Falar de Bruce Springsteen é falar de uma lenda musical. Com 71 anos, a rock star de Nova Jersey continua a dominar o mundo do rock. A 23 de outubro, o músico deu a conhecer o 20.º álbum de estúdio, Letter to You, gravado com a E Street Band.

A carreira de mais de 50 anos dá ao cantor, compositor, violinista e guitarrista um lugar de destaque entre as vozes mais aclamadas do século. O álbum Letter to You é um regresso do Springsteen dos anos 70 e 80 e, para os verdadeiros fãs, uma lembrança do álbum Tunnel of Love. Tem a particularidade de ter sido gravado “ao vivo” em apenas quatro dias, no estúdio caseiro de Bruce e sem overdubs (várias gravações). A nível de ritmo e sonoridade, lembra o típico “jersey rock anthem” tão característico do cantor, com letras maduras que fazem uma retrospetiva da carreira, vida, até mesmo dos fãs, e, especialmente, das perdas que sofreu.

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O single de estreia do álbum, “One Minute You’re Here”, demonstra exatamente essa aparente simplicidade da vida. Se ouvirmos com atenção, percebemos que acaba por ser uma carta de “redenção”, em que é mesmo dito que “thought I knew just who I was /And what I’d do but I was wrong” (Eu pensei que sabia quem eu era/ E o que eu faria, mas eu estava errado.) Relembrando que o compositor sofreu de um bloqueio artístico no ano de 2019, esta música poderá remeter exatamente para essa época e para a ultrapasso da situação. É logo aqui que é estabelecido o tom do álbum: um rock robusto, mas simultaneamente fácil de acompanhar e ouvir.

Na faixa que dá nome ao álbum, “Letter to You”, temos uma espécie de contexto geral das letras de todo o álbum. O que mais sobressai nesta música é mesmo a voz de Bruce Springsteen. Apesar do tom característico, é acompanhada com uma certa rouquidão, típica da idade que torna esta música, mais aproximada ao rock de “Born in the USA”, um pouco nostálgica. Também o domínio da bateria pelo “novo” baterista Max Weinberg é um ponto a destacar. Para os fãs mais antigos, um sorriso na cara é impossível de controlar.

Burnin’ Train” inicia com um incrível solo de guitarra protagonizado por Steven Van Zandt. Acompanhado pela bateria, formam um ritmo potente até à entrada do vocalista. Em relação à letra, são notadas várias referências bíblicas, mas simultaneamente dá a ideia de ser uma conformação com o passar da vida, com a aceitação de que o tempo passa e que é limitado.

A quarta faixa do álbum, “Janey Needs a Shooter”, é um clássico que faz lembrar os temas mais old school do artista. Com uma duração de quase sete minutos, o som da harmónica remete-nos automaticamente para um Velho Oeste, tema muito usado na discografia de Springsteen. De facto, não é possível falar desta música isoladamente. A faixa, junto com a “If I Was the Priest” e a “Song for Orphans”, formam um trio explosivo: não só pela extensa duração comparativamente às outras, mas também por se aproximarem ao género de balada, com algumas referências religiosas e a adoração pelo Velho Oeste. Estes três temas também acabam por contrastar com o resto do álbum, que é mais moderno, introspetivo, e, de certa forma, pessimista.

O hino do álbum, “Last Man Standing”, é o clímax desta colaboração de Bruce Springsteen com a E Street Band. Nesta faixa, vemos Springsteen, já idoso, a falar dele mesmo, com uma visão “fora do corpo” e onde somos levados a uma viagem pela carreira do cantor. Aqui ele afirma que foi a força do rock que o ajudou durante os vários anos e que é dos últimos representantes deste género musical da sua geração. “Rock of ages lift me somehow/ Somewhere high and hard and loud /Somewhere deep into the heart of the crowd/ I’m the last man standing now”. Também um som familiar é ouvido aos três minutos e 33 segundos: o saxofone.

A sexta faixa, “Power of Prayer” é a canção que existe em quase todos os álbuns e é considerada a ghost track: uma música com imenso potencial, mas que no fim acaba por não acrescentar nada na compilação. Apesar de uma sonoridade leve e chamativa, em parte devido ao trabalho de Jake Clemons no saxofone, a verdade é que é uma música romântica, mas um pouco desviada do resto das letras.

No entanto, a seguinte, “House of a Thousand Guitars”, recupera o brilho do disco. Um acompanhamento perfeito de piano por Roy Bittan à voz rouca de Bruce. Uma balada que incentiva à concentração total, ajudada quem sabe pelo fechar de olhos, e que se poderia descrever como simpática. A faixa perfeita para explicar o porquê de ser apelidado de “The Boss” na indústria musical.

Segue-se “Rainmaker”, uma faixa que grita Bruce Sprigsteen. Apesar de uma lírica muito virada, mais uma vez, à religião, a sonoridade é rock puro. É uma boa faixa de preparação para a próxima (“If I Was The Priest”) que, como referida em cima, tem perto de sete minutos de duração. Acrescentando à análise acima feita de “If I Was The Priest”, apenas é relevante destacar o início acústico da faixa, que atenua a extensa duração da mesma.

A antepenúltima música, “Ghosts”, tem o início digno de uma verdadeira estrela de rock. O som isolado da bateria a marcar o compasso para a entrada do vocalista é a escolha perfeita para o seguimento da longa composição anterior. A vontade que dá é de dançar à volta da sala, com o volume no máximo e a relembrar os tempos passados, não fosse esse o objetivo desta peça musical. Parece que é gravada num concerto ao vivo, ouvindo-se mesmo Bruce a gritar “One, two, One, Two, Three, Four!” que daria entrada ao bater uníssono das palmas por parte do público.

Song for Orphans” é a última do trio explosivo. É uma autêntica obra musical, com uma lyrics muito massiva, mas um verdadeiro retrato da sociedade. Uma música que se enquadraria facilmente num videoclip de um avô a contar a sua vida aos netos em formato de música.

O mote deste disco foi o tiro certeiro. “I’ll See You in My Dreams” é leve, alegre ao mesmo tempo que é melancólica e um resumo das 12 faixas de Letter to you. É uma despedida de alguém que já não existe, mas uma despedida alegre, uma vez que é referido que ainda o verá em sonhos (“I’ll see you in my dreams”). Havendo duas interpretações possíveis – por um lado, a despedida de um Bruce Springsteen jovem, dando lugar a um Springsteen mais velho e maduro, mas sem nunca esquecer o que foi em tempos; por outro, pode ser a homenagem aos falecidos pertencentes da E Street Band (o saxofonista Clarence Clemons e o teclista Danny Federici).

Letter to You” não é somente um álbum de música, mas também um documentário homónimo realizado por Thom Zimny. O projeto áudio-cinematográfico pretende retratar a emoção e a força comovedora das músicas, mostrando como este foram criadas e gravadas, permitindo uma aproximação dos fãs ao artista e ao processo criativo do mesmo.

O álbum em si acaba por ser uma dedicatória emotiva e um agradecimento a todos os que já fizeram parte da banda e partiram. É, também, uma ode aos que ainda cá estão e que, assim como Bruce Springsteen, continuam a fazer música como se de jovens no auge da idade se tratassem (e na verdade não se ficam tão atrás).