Depois de chocar o mundo com o hino anti FIFA “Brazil”, Declan McKenna convida-nos a uma visita ao seu mundo intergaláctico num dos melhores álbuns rock do ano. Após múltiplos adiamentos devido à COVID-19, Zeros foi lançado no dia 4 de setembro de 2020.

Quatro anos depois do lançamento do álbum de estreia What Do You Think About The Car?, Declan McKenna, o cantor britânico de 21 anos, está de volta com o segundo álbum. O disco conta com quatro singles: “The Key to Life on Earth”, “Beautiful Faces”, “Daniel, You’re Still a Child” e “Be an Astronaut”. Sem negar a forte influência de David Bowie, McKenna consegue recriar o som do glam rock e do vintage pop rock das décadas de 60 e 70 de uma maneira contemporânea, tanto em termos de produção como nos assuntos abordados nas suas letras.

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A primeira faixa, “You Better Believe!!!”, transporta-nos para o universo de Zeros. Um universo paralelo e distópico onde reina a destruição, mas que, segundo McKenna, é um mundo muito semelhante ao nosso. Nesta faixa existem várias referências ao espaço, que é um dos temas recorrentes ao longo do álbum.

Be an Astronaut” traz um tom mais sóbrio e menos agressivo. Acompanhada pelo piano, a letra apresenta-nos a história de Daniel, um dos personagens ficcionais que McKenna cria para nos inserir neste universo. Sabemos mais sobre este personagem na quinta faixa, “Daniel, You’re Still a Child”, em que descobrimos que Daniel é um rapaz isolado, intimidado e incompreendido. Segundo o cantor, esta faixa engloba a história de todo o álbum: o facto de que o mundo não foi feito para todos.

Na terceira faixa, “The Key to Life on Earth”, somos confrontados com uma realidade um pouco mais próxima da que conhecemos. Neste caso, trata-se da terra natal de McKenna, algures nos subúrbios de Londres. O cantor reflete sobre a instabilidade política que tem pairado sobre a Inglaterra nos últimos anos, especialmente na zona onde cresceu.

Em “Beautiful Faces”, McKenna reflete sobre a evolução das redes sociais, as incertezas em relação ao futuro das mesmas e a forma como a tecnologia avança mais rápido do que os humanos que a utilizam. O cantor admite contar uma história autobiográfica na faixa “Emily”. No tema exagera as próprias características para retratar o sentimento de isolamento e de se sentir perdido. Ao longo da faixa somos confrontados com guitarra acústica num estilo folclore.

Na sétima faixa, “Twice Your Size”, McKenna aborda as causas climáticas. Reflete, ainda, sobre como, às vezes, as pessoas que falam mais alto são que as têm mais atenção, apesar de não serem as que têm os melhores argumentos. A guitarra vibrante combina na perfeição com a euforia da voz do intérprete.

Os temas de destruição presentes no álbum culminam na penúltima faixa, “Sagittarius A*”. Nesta faixa aparece um personagem poderoso, Noah, que serve como uma voz de autoridade que não se preocupa com os outros e que destrói o que existe de bom no universo criado por McKenna. A última faixa, “Eventually, Darling” serve como uma espécie de assentar de poeiras após a destruição causada na faixa anterior. Fala sobre a forma como o mundo muda e vai continuar a mudar e a não nos podermos agarrar a uma realidade que é efêmera.

Para concluir, podemos de dizer que Zeros reflete sobre a forma como nos destruímos a nós próprios e aos outros, enquanto estamos a ver o mundo a ser destruído sem conseguirmos fazer muito para o mudar. No fundo, transmite de uma forma abstrata o modo como o mundo que nos rodeia se tem transformado e nos transforma a nós. Sem dúvida, um dos melhores álbuns rock de 2020 e que solidificará o nome de Declan McKenna no panorama musical para os próximos anos.