Disse-me um camarada há pouco tempo que cada vez mais desconfia de quem tem opiniões. Eu não seria tão radical: fico-me pela desconfiança das certezas absolutas e totais, inabaláveis perante tudo. Os meus princípios são inabaláveis. As minhas opiniões, não. E tenho todo o gosto em as reconsiderar quando algo me faz repensar um assunto, ou pensar nele de forma diferente.

Por isso mesmo é que encaro sempre com entusiasmo zero os ‘debates nacionais’ sobre assuntos delicados. Porque, na maior parte das vezes, o ‘debate’ não é tanto debate como um concurso nacional para ver quem diz a coisa mais ofensiva e estereotipada sobre o outro lado da barricada. Assim, quando o tema da eutanásia chegou à Assembleia da República no início deste mês, a minha reacção foi um simples ‘deixem-me lá tapar os ouvidos e olhar para o lado que é para ver se não me irrito com nenhum dos lados’.

Houve felizmente um consenso – muito importante – sobre o debate: o de fazer tudo com calma. Veremos como as coisas correm. Até porque já estou a imaginar coisas como ‘então não tirasses dinheiro aos cuidados paliativos!’ ou ‘vocês são uns assassinos’ a serem berradas de um lado para o outro do hemiciclo, em conjunto com as deturpações habituais de estatísticas e visões alternativas. Tanto de um lado como de outro.

Entretanto, não deixo de ver com curiosidade as muitas certezas apresentadas na praça pública. E, lá está, cepticismo. Porque muito de mim não sabe o que decidir sobre isto.

Por um lado, está-se a acabar com a vida de alguém. Os médicos fazem um juramento em que juram, precisamente, garantir, por todos os meios possíveis, a sobrevivência dos pacientes. Acrescento a isto duas perguntas de Michael Seufert, no Expresso: “Queremos que o Estado tenha ao seu dispor a possibilidade de definir quando é que uma vida não carece de protecção? Quando é que uma vida deixa de ter suficiente valor para ser protegida?”

Por outro, não deixo de pensar no que senti nos dias em que vi um familiar próximo caminhar lentamente até à morte – que ainda levou meses. Todo o sofrimento causado por uma luta de anos contra um cancro que teimava em tornar-se mais forte estava ali a culminar naquela cama em que ele tentava – e não conseguia – reconhecer quem o visitava. Quando chegou a notícia de que tinha morrido, o pensamento foi aquele que certamente muitos já tiveram em situações semelhantes: pelo menos já não está a sofrer. Porque há algo na nossa essência humana que torna sufocante ver quem amamos a sofrer – seja o/a companheiro/a de uma vida, o familiar querido ou o/a amigo/a com quem tanto nos divertimos e que nos ajudou quando mais precisávamos. Principalmente quando sabemos que esse sofrimento já só terá um fim. O mais definitivo deles todos. Aquele que nos assusta por sabermos que dele não escapamos.

Não sei se alguma vez vou ter uma opinião, seja para que lado for, sobre este assunto. Não é por ser cristão católico que me encosto a um lado, nem por estar no centro-esquerda na esmagadora maioria dos assuntos que me encosto a outro.

A despenalização não obriga ninguém, é certo. Mas o meu medo sobre as leis acerca destes assuntos – que, mesmo por serem difíceis, devem ser debatidos com profundidade e legislados – é que costumam sair como aqueles queijos cheios de buracos. E as leis não podem ser assim, feitas e escritas na boa fé de que ninguém se vai alguma vez aproveitar daquilo.

As leis têm de garantir que a perversidade bate com o nariz na porta – e que, se levada a cabo, tem consequências. Por isso, uma lei que possa, eventualmente, legalizar a eutanásia, tem de estar blindada até aos dentes. Tem de ser a lei mais apertada de sempre. Neste campo não há espaço para um Estado minimalista. É que nem quero ouvir falar duma coisa parecida.

Até haver uma lei definitiva, ainda muita água vai passar debaixo desta ponte. Nesta semana em que é apresentado o ante-projecto, iniciando efectivamente a discussão, apenas desejo que essa água não se torne turva. Que não haja precipitação na tomada de decisões, seja para que lado for. Que o debate na Assembleia da República e no espaço mediático seja decente e digno. É pedir muito?