O feminismo é, como aludiu Viriginia Woolf, “a ideia radical de que as mulheres são pessoas”. Isabel Allende em Mulheres da Minha Alma, publicado em novembro de 2020, aborda muito mais do que a sua profunda rejeição pelo machismo. Tendo como premissa central a sua estima pela igualdade, a autora chilena conduz-nos numa viagem, quase não intencionada, de autoconhecimento.

Começando numa infância marcada pela ausência da figura paterna, Isabel encara-a como o impulso para o seu intenso senso de justiça pelas causas sociais. Cresceu com exemplos de mulheres que, apesar da força que guardavam em si, se diminuíam e escondiam na sombra de um homem. Talvez resultado da cultura, dos valores passados pelas gerações, ou mesmo por puro conformismo. No entanto, nunca fez sentido para Isabel ser submissa e abdicar da sua voz e do seu poder pessoal para satisfazer o interesse de outrem.

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Ainda assim, a narrativa não se limita ao tema do feminismo. Sempre com uma postura gentil e genuína, a autora recorre a um humor peculiar para se autoanalisar e refletir sobre o seu passado, o seu país, o seu envelhecimento, a pandemia e, claro, as fascinantes mulheres da sua alma.

Ao longo da leitura, somos transportados para um debate interno sobre o respeito da identidade de género, misoginia, casos de feminicídio, de violência doméstica, racismo, homofobia e xenofobia. A intolerância é o reflexo do sistema patriarcal cujos ideais assentam na exclusão e na punição de quem se atreve a desafiá-lo. Felizmente, observamos uma tendência para o inconformismo e Isabel faz questão de realçar isso mesmo. As gerações mais novas apresentam muito mais empatia pelo outro, e não só anseiam a mudança como fazem por isso. Atrevo-me a dizer que Isabel Allende, nesta obra, se tornou a voz de todas as mulheres. Quer das que em si guardam a dor de séculos de opressão e anseiam a mudança, quer das que fingem não ver o problema intrínseco na nossa sociedade para não terem de lidar com ele.

Deparei-me inúmeras vezes a questionar a conotação pejorativa associada ao feminismo, quando devia ser algo defendido por todos. Felizmente, a autora, num tom de conversa e sempre com uma linguagem acessível, explica esse fenómeno. As pessoas rejeitam o que põe em causa as suas crenças. Por medo do desconhecido, mesmo que signifique benefícios individuais e coletivos, eliminam a possibilidade da mudança. Desta forma, a imagem do movimento feminista é passada ao público sob o conveniente olhar distorcido do sistema patriarcal. Além disso, convence-nos de que representa o ódio aos homens e tudo o que lhes é inerente.

Para minha surpresa, descobri que esta é uma ideia bastante comum, principalmente, entre quem se recusa a questionar e pensar por si. O feminismo não é um assunto só do interesse das mulheres, mas de todos os seres humanos. A luta pela emancipação feminina e das minorias oprimidas nunca deve ser esquecida, nem, tampouco, tomada como garantida. Assim, não se justifica que, em pleno século XXI, seja tomada como uma questão de opinião, já que põe em causa direitos humanos obrigatoriamente acessíveis a todos.

Mulheres da minha alma é o grito que muitos preferem não ouvir. Porém, Isabel não grita contra o sistema, e sim por amor à humanidade. Ao longo das páginas, que não se comprometem a uma divisão formal em capítulos, a autora chilena permite que as suas ideias e opiniões se formem livremente. Além disso, recorda as mulheres incógnitas que sofrem diariamente nas mãos de um sistema doente, as que ousaram dar a sua vida pela nossa liberdade e as que cruzaram o seu caminho.

Esta obra literária é um testemunho de leitura necessária por todos, que nos obriga inevitavelmente a questionar os nossos valores morais e éticos. Nas palavras de Isabel Allende, “o feminismo não se cala”.