A cantora barcelense conversou com o ComUM sobre o seu trajeto musical, falando também do mais recente trabalho e do convite para o Festival da Canção 2021.  

De Barcelos para o mundo, Fábia Maia tornou-se conhecida em 2014 ao lançar vídeos no Youtube de versões acústicas de hip-hop nacional. Em 2017, estreou-se com o EP Melodia-me, produzido por SuaveYouKnow, e a partir daí lançou alguns singles como “BarcelonaParis”, “A Vibe Certa” e “#nemsei”.

Em 2020, deu-nos Santiago, o seu segundo EP, que descreve como “um goodbye ao hip-hop”. Para além disso, recebeu o convite para se apresentar como compositora já na próxima edição do Festival da Canção, em fevereiro.

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ComUM – Começaste no Youtube, em 2014, a fazer versões acústicas de hip-hop nacional. Antes disso, quem era a Fábia?

Fábia Maia – Eu sempre fui uma rapariga muito complexada: ou porque tinha o cabelo “palha de aço” ou porque estava acima do peso. Mas a minha avó, que vivia comigo, insistiu muito para que eu tocasse um instrumento, para me libertar. Na altura, tinha eu 10 ou 11 anos, ela ofereceu-se para me pagar as aulas de música. E foi assim que tudo começou. Eu escolhi a guitarra, até porque já tinha uma guitarra de plástico e, nas noites de cinema que fazíamos aos sábados à noite, eu dizia: “Não, agora é a minha vez de atuar”. Mais tarde, tive um desgosto amoroso com uma rapariga que gostava muito de hip-hop e, para chegar novamente a ela, decidi então pôr vídeos no Youtube.

ComUM – Que importância teve essa exposição na Internet para começares a criar a tua própria música?

Fábia Maia – Ajudou-me a perceber que as pessoas gostavam de me ouvir, independentemente se fizesse covers ou não. Eu já escrevia há muito tempo, então decidi: “Vou fazer uma cena minha e, se correr bem, correu”. Gosto muito de contar a história de quando conheci o Slow J, no primeiro festival Rimas e Batidas [em 2015]. Eu estava sozinha, com a minha guitarra às costas, e ele parou à minha frente e disse: “Sabes, Fábia, eu sou muito teu fã. Não sei qual de nós vai chegar primeiro, mas vamos chegar os dois”. Ele chegou primeiro, eu ainda estou a chegar, mas isso foi muito interessante para mim.

ComUM – O teu EP de estreia, Melodia-me, lançado em 2017, trouxe-te logo colaborações com Slow J e Jimmy P, dois nomes conhecidos do hip-hop português. Como surgiram essas parcerias?

Fábia Maia – Eu queria que o Slow J participasse na “Melodia-me”, que era o single do EP. Assim, quando lhe falei da música, ele disse-me: “Vem mesmo a calhar, porque estou com uns problemas com a minha namorada.” Foi mesmo engraçado, porque ele disse “eu sinto e vou fazer isto”. Com o Jimmy estive num concerto em que fui cantar com o Valete à Póvoa [do Varzim] e ele era convidado do Valete. Mal acabei de cantar, ele pôs a mão no meu ombro e disse: “Nós temos de falar”, como quem diz “Vamos fazer alguma coisa juntos”. Então fiz a “Má Vida”, que trabalhei com o Jimmy para o álbum dele, e ele trabalhou comigo a “Tu já não me pões a mão”, a pedido dele. E foi assim que trabalhámos juntos.

ComUM – Em 2020, lançaste o segundo EP, Santiago. Como descreves este trabalho?

Fábia Maia – Santiago é uma coisa muito bruta, mas, ao mesmo tempo, muito sensível. É quase um goodbye ao hip-hop. Antes tinha lançado três ou quatro singles, espontaneamente, e andei esse tempo todo à procura de mim. Olhava para um Jimmy P ou um Gson, que estavam em crescendo, e queria fazer igual a eles. Então, antes do Santiago, decidi: “Não, eu vou fazer algo que vai marcar o fim da Fábia sem personalidade. Este EP vai ter personalidade, um cariz orgânico, gente que percebe de música”. E foi isso que pensei: “Volta lá atrás e pensa bem em quem são os teus ídolos”. Por muito que goste do Jimmy e de outros, eles não são os meus ídolos.

ComUM – Então este Santiago foi, de certa forma, um reencontro com as tuas origens?

Fábia Maia – Foi. E o mais grave ainda foi o facto de perceber que, durante este tempo todo, eu andei a aprender, não andei a trabalhar. E foi agora quando mudei o chip, em que decidi misturar o rap com o jazz e a soul – no fundo, ser uma mistura de todas as coisas – que dei o ponto final. E a partir daqui vou voltar aos ídolos e àquilo que queria fazer quando tinha 10 ou 13 anos.

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ComUM – Nessa “mistura de todas as coisas”, há algum género que diga mais de ti?

Fábia Maia – Para responder a isso, tenho uma frase do meu avô, que era escritor e um grande pensador. Ele disse esta frase à minha mãe e depois escreveu-a em livro: “Eu sou todos os homens que vieram até mim e que em mim ficaram”. E é precisamente isso que eu sou, uma mistura de tudo o que vem até mim. Acho que hoje já não existem géneros, só personalidades e formas de ver o mundo. E nada me descaracteriza. Todos temos um processo evolutivo, e ainda bem que assim é. Agora o que me caracteriza mesmo são artistas muito desprendidos, que conhecem o mundo como uma forma de trabalho espiritual e energético. Aqueles que andam à procura do seu propósito, que não criam um.

ComUM – Muitos querem apagar da memória o ano que passou, mas 2020 trouxe-te a oportunidade de compor para o Festival da Canção. O que significa este convite?

Fábia Maia – 2020, para mim, foi o melhor ano da minha vida, porque tomei consciência de que eu sou eu e não vou ter medo de ser eu. Este foi o ano em que recuperei o que chamo de “coração intuitivo”, mas já há dois anos tinha dito aos meus amigos: “Eu vou ser chamada para o Festival da Canção”. Toda a gente se riu, mas a verdade é que, no ano passado, fui jurada regional no Festival. E, em novembro, voltei a dizer aos meus amigos que ia mesmo ao Festival e eles nem queriam crer. Por isso, eu sei que, quando penso com o coração, as coisas acontecem.

ComUM –  A seguir ao Festival, quais são os teus planos?

Fábia Maia – Tenho tudo já organizado na minha cabeça. Primeiramente, o meu plano é tocar lá fora e, com a repercussão que o Festival da Canção tem, poderão acontecer coisas muito boas também em Portugal. Depois, quero expandir-me para o mercado brasileiro, porque é um sonho meu e o meu pai é de lá. E, por último, desejo muito fazer uma colaboração com um dos meus ídolos: o Caetano Veloso. Gostava muito que o Caetano cantasse a música do Festival comigo para ter uma nova abordagem. Uma coisa mais Fábia, mais alma.

ComUM – E se ganhares o Festival?

Fábia Maia – Primeiro, o meu maior desafio vai ser fazer com que as pessoas entendam a minha linguagem, fazê-las perceber como é que uma gaja que faz uma música daquelas é tão descontraída e tão pouco “gringa”. Vai ser passar a mensagem, mas vou ter de a passar. E se eu ganhar, vou “fechar-me” com pessoas que eu realmente acredito que têm alma para tocar e vou lançar o meu primeiro álbum.