A arte de rua nunca precisou de um tempo ou espaço para acontecer. Surge nos lugares menos esperados para dar cor ao dia de quem passar. O espaço público sabe-nos a liberdade, porque assumimos que é o único sítio em que, à partida, todos temos os mesmos direitos. No entanto, todos aqueles que ousam ser verdadeiramente livres carregam em si a cruz de serem censurados.

O objetivo da arte urbana é, precisamente, sair dos lugares tipicamente destinados a exposições e espetáculos, de forma a dar visibilidade à arte quotidiana e a provocar reflexão nos trauseuntes. Infelizmente, nem toda a gente entende a importância destas manifestações artísticas na construção e evolução de uma sociedade, estando os artistas sujeitos a todo o tipo de discriminação.

Numa sala de espetáculos haverá sempre uma linha que separa o artista do público, mas na rua estes fundem-se. Assim, uma pessoa que pague para assistir a um concerto e não saia satisfeita adotará sempre uma conduta politicamente correta. Em contrapartida, na rua, o indivíduo sente que tem o direito de agir da forma que lhe for mais conveniente, podendo inclusive chegar a ser violento com o artista.

Deste modo, apercebemo-nos de que o espaço público livre e comum se torna numa selva, na qual a arte está no fundo da cadeia alimentar. O artista é visto como um fora de lei, sem princípios ou perspetivas de vida e, por isso mesmo, é menosprezado. Não há qualquer tipo de proteção da pessoa nem do seu equipamento, que por sinal implica grandes investimentos.

A razão pela qual tantos artistas nacionais emigram para Inglaterra e acabam a tocar nas ruas de Londres não é moda. Efetivamente, existem países que valorizam a importância da arte urbana, por exemplo, como atração turística, dando o apoio e segurança necessários a tornar possível fazer da arte de rua uma profissão.

Com isto, não proponho uma administração do espaço público através de uma associação qualquer que pretenda controlar as diversas formas de expressão cultural, obtendo dinheiro através das mesmas, sobre a fachada de as representar. Defendo sim a existência de licenças de trabalho acessíveis e a um preço simbólico emitidas diretamente pela Câmara a todos os artistas de rua sem exceção. Estes devem permanecer independentes e autónomos.

Apesar do silêncio de uns, as ruas da cidade continuarão a ter música para muitos outros. A arte é para todos e, por isso, enquanto houver uma criança que pare para analisar um estátua ou ouvir um músico tocar vai valer sempre a pena continuar. Um artista de rua não faz arte por dinheiro. Ele dá-te um pouco de si quer tu passes e pares ou o ignores completamente.

A cultura é relevante política, social e economicamente. O seu propósito é muito maior do que o entretenimento ou a representação da realidade. A arte inspira-nos, ajuda-nos a refletir e a assumir posições, devolve-nos às nossas raízes e faz-nos reconectar uns com os outros. Ignorar a cultura é matar a nossa essência.