Dia 5 de março, Vasco Vilhena estreou o terceiro álbum autoral, A Poda das Nuvens. Disponibilizado nas plataformas digitais, a chegada da versão física do novo disco, em maio, trará consigo uma música de abertura exclusiva, “Bonsai”. Desta forma, a arte viva passará a integrar o espelho da “cabeça de um millennial que não percebe bem o seu lugar no mundo”.

Fruto da geração Y, Vasco Vilhena nasceu em Lisboa e cresceu no Alentejo. Segundo ele, foi “à sombra de um sobreiro alentejano que descobriu que era por entre sons e harmonias que se sentia em casa”. Regressou à capital para se dedicar à música e é lá “onde hoje costura canções”. O artista estreou-se com Treze, em 2014, e seguiu-se um Urso Solar, em 2018. Este ano, reserva-nos A Poda das Nuvens, “um disco que contém oito canções de dor, raiva, mas também de reflexão e paz”.

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Divulgado ainda em 2020, o primeiro single de A Poda das Nuvens corresponde a “Antárctico”. Sob a mata, uma cama despida, a preparação para o recomeço. Não sei se Vasco Vilhena tinha essa intenção, mas tal como a letra descreve, “isto é lá modo de começar” … Por entre a serenidade da natureza, somos confrontados com a sua voz, que parece pertencer ao ambiente. No entanto, de um momento para o outro, somos abalroados com um instrumental intenso e alto.

Com a atenção redobrada dos ouvintes, fruto de um triplo rebobinar, percebemos que o instrumental não é de todo descabido e que encaixa na perfeição com a voz do artista. Chega, assim, o tempo de interpretar a letra da sua autoria. “Um mundo tão podre / E eu só não queria ser mais um”, brada Vasco Vilhena aos céus.

O artista não se reconhece: “Sinto que sou / Para além daquilo que projecto / Se a sombra que sou / Vale bem mais que o que vocifero / Sinto que estou / A levar a vida que eu não quero”. No entanto, tem a vontade de mudar e de se reconstruir. Sendo assim, inicia-se a sua viagem. A pergunta que resta é se conseguirá.

De seguida, chega-nos a música homónima de A Poda das Nuvens. O seu coro, composto por Diogo Cunha, Inês Almeida e Maria Sacadura, ganha destaque. Por entre a natureza, Vasco Vilhena anda sem rumo, algumas palavras ecoam: “Se o que chove, nasce e cresce / Torna-se o que sou / Tomara que eu não viva / De uvas sem grainha”.

Num primeiro momento, estas palavras aparentam não fazer sentido. No entanto, aos poucos e poucos conseguimos decifrar possíveis significados. Todos nós somos fruto da natureza. Contudo, a artificialidade aparenta vingar e, desta forma, parecemos quase que produtos geneticamente modificados. Antes de avançar, peço desculpa se a minha interpretação está errada. Todavia, acho que é nas múltiplas interpretações que incide o verdadeiro poder da arte.

Ao longo de cerca de 6 minutos, Vasco Vilhena dá continuidade à viagem, despe-se da sua personagem e abre-se a todos nós, “Desculpem se a máscara me deixa aparecer / O suor fá-la escorregar / Se a minha cara surge, então morre a personagem”. Sendo assim, explora as suas dúvidas e questiona-se sobre os seus erros, nomeadamente entre aquilo que sente, aquilo que tenta descrever e aquilo que escreve. Perante a “Poda das Nuvens”, que deixa a descoberto “um céu cujo sol morreu”, o artista começa a acreditar que “talvez seja melhor deixar de cantar”.

“O Mar que Sobra” corresponde à terceira música do álbum. Mais uma vez, o artista surge sozinho. Um banco e um pasto para observar. Como sabemos, é na solidão que nos refugiamos nos confins da nossa mente. No entanto, por entre os pensamentos, os nossos fantasmas aproveitam para nos atacar – “Já estou a flutuar / Num mar de nuvens / Com sombras a alcançar-me / E a afundar o leme”.

Contudo, Vasco Vilhena reconhece que tudo é passageiro e que a vida continua mesmo que não estejamos em sintonia com ela. Sendo assim, deixa apenas um conselho: “Senta-te um bocado, / bebe um copo de água / Enche os teus pulmões, isto vai passar / Larga o peso do mundo do cume dos ombros / Isto não é eterno, isto vai passar”.

Em “O Sangue dos Outros”, Vasco Vilhena opta por um caminho diferente. Por entre versos partilhados com Maria Sacadura, o artista recorre ao spoken word. Durante cerca de 5 minutos, explora o papel da violência na sociedade contemporânea, alertando que “se é sangue que queres”, basta tirares “a venda dos olhos”.

Tal como os Da Weasel em “Toda Gente”, o artista procura saber se os ouvintes caíram na ratoeira, ou seja, se, perante uma música que fala sobre a distração do mundo, as pessoas acabaram por se deixar levar pelas partes que menos importam- “Mas se te agrada o encaixe de rima, é porque te deixas entreter / E entretanto, já morreste / Cabidela de ti”.

Logo após, somos confrontados com a continuação do tema da música anterior. Agora, Vasco Vilhena fala-nos sobre a bolha em que estamos inseridos, uma bolha que “nunca mexe” e que “opaca transparece a posse, a prece e o passa a pasta”. Para além disso, “Corte e Cultura” afirma que esse “é o preço a pagar pela dormência”. Ao que parece, nem o artista consegue fugir totalmente desta (a)normalidade.

Segue-se “Estação das Chuvas”, uma música que Vasco Vilhena define como “uma canção de dor, mas também de manutenção”. No seguimento de uma análise introspetiva e do estado do mundo, o artista procura fechar portas e purificar o caminho a seguir. Apesar de parecer quase que uma carta sobre o amor (ou mesmo por isso, conhecemos bem a dicotomia do sentimento), a música sugere que o seu processo de reconstrução está num bom caminho.

Após tamanhas reflexões, o artista aparece a cavar a sua própria cova. Em “Vapor”, questiona-se sobre o seu papel e o papel da sua música: “Sei lá se o que digo serve de algo / Mexe contigo ou faz-te mexer / Contra o que sabes que te deves opor / Sei lá se o que digo cria diálogo /Faz-te sentido ou faz-te sentir / Que se não ages de acordo, então é tudo vapor”. Desta forma, deixa claro que, se o seu trabalho não provoca qualquer tipo de impacto, é um trabalho em vão.

Por fim, chega-nos “Éter”. Durante a composição, Vasco Vilhena relembra que tem uma missão na terra. No entanto, sublinha, novamente, que, se a sua estadia não surte qualquer efeito ou que este desaparece com a sua ausência, nada disto passou “de um intento fracassado”. Por tudo o que referiu ao longo do álbum, espera que o mundo mude. Contudo, “O mundo nunca muda, e assim eu também não / É triste, mas é a vida; era a conta, por favor”.

Após 41 minutos, a Poda das Nuvens deixa tudo a descoberto. Através da cabeça do “millennial que não percebe bem o seu lugar no mundo”, passamos a ter acesso à transcrição de muitas das nossas inquietações. De qualquer das formas, a cada rebobinar descobrimos novos significados. Sendo assim, cabe a cada um de nós decifrar o que Vasco Vilhena nos quererá dizer.