Annette abriu o 74º Festival de Cannes e chegou dia 8 de julho aos cinemas portugueses. Resultado de uma colaboração entre o realizador francês Leos Carax e o duo norte-americano Sparks, o musical é ousado (o que não significa bom) e bizarro (o que não significa mau).

“Então, podemos começar?”, pergunta Carax da régie, como se aguardasse o início de uma peça de teatro, e é então altura de os Sparks principiarem o tema de abertura do filme. A eles, juntam-se Adam Driver, Marion Cotillard e Simon Helberg, fora de personagem. Os figurantes ganham forma no decorrer da canção, enquanto cruzam as ruas de Los Angeles e avisam o espectador de que este será um espetáculo diferente do suposto.

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Driver, já na pele de Henry McHenry, parte na sua Triumph Bonneville, e Marion Cotillard assume o papel da soprano Ann Defrasnoux. A partir daí, artificializa-se a história. Ele é comediante, ela é cantora de ópera e entre os dois resplandece um amor colossal. Henry intitula-se “The Ape of God” e quer desfazer o público em pedaços, matá-lo de riso, destruí-lo, camuflando com o ofício da comédia uma negritude mordaz.

Do outro lado da cidade, Ann morre todas as noites em palco, etereamente cantando a força sobre-humana das emoções. Enverga a delicadeza e a esperança, aparecendo perante os fãs como um anjo, uma espécie de salvadora. A longa metragem declara-se desde cedo o arquétipo d’A Bela e o Monstro, e a verdade é que Henry tem ciúmes da mulher.

Por se inserir num meio dado ao requinte e à elegância, Ann é supostamente mais respeitada do que Henry, que atua em bares para fazer as pessoas rir e, portanto, mais comercial e acessível – um pensamento retrógrado para uma história que acontece na Los Angeles contemporânea com referências aos fogos da Califórnia e ao movimento #MeToo.

Mas da tremenda paixão do casal nasce Annette, a marionete, e, além de enfatizar o artifício da narrativa, a literal objetificação da criança incorpora a forma como os pais a vêem e tratam. Para Henry e Ann, Annette pertence-lhes como um projeto, um pouco de plasticina que podem moldar a seu bel-prazer. Com o bebé, chega também o declínio da relação – e do filme, que abandona o ritmo rápido e o engenho com que contou a história até agora para se adentrar e alongar no melodrama.

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Toda a chama arde depressa e Henry tem um extintor industrial. Amar põe-no doente, afirma, e os sintomas são cada vez mais evidentes. Certo dia, depois de se preparar no seu pequeno e soturno covil como um boxer prestes a entrar no ringue, Henry sobe a palco para dizer que matou a mulher. A veracidade da afirmação torna-se dúbia por longos e sofríveis minutos, o tempo que demora a consolidar-se o vilão Henry McHenry. O protagonista transforma-se numa espécie de Rumpelstiltskin, um ogre, um feiticeiro maléfico e frustrado dotado de egoísmo, inveja e impulsividade.

Todavia, Ann ainda vive. “Numa tentativa de salvar o casamento”, segundo o noticiário Show Bizz, o casal que nunca indiciou qualquer tipo de ligação ao mar ou a barcos, faz uma viagem no seu iate. Talvez porque é bonito, dramático, épico até. Talvez porque as águas tempestuosas refletem o caos da relação dos dois ou porque é comum este tipo de desventura nos contos de fada. Ou então é uma crítica social ao facto de os famosos terem barcos caros e poderem ir de férias para o meio do mar.

Annette não é um musical que passa do diálogo à música e vice-versa entre quebras definidas. Em vez disso, grande parte do texto é cantado e o restante é dito de forma ritmada para que encaixe no instrumental. A composição lírica é feita de uma forma habitual para os Sparks: servindo-se do menor número de palavras e do uso da repetição. O som é cuidado e detalhado, notando-se, por exemplo, o respirar de Annette quando adormece ao piano. A atmosfera é bem construída nas cenas da assombração de Ann, mas as restantes faixas não têm a mesma garra que “So May We Start”, e o momentum esvai-se lenta e agoniantemente.

A fotografia tem o seu quê de poético e de Carax, especialmente no momento em que Henry alcança Ann aquando do seu tranquilo passeio pela Natureza e as suas mãos nada mais parecem do que ameaçadoras. O cenário é bonito: há uma casa com uma alongada e reluzente piscina e também ela é um organismo vivo, sofrendo mutações consoante o casal que nela habita, naturalmente. Numa das atuações de Ann, é especialmente encantador o momento em que passa do palco para uma floresta.

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O elenco é um dos pontos altos do filme, mas nem por isso impecável. Cotillard é reduzida à sua personagem, embora requerendo mais exigência vocal – muito ao contrário de Driver, que se expande e emancipa através de Henry, numa prestação memorável. Também Simon Helberg interpreta com afinco o desgostoso maestro. Ele que é conhecido por muitos a partir da série A Teoria do Big Bang (2007-2019).

Por outro lado, as personagens são arquétipos e perdem qualquer sentido de individualidade. Não há uma dimensão pessoal no filme, mas sim uma amálgama exagerada de generalizações sociais feitas convenientes à narrativa. O espectador não pode aproximar-se dos integrantes da história ou tão pouco identificar-se por viverem dentro de uma realidade aumentada e vaga, onde a teatralidade e o espetáculo reinam sem aparente fundamento. A transformação da criança é razoável, apelando mais ou menos à sensibilidade do espectador. Mas o foco de Annette não está em Annette, e sim na transformação de Henry.

Annette é uma espécie de Inside (2021) em grande escala com um Bo Burnham vilanesco, desconfinado e homicida que perdeu a cabeça. Uma sátira que parece parodiar-se a si própria enquanto tenta levar-se a sério ou um live-act sem precedentes que desilude na mesma. Tem elementos de contos de fada: Ann e as suas fatídicas maçãs à Branca-de-Neve, Henry e a mancha na cara que cresce conforme o mal dentro de si, e tudo é épico e grandioso, derradeiro. Nem sequer sabemos como ou porque é que estão juntos, e nos contos de fada os casais já se amam há muito, muito tempo – além de que até inclui uma pseudo lição de moral.

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Se calhar o objetivo é mesmo o absurdo, se calhar não tem que fazer sentido. Talvez o mais importante seja o ato de criar, e talvez todas estas tentativas relativamente ambíguas de definir Annette façam dele um bom filme, que interroga e faz pensar. Seja qual for a intenção, é uma fusão de cinema, concertos, produções de palco e o culto de celebridades, que aborda temas como o abandono e a ambição desmedida, o amor e o desamor, a masculinidade tóxica e a maternidade. Que é arrojado, sem dúvida, mas os domínios criativos de Sparks e Carax parecem estar em pouca harmonia – em conflito, até.

Resumindo, é um filme que anda às voltas (e às voltas e às voltas e às voltas) durante mais de duas horas sem saber onde quer chegar. Assim, como em qualquer carrossel, há quem saia enjoado e quem queira andar outra vez.