É triste dizê-lo, mas o jornalismo nunca esteve tão desacreditado como agora. São, entre outras coisas, as notícias sensacionalistas nos chamados jornais de qualidade, é a busca incessante pelos cliques, são as notícias falsas.

As redes sociais facilitam o consumo de informação, é um facto. As redes sociais são um meio que veio potenciar a partilha de informação de uma forma muito mais rápida, outro facto. Contudo, são também as redes sociais que facilitam algumas das maiores violações ao jornalismo.

Todos os dias, no nosso feed do Facebook, passam dezenas de notícias, muitas das quais nem sequer abrimos. Basta-nos ler o título e partilhamos para as nossas centenas de amigos. Não há sequer a preocupação de abrir, ler, confirmar se é verdadeira e só depois fazer a partilha. Não, não há “tempo” para isto num mundo cada vez mais instantâneo.

Quando falamos do fenómeno clickbait podemos, num cenário mais cor de rosa, falar de uma estratégia dos jornais para sobreviverem num mundo cada vez mais online. Um clique são mais uns euros a entrar. E nada mais fácil do que colocar um título sugestivo numa notícia “Saiba quem é a mãe do filho do CR7” ou “Quanto ganha Cristina Ferreira por mês?”. São notícias que têm como único objetivo o clique. São notícias que cativam o público, que rapidamente alcançam milhares de pessoas e que são facilmente “partilháveis”.

As fake news, por sua vez, são uma coisa diferente, mais preocupante. Tal como o nome indica são notícias falsas criadas, muitas vezes, por anónimos para lançar a discórdia, para “acenderem” as redes sociais e para ganhar uns “trocos”.

Haver quem partilhe este tipo de conteúdos é uma coisa impressionante. Pessoas indignadas, que tecem toda uma teoria sobre um assunto. Pessoas que, em muitos dos casos, leram apenas o título da notícia e que têm “algo” para dizer ou então mostrar ao mundo.

Assim de repente, lembro-me daquela notícia que dizia que o Papa já não vinha a Portugal ou então que, por causa desta visita, os polícias iriam começar a usar fraldas para não se ausentarem do serviço. Estas notícias apareceram-me no feed diversas vezes, partilhadas por diversos amigos e, agregadas a elas estavam extensas críticas, posts indignadíssimos de pessoas que, ou não se deram ao trabalho de ler mais que o titulo, ou então leram e acharam que era verdade.

E isto é assustador. Estamos numa altura em que qualquer pessoa pode criar um acontecimento porque haverá quem o receba como verdade, sem questionar. Não há o cuidado de verificar se aquilo que estamos a partilhar é de facto verdadeiro: cruzar informação com outros media, verificar fontes ou ver coisas simples como o português e a coerência da “notícia”. Hoje, basta um título sugestivo e uma foto gira e já é partilha na certa.

O jornalismo nos dias que correm está em risco. Em risco de se perder por caminhos mais fáceis, em risco de deixar de ser verdadeiro e respeitável. No 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses, que decorreu em janeiro passado, ficou-me na memória uma frase: “Nem toda a informação é jornalismo”. Cabe-nos a nós, (futuros) jornalistas, educadores e cidadãos trabalhar para inverter esta tendência.