Lançado a 21 de dezembro de 1988, o Christmas at Pee Wee’s Playhouse Special trata-se de mais um episódio especial, traduzido num telefilme, de Pee-Wee Herman. Transcrito para uma época mais atual, Pee-Wee Herman seria, nada mais nada menos, do que uma Dora, a Exploradora. Repleto de perguntas retóricas à espera de uma resposta da audiência, explora o verdadeiro significado do Natal, sem descurar algumas críticas sociais. Sendo assim, apesar de produzido para crianças, é mais do que adequado para adultos, se tiverem muita paciência.

Christmas at Pee Wee’s Playhouse Special faz parte de uma coletânea de séries e filmes para miúdos e, consequentemente, para graduados, que acompanhou gerações. Tudo começou em 1981 com The Pee-wee Herman Show. Seguiu-se, com variados intervalos de pausa, um reportório de telefilmes (1988-2011), produções cinematográficas de grande escalada (1985-2016), conhecidas por filmes, e ainda a sua extensão para a Internet (2010). Apesar de poder ter optado por outras obras da coleção, o espírito natalício impediu-me de o poder fazer.

Christmas at Pee Wee's Playhouse Special

Como referido anteriormente, o telefilme pretende explorar o verdadeiro significado do Natal, fazendo-se acompanhar de todas as tradições que antecipam a data, algumas que efetivamente realizamos, outras que gostaríamos de cumprir, mas dão demasiado trabalho. De qualquer das formas, a cena introdutória suscita-nos algumas dúvidas sobre se embarcamos numa versão fictícia de tais costumes. É-nos dada a conhecer uma raposa, sendo impossível desviarmos a atenção do seu percurso. O mamífero percorre um campo repleto de neve e com pinheiros, devidamente decorados, quando nos deparamos com uma extraordinária nova forma de entregar presentes.

Vejamos agora se sou apenas eu que considero a metodologia estranha. De uma forma não menos visualmente harmoniosa, um conjunto de duendes passa, de mão em mão, presentes embrulhados. Até aqui tudo bem. No entanto, segue-se a deposição dos mesmos num poço tradicional. Longe de encontrar outra explicação, creio que nada mais poderá ser do que um rabbit hole para a casa do Pai Natal ou, até mesmo, para a casa de todas as crianças que realizaram, com alguma antecedência, a sua lista de Natal.

Seguidamente, é-nos demonstrada a habitação de Pee-wee Herman (Paul Reubens), devidamente decorada no exterior. Uma porta abre-se e somos bombardeados com a primeira música de Christmas at Pee Wee’s Playhouse Special. Sendo assim, deparamo-nos com um coro masculino vestido com o traje militar, que inicia a composição: “Oh, é Natal no Playhouse / E nossos corações estão todos acesos / Bem-vindo ao Playhouse / Para o especial de Natal do Pee-Wee / Oh, as férias estão aqui novamente / Paz na terra, boa vontade e alegria / E nós desejamos uma saudação da estação / Nesta época especial do ano”.

Como conseguimos perceber, esta música inicial transcreve-se numa mensagem de boas vindas e pretende dar mote ao início deste especial. Contudo, creio que outros significados poderão ser extraídos. Desta forma, a minha primeira interpretação prende-se com uma homenagem ao serviço militar e a todos aqueles que, por se encontrarem em missões militares, não conseguiram passar esta época tão especial com as suas famílias.

De qualquer das formas, esta é apenas uma das múltiplas músicas de Christmas at Pee Wee’s Playhouse Special. Como habitual, Pee-wee Herman faz-se acompanhar dos seus típicos sidekicks: Jambi, um génio mágico que vive numa caixa de jóias e, obviamente, apresenta o propósito de cumprir os desejos da personagem principal; Billy Baloney, um ventríloquo; Cowntess que, como o próprio nome indica, é uma vaca condessa que produz trocadilhos deliciosos; e Pterri, um pterodáctilo verde medroso, mas sempre animado, entre muitos outros.

Para além disso, a personagem principal faz-se acompanhar de convidados especiais, incluindo Annette Funicello, Frankie Avalon, Grace Jones, K.D. Lang, Dinah Shore, Little Richard, Cher, Magic Johnson, Zsa Zsa Gabor, Del Rubio Triplets, Whoopi Goldberg, Oprah Winfrey, Joan Rivers e Charo. Como foram capazes de identificar, alguns destes convidados correspondem a artistas musicais conceituados. Sendo assim, contamos com as versões de “Little Drummer Boy”, com Grace Jones, de “Jingle Bell Rock”, com K.D. Lang, de “The Twelve Days of Christmas”, com Dinah Shore, de “Winter Wonderland”, com Del Rubio Triples” e, por fim, de “Feliz Navidad”, com Charo.

Christmas at Pee Wee's Playhouse Special

Em adição à interatividade subjacente às músicas protagonizadas, Christmas at Pee Wee’s Playhouse Special conta com um conjunto abastado de atividades didáticas. Para além das típicas perguntas retóricas à Dora, a Exploradora, somos presenteados com um jogo de conexão dos pontos, um momento de Art Attack versão Natal, um cartoon sobre a época natalícia com Penny Cartoon e duas instâncias de interculturalidade, onde são exploradas as diferenças do Natal americano com o espanhol e a percepção das cerimónias do Natal por parte de outras religiões.

Através dos exemplos apresentados, conseguimos perceber a dimensão educacional do telefilme. Apesar do conjunto imenso de atividades didáticas, o projeto não é exaustivo para as crianças, uma vez que apresenta um conjunto imenso de piadas e de momentos de discussão de tópicos interessantes para essa faixa etária. Já para os adultos, o telefilme poderá ser demasiado infantil e, consequentemente, cansativo. De forma a contrariar essa tendência, os criadores optaram pela realização esporádica de críticas sociais e algumas piadas, claramente direcionadas para adultos Aquando o encontro com Miss Yvonne, os peixes de Pee-wee Herman referem: “dá-nos um grande beijo molhado”, entre muitos outros exemplos.

Ao longo de 49 minutos, é explorada a futilidade associada ao Natal: a construção de uma lista de pedidos de prendas exageradamente grande, a suscetibilidade, caída do céu, para uma boa predisposição, uma tentativa para remediar os maus comportamentos de um ano num curto período de tempo e a tentativa reforçada de afirmarmos os nossos feitos para que sejamos eventualmente compensados. Ademais, é ainda apontado o consumismo: “O Natal não passa de uma exploração comercial. As grandes empresas é que lucram com o sentimento de culpa do consumidor”.

Para além disso, é referido algo que creio que todos seremos culpados, nem que seja apenas uma vez na vida: o agradecimento e o contentamento com prendas que, efetivamente, odiamos. De qualquer das formas, acho por bem referir que Pee-wee Herman foi realmente um infelizardo. Digamos que ninguém merece receber um bolo rei de todos os convidados da sua festa. No entanto, o telefilme demonstra uma certa partilha cultural universal, o ódio pela confecção gastronómica típica do Natal.

Antes de concluir, gostaria apenas de referir que a qualidade de Christmas at Pee Wee’s Playhouse Special não é a melhor. Contudo, temos de o ver à luz do seu tempo. Quando optarmos por esse filtro, creio que concordamos em uníssono que o trabalho visual da obra é extraordinariamente surpreendente. Da mesma forma que os criadores tiveram de ser criativos na construção da narrativa, nós, espectadores adultos, temos de ter paciência para esta obra tão infantil.