja Cat e Ty Dolla $ign se juntam a Ariana Grande em “motive” e “safety net”, respetivamente. A primeira é uma mistura engenhosa de trap, house e pop. A performance vocal de Grande mergulha de forma envolvente num beat mais marcado, o que contrasta muito bem com o timbre mais rouco de Doja Cat.

Já a segunda – “safety net” – prova não ser só mais uma faixa comercial que conta com a colaboração de um rapper. A habilidade de Grande no que toca a exploração de harmonias não é novidade; é Ty Dolla $ign quem mais surpreende, relevando-se capaz de fazer sobressair a agilidade vocal do artista, mesmo ao lado da grandiosa voz de Grande. O beat de “safety net” é perfeitamente ritmado, nem muito rápido nem muito lento, e o tom mais sóbrio e contemplativo merece destaque.

Uma das faixas que mais chama a minha atenção é “my hair”. O título é, desde já, sugestivo visto que Ariana adotou o icónico ponytail como imagem de marca. Mais uma vez, um solo de guitarra elétrica abre o tema, seguindo-se de uma melodia surpreendente, que se faz acompanhar por sucessivos estalar de dedos e, mais tarde, uma linha de instrumentos de sopro.

À semelhança da produção musical, a performance vocal de Grande vai crescendo progressivamente. A artista recorre ao registo whistle (‘assobio’, em português) no último refrão, enquanto reflete sobre a intimidade que desenvolve com o amante. Permitir que o parceiro lhe toque no cabelo deixa-a numa posição vulnerável, mas ela está confortável e disposta a fazê-lo.

A faixa-título “positions” é a melhor forma de apresentar esta nova era. Ao tentar encaixar o single num só género musical estaria a subestimar a sua complexidade e genialidade. Contando com um conjunto de compositores e produtores variado, “positions” serve um leque vasto de ouvintes.

O refrão é cativante e “vive nas nossas cabeças sem pagar renda”, o que agrada os amantes do pop; a ponte da canção está repleta de camadas de harmonias e melismas que não escapam aos ouvintes de R&B; e o beat bastante marcado e ritmado tem claras influências trap trazidas pelo produtor London on da Track, com quem Ariana colabora pela primeira vez.

A artista norte-americana é conhecida por fechar os projetos com temas memoráveis e Positions não foge à regra. A adorável balada “pov” abre com o som de gotas de chuva antes de mergulhar, no refrão, numa melodia descendente, que se mistura de forma subtil com um beat de influência soul. Esta sonoridade enquadra uma lírica que expressa inseguranças. Ariana espera um dia poder amar-se tanto quanto o seu companheiro – e é aqui que surge o verso mais bonito de todo o álbum, “I’d love to see me from your point of view”.

Em suma, Ariana Grande posiciona-se confortavelmente num género com o qual está muito familiarizada. Faltam hinos pop como um “Into You” (2016) ou um “no tears left to cry” (2018), mas a cantora nunca se destinou apenas a esse registo. Afinal, Grande sempre foi uma artista de álbuns, e mesmo com faixas menos comerciais, que podem não corresponder às espectativas dos ouvintes de longa data, Positions é o projeto mais coeso, revigorante e inovador da artista até ao momento.