Revolucionário, frenético e intemporal são os principais traços dos sons que se fazem ouvir durante quase uma hora num set de DJ especialmente preparado por Madonna. Lançado a 11 de novembro de 2005, Confessions on a Dance Floor é um convite que se perpetua até hoje para recordar a era de glória da Rainha do Pop. O projeto musical é uma mescla da sonoridade Disco dos anos 70 com ritmos inovadores e genialmente comerciais.

Na verdade, nem é preciso redigir uma introdução de carreira e maiores sucessos, basta Madonna Louise Ciccone ser de seu nome de nascença um dos maiores ícones da cultura Pop mundial. Em comparação com álbuns que explodiram nos charts no momento, a cantora e compositora de 63 anos usufruía, sem dúvida, do título inegável de uma das mais prestigiadas artistas diante das concorrentes de excelência, como Mariah Carey e Destiny’s Child. Em qualquer ponto do globo, quem ia para a discoteca já sabia que ouviria Madonna vezes e vezes sem conta pela noite adentro. Hoje, já coleciona quase 40 anos nos palcos e, não obstante da mudança significativa da indústria musical nas últimas duas décadas, a artista norte-americana sempre será venerada por milhões de admiradores.

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Aclamado pela academia musical, este décimo álbum de estúdio foi galardoado com o prémio de Melhor Álbum Eletronic/Dance na cerimónia Grammy Awards de 2007 e posicionou Madonna como a Melhor Artista Solo Internacional nos BRIT Awards em 2006. Adicionalmente, o projeto discográfico Confessions on a Dance Floor vendeu, ainda no mesmo ano de lançamento, mais de 12 milhões de cópias em todo o mundo entre as 300 milhões comercializadas dos seus 14 álbuns de estúdio. Aliás, é notável também o recorde do álbum ao liderar as tabelas no primeiro lugar em 40 países, registando-se até na edição do Livro Guinness de 2007. Sem exceção, Portugal apaixonou-se por Confessions e, segundo dados da Associação Fonográfica Portuguesa, é o preferido com 27 semanas no topo.

Com 12 temas delirantemente harmoniosos, Steven Klein, fotógrafo norte-americano de moda e cultura Pop, aliado à direção de arte e design criativo de Giovanni Bianco, potenciou a materialização visual desta obra com um esplendor enigmático e sexual. Responsável por hits mundiais com várias estrelas do universo musical, também Stuart Price, compositor e produtor inglês de música eletrónica, cooperou para a criação dos maiores êxitos da carreira da artista. O principal single do disco, “Hung Up”, assim como, curiosamente, o recente e intergaláctico sucesso “Levitating” de Future Nostalgia da princesa do Pop, Dua Lipa, devem-se principalmente ao seu trabalho hábil, visionário e sagaz.

A primeira faixa é, exatamente, o hit eterno “Hung Up” que transcende as barreiras do tempo e dá abertura às pistas de dança numa melodia enérgica e viciante. Os primeiros segundos da música marcados, sonicamente, por um tímido e crescente tiquetaquear do relógio e a repetição consecutiva da frase “Time goes by so slowly” simbolizam a monotonia de Madonna ao esperar por ser correspondida pelo par amoroso. Progressivamente, o desejo de se glorificar como mulher independente ascende e, de modo triunfante, o single Dance-Pop publicado a 17 de outubro conta com mais de dez remix’s oficiais dos 37 totais do álbum.

A título de curiosidade, este tema deslumbrante começou como algo experimental com uma amostra autorizada do segundo maior sucesso da banda ABBA de 1979, “Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)”, e Madonna superou-o na sua versão lendária. À semelhança do videoclipe luxurioso em tonalidades de lilás e rosa junto de dançarinos coreografados bem ao estilo de John Travolta no filme Febre de Sábado à Noite (1977), esta explosão de energia uníssona recriou-se na sua primeira performance ao vivo para a apresentação dos MTV Europe Music Awards de 2005 no Altice Arena, em Lisboa.

Inspirada em “Music Sounds Better With You”, do grupo francês Stardust de 1998, segue-se uma lírica jovial essencialmente House. Numa cinematografia hipnotizadora, “Get Together” traduz-se numa tentativa de recompor a elação, mas acaba por se confirmar numa utopia dececionante (“It’s all an illusion/There’s too much confusion”).

Após quatro meses da estreia, o terceiro tema, “Sorry”, torna-se o segundo single do álbum e confirma uma produção musical Eletropop de maestria e sublimidade – até mesmo nos últimos segundos de orquestral que finalizam os beats irresistíveis. Na introdução e entre os versos segredam-se, em dez diferentes idiomas, pedidos de desculpa, mas Madonna pretende sair da teia infinitas de desculpas e mentiras do par, despedindo-se do relacionamento consciente que merece melhor: “You’re not half the man you think you are/ (…) Don’t explain yourself ‘cause talk is cheap/There’s more important things than hearing you speak”. Toda a produção musical deslizou sobre rodas para um outro videoclipe desafiador, cheio de brilho, espetacularidade física e melodias divinas.

