Depois de crescer no mundo musical da aplicação Tik Tok com a música “Stupid”, a artista push Ashnikko lançou, a 15 de janeiro, a primeira mixtape, DEMIDEVIL. Este trabalho reúne 10 faixas compostas pela própria cantora ao lado de outros compositores, o que reflete uma intimidade única e bastante pessoal de Ashton Casey, verdadeiro nome de Ashnikko.

Depois de vários adiamentos no ano de 2020, era previsto ser lançada a 19 de fevereiro do ano corrente. Contudo, a mixtape foi antecipada devido a erros de distribuição das versões físicas do álbum por parte do Grupo Warner.

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A famosa “Daisy” inaugura a mixtape sem medos e com um tom arrojado, até mesmo, arrogante. Ashnikko demonstra o quanto é dona de si própria e da sua personalidade, sem ter medo de ser julgada: «Fuck a princess, I’m a king/Bow down and kiss on my ring/Being a bitch is my kink/What the fuck else did you think?».  A música, que tem na sua base, os estilos pop, hip hop e trap com alguns elementos de EDM e metal, combina, perfeitamente, com a história contada pela letra.

A cantora-compositora criou a personagem Daisy, uma dominatrix vigilante que assassina violadores, deixando flores na mesinha de cabeceira como aviso que serão assassinados, tal como canta: «I’m crazy, but you like that, I bite back/Daisies on your nightstand, never forget it/Blossom in the moonlight, screw eyes/Glacial with blue ice, I’m terryfying». O videoclipe da música é patrocinado pela marca Beats, onde promove quatro novas cores de headphones através de quatro temas correspondentes. De facto, a música conheceu enorme sucesso através do #BeatsDaisyChallenge no Tik Tok, o que se refletiu no grande número de streams que angariou no Spotify.

Segue-se “Toxic”, que tem uma construção e um desenvolvimento bastante semelhantes com a anterior. Aliás, ambas exploram o trap e o hip hop, ainda que esta segunda faixa tenha uma tonalidade mais pop punk e electropop. A visão de poder de Ashnikko continua, já que a artista canta sobre ser invejada por um homem que ambiciona ser como ela, o que acaba por se tornar tóxico: «You can’t stand to see me shine/Better buy a visor» «You think you’re the man/You’re so toxic».

Arrisco-me a dizer que a terceira música da mixtape, “Deal With It”, uma colaboração com a cantora americana Kelis, é uma das melhores músicas neste trabalho. A jovem cantora liberta-se de um relacionamento que não lhe desperta mais qualquer interesse ao som de uma batida bubblegum pop. É curioso que “Deal With It” contenha samples de “Caught Out There”, de Kelis.

Em “Slumber Party”, o hip hop predomina totalmente o ritmo da melodia e é apresentado um momento de rap por Princess Nokia. Por sua vez, “Drunk With My Friends” é uma composição musical mais erótica e que subentende um threesome entre três amigos que estão alcoolizados: «Pussy, pussy my religion/Legs getting tight, come and switch positions/Now we three-way kissin’/I wanna make a couple bad decisions».

Com uma melodia mais R&B, na sexta faixa desta tape, “Little Boy”, Ashnikko desdenha que alguma vez conseguirá confiar em algum homem, uma vez que um rapaz subestimou as suas capacidades, tal como se lê nos versos: «There’s not a man on earth that I’ll trust» e «Unfortunately, you made the mistake of underestimatin’ me». Contudo, ela não fica por aqui. Avisa-o que a atividade sexual entre os dois, não fará com que ela o perdoe por este não a saber valorizar («Little Boy/Who you think you’re talkin’ to?/ Please don’t think/That the sex is gonna cloud my view/ ’Cause I’m done, toleratin’ bullshit/Give you my love and you don’t know what to do with it»).

“Cry”, uma parceria com a cantora alternativa Grimes, foi promovida como o primeiro single deste projeto. A música pop, que é temperada com ingredientes de nu metal, rap e rock, transmite uma aura de fúria e agressividade não só contida na letra («Bitch, are you tryna make me cry ?/Are you tryna make me lose it?»), mas também na batida e na forma como Ashnikko canta quase gritando, o que contrasta com os sussurros de Grimes. No meio desta agressividade, a jovem denuncia atos reprováveis como a violência no namoro: «Lay another finger on me, you could lose a hand».

A minha predileta, “L8r Boi”, é uma referência à música “Sk8er Boi”, de Avril Lavigne. Depois de batidas pesadas e agressivas, esta faixa narra o fim do relacionamento entre o Sk8er Boi de Lavigne e uma rapariga independente que não queria ter que cuidar de “um menino”. A melodia suave inspirada no pop rock característico de Avril Lavigne, traz a esta mixtape um novo som que não havia sido explorado nas músicas anteriores.

A penúltima música, “Good While It Lasted”, explora um lado mais íntimo e mais calmo da musicalidade de Ashnikko: «What we did was childish/Can we put this behind us» – os versos falam por si só e demonstram o quão pessoal esta letra é para Ashnikko – «We can’t deny that it was magic/Nothing was nice, but I loved every bit of it/All the best of stories end tragic/We were, we were bad, we were good while it lasted».

“Clitoris! The Musica”l fecha esta produção musical ridicularizando o estereótipos relacionados à sexualidade, incluindo a heteronormatividade e os tabus da atividade sexual feminina.

Ashnikko agraciou-nos com uma mixtape controversa, porém poderosa, que ignora os preconceitos e os tabus. A jovem cantora de 24 anos oferece-nos uma reflexão de que qualquer mulher (e homem) devem ser donos de si próprios e das suas conquistas: «Self-made, self-paid/How dare you speak my name?».