Desde o lançamento há quase 20 anos (2001), Jane Doe tem sido um dos álbuns mais celebrados dentro do género de metalcore. Simultaneamente, no mesmo espaço de tempo, a influência de Converge tem-se expandido para além da popularidade da sua música.

Este pedaço de música histórica não é para as pessoas com um coração fraco. Atonal e abrasivo do início ao fim, os vocais tortuosos, batidas frenéticas e guitarras dissonantes misturam-se numa cacofonia de som claustrofóbico. Jane Doe é feio e cru ao mesmo tempo que, de alguma forma, harmonioso na sua própria maneira demoníaca.

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O impacto da banda no underground e na música extrema é prevalente tanto atrás das cortinas como em palco, com o guitarrista, Kurt Ballou, ao trabalhar com inúmeras bandas recentes, e com Jacob Bannon, que co-fundou a “Deathwish Records”.

Tanto o álbum como a banda mantêm um enorme peso, tanto relativamente à influência atual, como também no interesse universal – apela aos diferentes níveis de fãs de metal. Isto porque Jane Doe, entre outros álbuns, na altura do seu lançamento, representa uma inovação no mundo do metalcore. Com mais dinâmica, experimentação técnica e com conjugação de diferentes géneros, mantém a integridade e agressividade pelo qual o género é conhecido.

Mas o que é que faz com que Jane Doe seja tão bom? Vários fatores entram em jogo: o som aterrador, as performances repletas de energia, vocais indecifráveis com o nível de adrenalina e angústia que estes carregam. Este álbum é a personificação de dor de ouvido.

O apelo de Jane Doe não se baseia apenas no som, mas também nas “nuances” estilísticas. Apesar de ser considerado um projeto de metalcore, não se resume num aglomerado de barulho e breakdowns a cada meio minuto. Há claras influências de outros géneros que ajudam a digerir melhor o álbum. Temos a faixa “Distance and Meaning”, a sua aura de post-punk e o início de “Thaw” com os riffs e batidas desorientadoras e matemáticas.

Hell to Pay” traz consigo elementos de post-rock que, embora sejam momentos mais calmos, não se livram de nos encher de ânsia com os vocais reverberados e distantes de Jacob. A contagiante bassline que perdura pela faixa acrescenta ainda outro nível de textura nos momentos antes da pesada “explosão” sonora, lenta e corroída.

Em “Homewrecker” a banda forma mais uma banger, agora com um soco de heavy metal em crack pelo meio, perfeito para partir pescoços. Converge não oferece apenas mais diversidade num só projeto relativamente aos seus contemporâneos, mas, ao mesmo tempo, o som alto e excruciante faz com o que o resto do som soe mais coeso do que realmente é.

Jane Doe tem uma apresentação exímia, cônjuge com um ritmo arrepiante e persistente. Desde o início, com a faixa de abertura “Concubine”, temos pouco mais de um minuto de absoluta destruição sonora que deixa qualquer pessoa ansiosa pelo que mais se avizinhará. As batidas nítidas, os gritos grotescos, leads perturbadores, mas viciantes na sua execução, e riffs poderosos vão deixar qualquer amante de metal a saltar de raiva (boa raiva).

Com uma transição subtil, passamos para “Fault and Fracture”, uma faixa com um som tão visceral e rápido que parece que o meu ouvido não acompanha às vezes. A parte mais estonteante e cativante da música é a melodia aos 1:54, que coloca em pausa o caos até agora. Com apenas um tremolo picking, crescente e escuro, Converge apanha-nos de despercebido e força a nossa atenção para esse momento. Este som cresce e fica cada mais rápido até que chegamos a um final frenético.

Converge sabe que, para uma melhor experiência auditiva, eles não podem simplesmente atirar tudo para uma panela e servir-nos o mesmo tipo de sopa, faixa após faixa. Ao início sim é delicioso e pedimos mais uma dose depois, mas passado um bocado começa a enjoar. Então, a partir deste ponto, a banda começa a mudar o som.

Em “Distance and Meaning” não só temos a mudança para o lado mais post-hardcore, como também uma mudança vocal – que oscila entre o calmo e o maníaco. O talento de Converge não assenta apenas na capacidade que têm de “embelezar” estes momentos cacófatos. Encontram, também, novas formas de modificar o noise que produzem – ouvir faixa “Bitter and Then Some” e vão perceber o que estou a dizer.

Na parte final do álbum, temos ainda mais variedade sonora, nomeadamente em “Phoenix in Flights”, uma das minhas favoritas do projeto, com um som muito mais lento, com elementos de drone, caraterístico do género de doom/sludge metal. A certos pontos, é comparável até com Sun O))) – uma das bandas mais marcantes neste espectro.

Em “Thaw” temos dos momentos mais frenéticos do álbum em termos de guitarras e bateria. O som esquizofrénico e os vocais maníacos nunca param de nos gritar na cara e torcer os nossos tímpanos. Mesmo na parte mais lenta, os gritos extensos, a acompanhar riffs mais melódicos, fazem arrepiar a pele mesmo dos ouvintes mais acostumados a este tipo de música.

Por fim, temos a monstruosidade que é a última faixa, “Jane Doe”. Temos de dar crédito quando este é merecido. A coragem que Converge tem de acabar este impetuoso álbum com uma música de 11 minutos e conseguirem criar algo verdadeiramente bom é inexplicável. Quando estas músicas são feitas, acabam por ser, por vezes, aborrecidas por não terem tanto conteúdo e substância. Mas isso é tudo o que não descreve esta peça final do álbum.

Um momento verdadeiramente lento, abrasivo, melódico até, em certas partes, e multifacetado, com diferentes fases que transitam com uma fluidez sem paralelo. “Jane Doe” consegue, deste modo, encapsular o álbum todo.

Converge criou uma obra-prima de emoção pura, crua e sem filtro. Apesar de serem praticamente indecifráveis, as letras das músicas (sim, este álbum tem lírica e não apenas gritos) aprofundam poeticamente o ambiente caótico formado. O tema deste álbum revolve à volta do “desencanto do amor”, sendo este comparado muitas vezes à morte pelo vocalista. Jane Doe é um testamento para o poder do amor, mas na perspetiva desoladora do mesmo.

Jane Doe estipula-se como um monólito abrasador na discografia de Converge, considerando que até hoje a banda tem incorporado cada vez mais melodia e harmonia no seu som. A banda mostra que a beleza e a feiura são dois lados da mesma moeda. É isto que faz com que o álbum seja um clássico no seu género e um que serviu, serve e servirá de molde para o mundo do hardcore.