O grupo “Origem Tradicional” lançou um álbum, em parceria com a Antena 1, chamado “Natal Tradicional”. O ComUM esteve à conversa com Daniel Pereira Cristo, membro e produtor, para saber mais sobre o disco e a música tradicional.

ComUM – Porquê investir na música tradicional? Acha que esta é valorizada em Portugal?

Daniel Pereira Cristo (DPC) – Falando de mim, eu cresci no seio deste grupo, do Origem Tradicional. Foi a minha escola, foi aqui que eu aprendi. Aqui, ganhei paixão pela raiz da nossa cultura, a cultura que chegou até nós. Neste contexto, é interessante o facto de referir que nunca se falou tanto da irmandade no norte de Portugal com a Galiza, como agora. E se formos à fronteira com a Galiza, não conseguimos distinguir a forma como se fala português, da forma de como se fala galego. Esta questão da língua e da sua força que tem já mais de mil anos, é tão fantástica como efémera. Nos últimos 50 anos, também devido à ditadura, foi-se perdendo a forma “normal” de como as pessoas se expressavam. Ainda mais se perdeu com os meios de comunicação social, que acabou por uniformizar a língua. Os jovens pouco falam galego, agora.

Porquê referir isto? Porque nós temos como adquirido o cavaquinho, a viola braguesa, as caixas tradicionais, os adufes, a nossa música, a nossa polifonia. Só que isto desaparece com uma facilidade incrível. Atualmente, somos tão permeáveis à música anglo-saxónica, à que é “fixe” ouvir. Cada vez mais, as pessoas são levadas a ouvir e a gostar do mesmo. Espero, no entanto, que haja resistentes que queiram ouvir coisas diferentes. Mas, a explicação está no ver as pessoas em gostar de aparecer no “Super Bock, Super Rock”, no “Rock in Rio” porque “eu é que sou fixe”. As pessoas nem veem nada. A emoção é a “emoção do rebanho”, porque aquela emoção de estar num espetáculo, a metros dos artistas e de comungar ali algo novo e diferente, de se deixarem surpreender, já não acontece. Eu acho que isto é o mais importante, é o que nos humaniza, o que nos faz refletir sobre a vida e de formar-nos a nós próprios, sendo essa a função da cultura.

Ou seja, para além de gostar, acho que é um legado que devemos tentar preservar. O meu maior sonho é poder levar a nossa música de raiz aos festivais de “world music”. Portanto, aquilo que o “Origem” me ensinou e aquilo que faço é muito importante.

O “Origem Tradicional” é dos últimos grupos do tradicional que existem em Portugal. E, os grupos culturais estão a fazer aquilo que os ranchos folclóricos deviam fazer. Estes costumam dizer que estão a reavivar a música, os costumes e os trajes do século XVIII e XIX. Mas, nesses séculos ainda nem existiam concertinas, pelo que o trabalho que admiro em termos de trajes e danças, em termos musicais está um pouco perdido.

ComUM – Pretendem, enquanto grupo, ter uma abordagem que chegue ao público mais jovem?

DPC – Se não houver coisas boas e bem feitas, ninguém vai gostar. Nem mesmo os jovens. As coisas não têm sido bem feitas, nestas áreas. Os ranchos folclóricos têm que tentar adequar os seus reportórios às vozes que têm, usar mais cordofones e tentar manter as peculiaridades das suas regiões.É completamente diferente quando pegamos numa mesma música e a tocamos e cantamos bem. Algumas pessoas quase não conseguem sequer distinguir as diferenças de um rancho folclórico do Minho, de um da Beira Alta e de outras culturas no sul do país. Portanto, o problema não está relacionado com a abordagem, porque se tiveres uma pessoa aos berros e só se ouvir concertinas, é lógico que muita pouca gente vá gostar daquilo.

ComUM – Fale-nos um bocadinho sobre este novo álbum “Natal Tradicional”. Como é que se tornou possível a parceria com a Antena 1?

DPC – Eu já tinha um desejo muito grande de fazer com o “Origem” este disco, porque nos últimos oito anos temos vindo a cantar algumas músicas de Natal no âmbito daqueles programas da Câmara Municipal de Braga,“Braga é Natal” e “Natal de rua”, e ficou o desejo de fazer este disco.

O “Origem” tem, então, um protocolo de descentralização com o Município de Braga, no qual existe uma verba. Este ano, sugeri que essa verba fosse na íntegra para a produção deste CD. O disco nunca foi feito a contar com o apoio da Antena 1. Eu produzi, fiz os arranjos das músicas, gravei a malta e quando acabamos, mandei para lá. Como vi que houve ali um interesse, eu fui “esmifrando” ao máximo. Insisti para receber uma resposta e no dia em que pedi para produzir o disco, enviei email a informar de que já o tinha feito com ou sem o apoio deles. Dentro de um curto espaço de tempo, eles responderam que tinham interesse. E foi bom, porque passar numa rádio nacional é algo que qualquer artista anseia.

Nós apresentamos no programa “Viva a música” que foi, durante 25 anos, o único programa de música ao vivo na rádio portuguesa. Mas, acontece que as pressões dos mainstreams acabaram com aquele programa. Isto porque vai começar outro, certamente igual, mas mainstream.  Eles arranjaram forma de acabar: o apresentador do programa fez 70 anos e, supostamente, com 70 anos as pessoas não podem trabalhar na função pública e eles arranjaram essa desculpa. Isto porque imagino que vá começar outro, do género, mas certamente mainstream. E, eu acho que a rádio devia ter essa função: a de dar palco a todos e acima de tudo, dar palco àquilo que nos caracteriza e distingue.

ComUM – O quão importante é pertencer a grupos culturais para alimentar o gosto pela música?

DPC – Eu sempre fui uma pessoa associativa e acho que é fundamental. É importante discutir e debater ideias contrárias e as pessoas já nem o sabem fazer. As redes sociais controlam-nos através de algoritmos que nos coloca num “quadrado” onde ouvimos e vemos aquilo que queremos, mas quando alguém debate uma ideia connosco, nem conseguimos colocar-nos no lugar do outro. Nesse sentido, acho que a música tradicional é isso. É saber quem somos, para saber quem é o outro. Conhecer outras culturas e a magia do que acontece à volta. O pessoal está a viver em mundinhos pequeninos e acaba por perder a essência da coisa: que é lutarmos por algo em comum- e as associações são uma experiência fundamental porque é o encontro de ideias.