De volta às suas raízes com instrumentais compostos por sintetizadores, “Future Lovers” é um interlúdio puramente Disco de um bass sólido, no qual o amor etéreo sem limites é a linguagem superior. Este universo futurístico Pop é inspirado na música “I Feel Love” da irreverente Rainha do Disco, Donna Summer. Todavia, não é, de todo, o melhor tema do projeto, desvalorizando-se perante as três graciosas faixas anteriores. Já “I Love New York” inicia e finaliza-se com sons ambiente alusivos ao título da sua cidade favorita que admira pela ousadia, insolência e excentricidade para ser autêntica. Apesar dos elementos Techno e acordes de guitarra elétrica ondeantes, a quinta faixa torna-se um pouco descontrolada.

“Let It Will Be” inicia um novo fragmento do álbum que desvenda melodias tenebrosas, vulnerabilidades e ainda confidencialidades. Musicalmente mais intimista, Madonna revela a sua perceção da fama, glória e sucesso como efémeros (“Now I can tell you about success, about fame/About the rise and the fall of all the stars in the sky/And all those lights they will turn down”). É, definitivamente, um tema confessional que faz jus ao título do disco. “Forbidden Love” embala o ouvinte para uma melodia emocional e, por oposição à faixa anterior, há uma teatralidade angelical dos sentimentos, concretizada com sons idiofónicos produzidos por sinos, bem como pela distorção da voz, uma tendência célebre da dupla francesa Daft Punk.

Segundos antes da música antecedente terminar, ouve-se uma aprazível contagem decrescente para o início de um próximo capítulo de Confessions. “Jump” reintroduz um ritmo vibrante e divertido que, metaforicamente, relembra o crescimento da artista na indústria e encoraja o público a arriscar também nos seus sonhos, multiplicando a premissa de saltar para algo novo na finitude do tempo.

Para garantir a longevidade do disco, este tema ressurgiu como quarto e último single apenas um ano e 14 dias depois do lançamento oficial do álbum. Foi, igualmente, incluído na banda sonora do filme icónico The Devil Wears Prada, de 2006, tal como o excelente tema de empoderamento feminino e igualdade de género, “Vogue”, de 1990. Envolto num ambiente urbano e revigorante, o videoclipe de “Jump” impera e irradia energia com fascinantes e arriscados saltos de Parkour, elucidando o conceito da oitava faixa.

No compasso de dança, “How High” não retrata uma realidade alucinogénia, mas Madonna reflete sobre a sua resiliência e dedicação para alcançar o sucesso, questionando-se do verdadeiro valor das conquistas que ansiava desde sempre. Logo de seguida, “Isaac” é a faixa mais longa do projeto e conflui influências multiculturais, visto que ecoa líricas do misticismo cristão sacrificial de Isaac, vocalizadas por Yitzhak Sinwan; porém, esgota a vasta multiplicidade sonora. Ao longo da sua discografia, o tema religião é bastante familiar e esta visa a renovação, segurança e serenidade espiritual para viver novos desafios (“Will you sacrifice your comfort? / Make your way in a foreign land?”).

No conjunto de 12 músicas, “Push” é uma faixa invisível e cansativa com melodias submersas em efeitos robóticos e instrumentos de repercussão totalmente descoordenados e nauseantes. “I’m never gonna stop” é a mensagem e promessa intemporal que o último tema, “Like It Or Not”, partilha independentemente de gostarem ou não do seu estrelato, personalidade internacional ou feminilidade, celebrando-se (“Celebrate me for who I am/Dislike me for what I ain’t”). Acordes Country de guitarra por Henrik Jonback finalizam esta obra discográfica, coprodutor de muitos sucessos da cantora Britney Spears, como o tema incontornável “Toxic”.

Não há uma versão do projeto Confessions on a Dance Floor em modo deluxe com músicas adicionais, mas a artista decidiu presentear, especialmente, os fãs mais fervorosos – uma comunidade apelidada como ICON – com duas faixas bónus exclusivas, “Fighting Spirit” e “Super Pop”, que conseguiram comprar as versões físicas limitadas do álbum.

Conforme o registo musical do reportório de Madonna, é possível confirmar uma evidente evolução da perícia rítmica para criar diversas músicas potenciais hits. A artista deixa o ouvinte inquietante e curioso para verificar se a próxima faixa supera o single principal, mas, por vezes, a capacidade vocal e o cuidado lírico são desconsiderados. Na sua totalidade, Confessions on a Dance Floor é, sem dúvida, uma das eras com maior popularidade e eternamente a prova da energia, impacto e prosperidade infindável de Madonna, que se imortalizou num regresso repleto de clássicos multiplatinados.