Nesta época de Natal atípica, o ComUM foi perceber as dificuldades vividas pela atividade circense.

Por tradição, Natal é sinónimo de circo. Seja na televisão ou no terreno, e sobretudo nesta época, esta variante de espetáculo faz as delícias dos mais novos, surpreendendo e divertindo também os adultos.

Contudo, em 2020, a covid-19 forçou a uma paragem sem fim à vista para muitos circos, apesar de outros ainda conseguirem subsistir neste fim de ano sem quaisquer apoios financeiros. Rúben Freitas e Pedro Santos testemunham a situação de quem, mesmo assim, não ficou com a vida em suspenso.

“Estamos mesmo por nossa conta”

A angústia de quem vive tempos difíceis reflete-se nas palavras de Rúben Freitas: “um ano para esquecer”. Para além do confinamento que levou à interrupção dos espetáculos, o empresário de 39 anos destaca as Câmaras Municipais como o “pior inimigo” dos profissionais do circo. “Estávamos autorizados a trabalhar pelo Governo e algumas Câmaras não passavam autorizações”, revela.

Contudo, neste Natal, o seu circo e outros dois foram os únicos que se mantiveram em atividade do universo de 30 circos em Portugal. “A nossa sorte foi termos algum dinheiro guardado dos outros anos”, admite o responsável pelo Ruben Circus, agora instalado em Braga porque o Município também “facilitou as licenças e não deixou que a cidade ficasse sem circo”.

Ruben Circus

Joana Mafalda Gomes/ComUM

Para além disso, Rúben Freitas lembra o “esquecimento” do setor ao nível das ajudas estatais. No entanto, salienta o esforço da APEAC – Associação Portuguesa dos Empresários e Artistas de Circo – para o reconhecimento da arte circense “como cultura” e espera que, no próximo ano, a associação valide essa conquista e “consiga alguns apoios”.

Sobre o futuro, o empresário continua cético quanto à disponibilidade das Câmaras Municipais para “aceitarem” os circos. Ainda assim, acredita que a vacinação poderá ser o sinal de esperança de que “isto vai melhorar”.

Ruben Circus

Joana Mafalda Gomes/ComUM

“Para mim, circo é circo. Em Portugal não o é”

Pedro Santos, 22 anos, é artista circense. Até este ano atuava como palhaço num circo que costumava ficar em Braga pelo Natal, mas deixou de trabalhar no início da pandemia no país e foi chamado no verão para um dos três circos que estão agora em atividade.

Desde então, reconhece que o trabalho tem sido escasso, salientando as restrições nos fins-de-semana como um dos principais entraves à atividade. Para além disso, sublinha que “as Câmaras Municipais não são respeitadoras” da arte circense no que toca aos valores das licenças. “Há Câmaras que nos pedem 15 mil euros por um fim-de-semana, é ridículo”, acrescenta.

No entanto, o artista considera que o maior problema reside nos apoios do Ministério da Cultura. Estes excluem o circo tradicional, que constitui “por norma um espetáculo de variedades sem um fio condutor”, e direcionam-se para o contemporâneo, com “uma história ou temática” definida. “O que se põe à frente da palavra ‘circo’ é que nos distingue de forma errada”, afirma, esclarecendo que “o contemporâneo é apenas uma evolução do tradicional”.

Sobre o reconhecimento do circo como atividade cultural, o sentimento é agridoce. Por um lado, considera benéfica a atribuição desse estatuto, mas, por outro lado, não esquece as dificuldades que atravessa o setor cultural. “Não é por passarmos a ser cultura que as coisas se vão tornar ouro sobre azul, infelizmente”, reitera, apesar de acreditar que esta mudança vai dar oportunidade a “todos os circos de se poderem candidatar aos apoios”.

De um modo geral, Pedro Santos defende que “o circo em Portugal está vivo” e dá o exemplo de transformações como a integração de pessoas “sem raízes” na atividade, que é o seu caso. Lembra também o “enorme potencial” das novas gerações, mas não deixa de reforçar a urgência de investimento no setor. “Caso contrário, nós vamos desaparecer”, finaliza.