Carlos do Carmo deixou-nos esta sexta-feira, 1 de janeiro, ao fim de 81 anos de vida e quase 60 de palco. Foi o embaixador do fado português e levou o género a todos os cantos do mundo. Foi, é, e vai continuar a ser a voz da resistência de Portugal.

Nascido a 21 de dezembro de 1939, na capital, Carlos do Carmo era filho da fadista Lucília do Carmo e do livreiro Alfredo Almeida, proprietários da casa de fados O Faia, onde iniciou a carreira artística. Contudo, esse não era o plano traçado pelos pais para o fadista. Em 1956, enviaram-no para a Suíça para estudar línguas e gestão hoteleira. Mas o destino de Carlos do Carmo estava traçado.

lux24.lu

A vocação musical despertou em 1963, quando gravou um fado da mãe, “Loucura”, num disco do Quarteto de Mário Simões. Começou, então, a gravar regularmente desde 1980, quando saiu o álbum homónimo. A discografia do fadista inclui temas como “Lisboa Menina e Moça“, “Bairro Alto“, “Os Putos“, “Estrela da Tarde“, “Pontas Soltas” e “Um Homem na Cidade“. Soma mais de duas dezenas de álbuns, entre antologias, registos ao vivo e de estúdio. O último disco, E Ainda…, foi editado em novembro de 2020.

Carlos do Carmo foi um autêntico embaixador do fado. Apostou em diferentes registos que se verificaram como uma inovação do género que consagrou. Revelou uma voz límpida e uma dicção clara e cuidadosamente ajustada ao sentido de todos os temas do músico.

O artista não se limitou ao território português. Levou o fado aos principais palcos mundiais- do Olympia, em Paris, à Ópera de Frankfurt, do Canecão, no Rio de Janeiro, ao Royal Albert Hall, em Londres. Despediu-se dos mesmos a 9 de novembro de 2019, com um último concerto no Coliseu dos Recreios. Nele recebeu a chave da cidade em que nasceu e, no mesmo dia, António Costa destacou o contributo do fadista para a música portuguesa, concedendo-lhe a medalha de mérito cultural.

Com uma carreira com quase 60 anos, Carlos do Carmo foi o primeiro português a receber um Grammy, em 2014, mas a lista de condecorações parece infindável. Destacam-se o Globo de Ouro de Excelência e Mérito (1998), o Prémio Goya (2008) na categoria de Melhor Canção Original com “Fado da Saudade” e o Prémio de Cidadão Honorífico da Cidade de Paris (2015).

Carlos do Carmo foi muito mais do que um fadista português. Foi um impulsionador do género, a voz da revolução. Cantou o povo para o povo. É um motivo de orgulho para todos os portugueses. Resta-nos um agradecimento eterno e a recordação de um timbre inigualável. Para sempre um artista que fica para a cultura e história da música portuguesa.