Com nome de doce alentejano, o duo Siricaia passou esta sexta-feira pelo Theatro Circo para apresentar o seu álbum de estreia, “Família Fandango”, lançado em março.

No disco, fundem-se ritmos tradicionais portugueses com rock, folk, blues e country, para contar a vida de uma família tipicamente portuguesa ao longo de quatro gerações. A dupla Susie Filipe e Vítor Hugo integra também a banda aveirense Moonshiners.

“A ideia da família Fandango começa no avô da Susie porque ele tocava concertina, foi fundador de um rancho e chamava-se Aníbal Fandango”, avança Vítor em declarações ao ComUM, lembrando também a avó Floripes. As outras personagens são ficcionais, mas nem por isso menos familiares, seja pela emigração, pelo copo de tinto habitual na taberna ou pelos conselhos feitos de provérbios.

Eram 21h30 quando ficou escuro na grande sala do Theatro, e foi então que os Siricaia subiram a palco. Ele trazia o chapéu preto e uma guitarra e ela, coberta de negro, sentou-se na bateria. Iluminados a verde e vermelho, mostraram “Os primeiros passos de Benjamin” e “Sempre Muito Mais”, antes de passarem às apresentações.

ALMA no Theatro Circo Gala Sanjoanina

Theatro Circo

“Olá, muito boa noite, Braga”, anunciou tranquilamente Vítor Hugo, antes do par agradecer a receção naquela que consideram “uma das construções mais bonitas da Europa”. Introduziram as peripécias de Zé no tema “Yé Yé” e passaram de seguida a “Ser Quem Sou”, uma faixa sobre Sara que, “como muitos portugueses, emigra à procura de uma vida melhor”.

Depois d”A Noite em que Maria perdeu a virgindade”, as luzes oscilaram entre o azul e o amarelo para uma canção de todas as cores. “Os Devaneios da Avó Floripes” tomaram o palco, uma composição “sobre a matriarca da Família Fandango” que, já velhinha, “confunde ideias e conselhos”, explicou Susie. “E está tudo bem, pois todos nós para lá caminhamos”.

Decidiram então “mudar de poiso”, como lhe chamaram, para a beira do palco. Frente-a-frente, cantaram “Um dia a menos na vida de Chico” e “O dia em que Fandango morreu”, tema final do disco. Hugo tocava harmónica e Filipe narrava a cada vez mais ampla distopia da Aldeia do Chão, na qual a polícia fugia com medo e a Laika voltava do espaço. Neste negro cenário, até a sogra fazia as pazes com a nora e os mendigos deixavam de pedir esmola.

De regresso aos lugares habituais, introduziram “Clementina vs. Edmundo”, tema que “tenta retratar uma discussão conjugal” e chega até ao ouvinte em debandada. Quando parece ter acabado, a música ainda rosna, ruidosa, voltando depois com ainda mais força. A certo ponto, estamos mesmo no meio de uma discussão: enquanto um dá às cordas, o outro responde-lhe com os pratos.

A luz, a cargo de Diogo Mendes, pintava-se de tonalidades âmbar no momento em que Siricaia receberam Gonçalo Lemos em palco. O baixista juntou-se à festa para tocar uma versão de “Só Nós Dois”, original de Tony de Matos, e ainda o relato “das noites loucas do avô Fandango” no tema “Fandango”.

A noite terminou com um “Jantar de Família em Aldeia de Chão” – não fossem os lugares sentados e as restrições, certamente tinha havido um bom bailarico à portuguesa.