É difícil acreditar, mas as apostas desportivas têm centenas de anos de história. A arte de adivinhar resultados de uma determinada competição surgiu em terras gregas, devido à panóplia de eventos competitivos no país banhado pelo Mediterrâneo. Hoje em dia, as casas de apostas a nível internacional movem milhões de euros diariamente, com as plataformas online em destaque.

Nas últimas décadas, o mercado das apostas tem tido influência direta nas organizações desportivas. Em 1961, ocorreu a primeira edição da Taça Intertoto, uma competição europeia que, entre 1995 e 2008, permitia o acesso direto à fase de grupos da extinta Taça UEFA. Esta competição, idealizada pelo ex-jogador Karl Rappan e Ernst Thommem, diretor das lotarias desportivas suíças na década de 50, foi criada com apenas um propósito: dinamizar o mercado de apostas no período de verão, no qual não decorriam campeonatos nacionais em todo o continente europeu.

Atualmente, muitas pessoas não envolvidas diretamente no desporto veem-no como uma oportunidade de ganhar dinheiro, sem ter em conta as motivações competitivas e históricas dos clubes em causa. Isto tem causado perturbações nas competições, com efeitos irreversíveis no futuro próximo das mesmas.

No início do mês de fevereiro, o encontro entre o Feirense e o Rio Ave não era propriamente apelativo a nível competitivo para o adepto comum da modalidade. Contudo, foram registadas várias apostas de valor elevado nas cidades de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, por parte de indivíduos de nacionalidade chinesa.

As apostas para o jogo foram suspensas em Portugal, pondo em causa o profissionalismo de atletas, treinadores e dirigentes desportivos envolvidos no jogo em causa. E esse é o problema.

O negócio das apostas, que outrora fora um terreno fértil para adultos com experiência na área, tornou-se viral e desvalorizou o desporto em si. Estamos a perder o prazer de ir ao estádio, apoiar a equipa local e sentir o dever cumprido após o apito final por fazermos parte do espetáculo. A bancada de um recinto desportivo com vista privilegiada para um jogo deu o seu lugar à cadeira do escritório, com lugar cativo num stream online ilegal no computador. Sem pessoas nos estádios e pavilhões, o desporto perde todo o seu sentido. A sua finalidade é entreter, e não criar uma rede financeira à sua volta, sufocando os envolvidos na prática desportiva.

Os escândalos no mundo das apostas, principalmente nas últimas décadas, têm tido um crescimento preocupante. A manipulação de resultados e branqueamento de capitais são alguns dos crimes derivados deste negócio obscuro. Portugal não é exceção. Estes crimes escondem outra realidade que assombra o desporto: o aspeto financeiro em detrimento da qualidade desportiva. A facilidade de acesso aos mercados de apostas e métodos de suborno danificam a verdade desportiva, manchando o quadro que o desporto pintou durante a sua história milenar.

Temos que ser uma parte integrante do desporto, ao invés de alimentar lapas que vivem à custa dele, denegrindo a sua verdadeira imagem e valores.