Depois de mais de duas décadas de carreira, Beyoncé tornou-se mais que um ícone da cultura Pop. Cantora, compositora, atriz, modelo, bailarina, empresária, produtora, realizadora, mas, acima de tudo, mulher. A mulher que sempre desafiou as expectativas, que mudou a forma como perspetivamos o poder da arte e que, hoje, trabalha para elevar a sua comunidade e para que os seus três filhos possam viver num mundo onde sejam vistos, celebrados e valorizados. Beyoncé completa, este sábado, 40 anos.

Beyoncé Giselle Knowles nasceu a 4 de setembro de 1981, em Houston, Texas (EUA). Desde muito cedo revelou interesse pelas artes performativas, tendo frequentado várias escolas dedicadas ao ensino de dança e canto. Na mais recente entrevista à Harper’s BAZAAR, a artista conta que com apenas sete anos já participava e vencia competições de dança e canto. “Quando estava em palco, sentia-me segura. Era, muitas vezes, a única rapariga negra, e foi aí que comecei a perceber que tinha que de me esforçar duas vezes mais. Precisava de presença de palco, inteligência e charme se quisesse vencer”, recorda.

billboard.com

Aos oito anos, juntou-se a Kelly Rowland, LaTavia Roberson, LeToya Luckett e outras três raparigas para formar o grupo feminino Girl’s Time. O pai, Mathew Knowles, demitiu-se do emprego como vendedor de equipamentos médicos para poder orientar e apoiar a filha naquele que sempre foi o seu maior sonho. Depois de muitos contratos com gravadoras falhados e várias alterações na dinâmica do grupo, Beyoncé, Kelly, LeToya e LaTavia apresentavam-se como Destiny’s Child e, em 1997, assinavam contrato com a Columbia Records. Dava-se início àquele que viria a tornar-se um dos maiores grupos da história do R&B.

Como nada é um mar de rosas, as Destiny’s Child tiveram de ultrapassar várias dificuldades, tanto externas quanto internas, sendo uma delas o manager Mathew Knowles. Em 2011, LaTavia revelou ao jornal britânico Mirror: “Ele agia como um sargento. Fazia-nos acordar muito cedo para corrermos 6 km, enquanto cantávamos”. Por mais extremos que fossem, os treinos intensos acabaram por compensar, pois venderam mais de 60 milhões de discos em todo o mundo antes de se separarem, em 2006, para seguirem carreiras a solo.

Haverá diferentes opiniões quanto ao momento em que Beyoncé se efetivou como uma das lendas da história da música. Se nos focarmos em números, o single “Crazy In Love”, lançado em 2003, em colaboração com Jay-Z, é o mais bem-sucedido até à data. Se o critério for o reconhecimento, “Single Ladies” foi sem dúvida o momento mais viral da artista. Não há quem não conheça o icónico balançar da mão esquerda. Outros argumentarão que foi a partir do autointitulado BEYONCÉ (2013), que a arte de norte-americana ganhou outro relevo. O facto de podermos discutir tudo isto é sintomático do impacto que cada nova era teve na indústria musical.

De lançamentos de álbuns a revelações de gravidez, a Queen Bey apodera-se sempre da narrativa e escolhe quando e como divulgar a informação. É precisamente por isso que, quando as fatídicas imagens da altercação entre Solange Knowles, irmã de Beyoncé, e Jay-Z vieram à tona, a artista seguiu o evento com Lemonade (2016), um álbum visual no mínimo genial, que aludiu várias vezes ao facto de Jay-Z ter tido um caso extraconjugal. A Internet enlouqueceu com especulações. Quem era a “Becky com o cabelo bonito”? A emoção crua no álbum afastou-a da imagem indestrutível e poderosa criada em “I AM…SASHA FIERCE” (2008).

Foi também um movimento inteligente de Relações Públicas para recuperar a narrativa e canalizar a atenção do espetáculo embaraçoso para, não só aclamação da crítica, mas também para a vendas de discos. Lemonade foi o álbum mais vendido do mundo em 2016 (2,5 milhões de cópias), sem qualquer tipo de promoção anterior.

Embora muitos dos trabalhos anteriores de Beyoncé estivessem enraizados no feminismo – não nos esqueçamos dos hinos “Independent Woman” e “Run the World” -, foi em 2013, com a adição de um discurso da escritora feminista Chimamanada Ngozi Adichie à faixa “Flawless”, que a artista começou a investir na consciencialização social através da sua arte.

Em Lemonade, Beyoncé foi mais longe, criando um álbum visual que tinha como tema a feminidade negra e as várias dimensões a ela associadas. O videoclipe de “Formation” faz referência a eventos com grande carga racial, entre eles a brutalidade policial nos EUA e a gestão da crise pós-furacão Katrina. Uma obra de arte fraturante. Um álbum necessário para muitos fãs negros e inquietante para quem estava incomodado com este lado mais consciente do contexto sociopolítico do país onde Beyoncé nascera.

A partir desse momento, o significado de ser negro e a consciência política tornaram-se temas urgentes, tanto no palco como fora dele.  Quando questionada acerca desta transição, na entrevista à Vogue, em 2020, Beyoncé esclareceu: “Algo mudou dentro de mim logo após dar à luz a minha primeira filha. Dali em diante, entendi realmente o meu poder, e a maternidade tem sido a minha maior inspiração. Tornou-se a minha missão garantir que ela viva num mundo onde se sinta verdadeiramente vista e valorizada”.

Apesar da fortuna avaliada em 420 milhões de euros, a artista não fecha aos olhos à precaridade que a pandemia pela COVID-19 veio impor a muitos dos seus fãs. Neste sentido, Beyoncé tem vindo a apoiar uma série de instituições de caridade especializadas em saúde mental, alimentação e roupas. “Estamos a investir na educação de jovens universitários com bolsas de estudo, através programa BeyGood, na África do Sul. Estou também muito orgulhosa do trabalho que fizemos, através do BeyGood e da NAACP, para apoiar pequenos empresários negros que não teriam sobrevivido este ano”, conta à Vogue a artista.

Com um percurso notável, não restam suposições sobre qual será o próximo passo de Beyoncé. Quando questionada sobre o lançamento de um novo projeto musical, na entrevista à Harper’s BAZZAR, a artista disse: “Sim, vem aí música!”. Acrescentou que quer continuar a trabalhar para combater os desequilíbrios sistémicos. “Pretendo continuar a criar negócios fora da música. Desejo poder continuar a fazer tudo aquilo que todos acham que eu não vou fazer”.

Concluímos, portanto, que apesar de ter atingindo as quatro décadas de existência, a artista não pretende abrandar. O seu lugar junto dos melhores dos melhores, como Prince e Michael Jackson, está mais que conquistado. Agora, o que é que ela fará, em concreto a seguir? Não sabemos. Será, certamente, fenomenal, como tudo o que tem feito até agora.