Este foi o primeiro de três dias do evento “Academia à conversa”, promovido pela Associação Académica da Universidade do Minho e dedicado ao “Black History Month”.

Joana Gorjão Henriques, a convidada especial, é jornalista do Público. Começou por explicar que o racismo sistémico “é uma questão que afeta a sociedade portuguesa e na qual se deve refletir diariamente”. Quando confrontada com a questão sobre se o racismo em Portugal está a crescer, garantiu que “está mais desavergonhado”.

“Ao mesmo tempo que houve uma manifestação antirracista em revolta contra o assassinato de Bruno Candé, tivemos uma contra manifestação. Se há dois anos me dissessem que iria existir uma manifestação contra os antirracistas, eu não iria acreditar. Mas foi liderada pelo Chega, pelo André Ventura, que continua ativamente a mover as suas tropas contra os antirracistas. Eu diria que é assustador, se isto não serve para despertar alguns alarmes ou algumas bandeiras nas entidades públicas, eu não sei o que mais servirá. Estamos perante um panorama de ameaças de morte, um panorama de explicitação do racismo como eu nunca vi. E isso sim, é inédito em Portugal”, prosseguiu a jornalista.

De seguida, sublinhou que “as pessoas que eram racistas, são racistas, não se tornaram racistas por causa do Chega e do André Ventura. Passaram a deixar de ter medo de expressar o racismo e de ser racistas em público”. Contudo, todos estes acontecimentos “tiveram a vantagem de colocar a nu o que as pessoas diziam para dentro, envergonhadamente ao marido, vizinho, à amiga ou ao amigo”.

Joana Gorjão Henriques falou ainda nas “influências e imitações mais do ponto de vista dos líderes do que das massas”, referindo-se, assim, a Trump e Bolsonoro. “Há uma grande dose de ressentimento de muita gente que André Ventura, no caso português, conseguiu mobilizar e manipular”, concluiu.

Quanto à justiça portuguesa e se esta necessita de ser mais “robusta”, de modo a punir justamente os crimes de discriminação racial, a jornalista respondeu: “Não sei se é legislação ou a sua aplicação. Parece-me que temos instrumentos que permitem punir, mas se atentarmos à lei de combate à descriminação, é uma lei que institui multas, não criminaliza. E as multas são bastante baixas. Acaba por passar a ideia de que ser racista é barato”.

Refletiu ainda na necessidade da formação “desde os polícias até ao tribunal supremo”. Tal, pois, “quem pratica a lei tem de saber o que é o racismo e reconhecer situações de racismo”. Quanto ao papel da educação no combate ao racismo sistémico, Joana Gorjão Henriques considera ser “absolutamente fundamental”.

Sobre o tópico da série feita por Joana “racismo à portuguesa” no jornal Público, publicado há quatro anos, ressaltou que “a pandemia e a crise, expôs várias realidades de desigualdades raciais de forma muito forte”. E questionou: “Quem foram as pessoas que continuaram a trabalhar enquanto que toda a gente estava em confinamento? Quem é que tinha que usar os transportes públicos que iam mais lotados? Quando as companhias decidiram cortar a frequência com que os autocarros e os comboios circulavam, quais foram as profissões que estavam mais expostas? Em que lado da cidade estavam as pessoas que se tornaram sucessivamente alvo de atenção excessiva por parte das entidades públicas?”.

Em relação à luta contra a discriminação racial, a jornalista admitiu que “está a crescer, o que é algo muito positivo”. “Está a crescer e está a ter a participação de gente nova, de uma geração mais nova que está consciente das questões do racismo e da desigualdade racial e que «não se calam»”, salientou ainda.

Para melhorar esta luta, sugeriu “que os brancos se envolvam de forma mais solidária e não prescritiva em relação ao que os movimentos negros devem ou não fazer, porque a luta antirracista é para combater um problema que foram, essencialmente, as pessoas brancas a criar com todo o sistema do colonialismo, da escravatura e das discriminações que ainda se reproduzem e replicam na sociedade”.