João Moura, subcomissário da PSP, nascido em Lisboa, vê no humor a sua grande arma. Amante da Comunicação, apresentou a tese de mestrado na área e hoje faz parte do Gabinete de Imprensa e Relações Públicas da PSP.

Em entrevista ao ComUM, afirma que o principal pilar de atuação das redes sociais da força de segurança é “a prevenção e a proximidade, muito antes da repressão e investigação criminal”. Esteve presente nas XX Jornadas da Comunicação, organizadas pelo GACCUM, alusivas aos “60 anos de Serviço Público”.

De onde surgiu esta opção pela área da Comunicação?

Sempre gostei de Comunicação, tirei o mestrado em Ciências Policiais, curso de oficiais, apresentei a tese de mestrado na área da Comunicação. Também sempre gostei de marketing público e neste paradigma atual de informação, a direção entendeu que podia aproveitar para entrar nesta dinâmica de comunicação apelando a um trabalho criativo da PSP, mostrando o trabalho de forma criativa e apelativa, principalmente nas plataformas digitais.

O que motivou essa mudança da PSP nas redes sociais?

O nosso principal pilar de atuação é a prevenção e a proximidade, muito antes de repressão e investigação criminal. Ora, se o Facebook é a rede social mais seguida, se fosse um país era o maior país do mundo, nós fomos à boleia daquilo que é a tendência mundial e estamos no Facebook para criar uma espécie de Facebook de proximidade. Essa é a estratégia. Para chegar às pessoas de forma criativa, mostrando o trabalho da PSP e criando elos emocionais positivos entre a força de segurança e a sociedade civil.

Sente uma melhoria na imagem da PSP desde que as redes sociais foram impulsionadas?

Penso que sim. Podemos através de um post, de uma plataforma, de uma ideia pensada, obter muitas notícias orgânicas positivas, mas de facto o nosso maior prémio são as reações positivas da população. Quer na rua, quer através de e-mails que me chegam ou até de mensagens privadas via Facebook. Esse retorno da sociedade civil para nós é ouro. 

Assim sendo, sentem o peso da responsabilidade de serem a página governamental mais seguida em Portugal?

Sim. O que requer cada vez mais formação, requer uma equipa cada vez mais multidisciplinar. Alertamos para isso também para não sermos vítimas do próprio sucesso. Uma página como a nossa tem de ter uma equipa com a maior formação possível e é nesse sentido que tentamos também propor superiormente essa formação.

Qual a maior dificuldade de promover a marca PSP? O que acha que o público gosta menos na polícia?

A questão do trânsito é sempre a questão mais lesiva, a questão das multas de trânsito… Tentamos evitar que as multas aconteçam, com posts criativos para as pessoas não serem multada. É, de facto, retirar um bocadinho deste peso institucional. Principalmente o trânsito, eu diria que é a face mais complicada de gerir por nós. Porquê? Porque as pessoas vêem sempre mais a sua situação individual, a multa no momento, o estacionar no passeio, do que a missão da polícia em geral, de prevenção rodoviária, e isso é que é um problema. 

Há um público ao qual é mais difícil chegar?

Eu diria que o target mais difícil é jovens adultos e adolescentes, é aquele target em que nós tentamos tornar a polícia cool, dentro de trending topics do momento. Depois diria que é o público mais exigente, mais atento, que já sabe até programar, fazer coding, com grandes skills informáticos… Na minha opinião é o público mais difícil de conquistar. Penso que temos conseguido, principalmente através do Facebook. Outras redes sociais para que pensamos ir são o Instagram e o Snapchat, espero que ainda este ano o consigamos. No entanto, a equipa terá de ser reforçada.

Considera que agora já não é possível chegar às pessoas a não ser pelas redes sociais e meios digitais?

É impossível, é impossível. Aliás, aquele post que fizemos no dia 1 de abril, a simular que a página ia acabar, viu-se nas reações que tivemos das pessoas…. Realmente o digital é onde as pessoas estão hoje em dia, fala-se que a própria televisão e a imprensa escrita estão a ficar um bocado para trás porque as pessoas estão a ver televisão, mas estão com um smartphone ou um tablet na mão, e é a isso que prestam atenção, é a fazer o scroll nas suas redes sociais. Penso que é um paradigma a que é impossível de escapar hoje em dia.

O que inspira as publicações que fazem?

As pessoas, o feedback das pessoas, as dúvidas das pessoas. Se há 300 perguntas sobre um tema, fazemos um post sobre isso. E também aquilo que são os trending topics do momento. A partir do momento em que um assunto falado a nível nacional ou mundial se pode ligar de forma positiva com os valores da nossa instituição, nós fazemos o post.

Hesitam antes de fazer certas publicações? Têm receio de ultrapassar limites?

O processo criativo é pensado, tentamos que não haja aqui questões fraturantes a nível social. Mas lá está, no digital lançamos o post e o post é uma criança que cresce se as pessoas quiserem, se partilharem, se fizerem engagement. O processo criativo entre a equipa é pensado, as coisas são faladas, mas admitimos que por vezes quando publicamos ficamos ansiosamente a gerir comentários, a gerir posts porque, hoje em dia, o viral pode ser positivo, mas também negativo.

O que acha que foi mais relevante para chegar ao público? O conteúdo das mensagens que queriam passar ou a forma de o apresentar?

Eu acho que foi um meio termo. Temos posts virais com conteúdo, sem grande trabalho de criatividade, como a questão da carta dos pontos, por exemplo, o timing é importantíssimo. Mas eu diria que ainda assim, o conteúdo é rei, continua a ser o principal. Agora, a forma, claro que é sempre interessante, criar uma imagem positiva, ou um vídeo, mas eu penso que o conteúdo tem sido a nossa prioridade.

Há alguma outra força de segurança ou governamental a nível mundial que conheça por se destacar no campo da Comunicação? Que seja uma referência para a PSP?

Não, talvez o NYPD, mas é mais pelo nome, pela fama, do que propriamente pela estratégia porque os posts no Facebook, e mesmo o próprio site do NYPD, não são nada de especial. A questão aqui é: um país tão pequeno como Portugal em termos de população ter uma página no top 3 das polícias a nível internacional é case study, temos ido a várias reportagens explicar esse case study. Tentamos internamente com a nossa portugalidade, com a nossa identidade, tentar fazer sucesso.

Vê as redes sociais mais como um risco ou como uma oportunidade?

A nível de PSP é uma oportunidade se for bem gerida porque hoje em dia uma crise digital pode acontecer, como aconteceu ainda esta semana com a Zara. É uma vantagem se for bem gerido, com pinças e com estratégia, mas pode de facto ser fraturante se não for bem gerido entre a equipa.

Considera-se a cara da PSP?

Se o for para targets mais jovens já fico satisfeito. Sou um dos porta-vozes, estou na direção nacional. Se há confiança em mim para ir à televisão, para gerir o Facebook, só tenho é de agradecer, mas não me considero nenhuma vedeta.

Rir é mesmo o melhor remédio?

Penso que o rir é o melhor remédio e no caso da PSP a nossa grande arma não é a Glock de 9mm, é o humor.

Entrevista: Francisca Leite e Inês Viana