No meio daquele turbilhão de rock’n’roll que tantas vezes caía em monotonia, bem que se pode agradecer às bandas bracarenses por terem impulsionado o segundo e último dia do Gerês Rock Fest. La Resistance irrepreensíveis e a contagiante energia dos Bed Legs salvaram o dia em que os cabeças de cartaz foram os Blind Zero.

Logo 30 minutos após a abertura de portas, os Scream4Revolution, banda de Ponte da Barca, abriu o palco onde o público esteve praticamente alheio ao concerto, excetuando alguns conhecidos dos músicos. Segundo o vocalista, Miguel Silva, a banda sentiu-se “envergonhada por ver tanta gente”, apesar do Campo do Gerês não estar tão composto como seria desejado. A atuação contou ainda com um tema novo ainda não editado em estúdio.

Diogo Rodrigues/ComUM

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Já os Pippermint Twist, grupo de Vila Nova de Gaia que ganhou importância na década de 80, aquando da atuação no palco lisboeta do Rock Rendez Vous, regressou aos concertos após uma longa paragem com ligeiras mudanças em relação à sua formação inicial. Trouxeram o “rock de Gaia e muito amor”, algo que frontman transmitiu com a sua presença em cima do palco. No alinhamento não faltou o tema “Não Vou Deixar”, presente numa das coletâneas do Rock Rendez Vous.

De seguida ouviu-se a banda mais pesada do festival. Chamam-se Ionized e trouxeram de Santa Maria da Feira sons que derivam do rock mais pesado, ao metal, passando pelo nu metal, estilo que ganhou proporção no inicio deste século. Para além de ter servido para promover o seu primeiro EP, “Big Bad Wolf”, editado no ano passado, este concerto no Gerês Rock Fest foi também o último para o baterista da banda.

Um dos momentos do dia e do festival foi protagonizado pelos La Resistance. Cinco pessoas entram em palco com vestes napoleónicas (não fossem eles os La Resistance). E aí estão eles. Vindos de Braga diretamente para o Campo do Gerês, na sua terceira aparição depois de terem feito uma pausa dos palcos. Do seu único disco editado, intitulado “O Fim do Teatro” e disponível para download gratuito no “bandcamp” da banda, pôde ouvir-se logo no início “Cheap Guitar”, seguido de “O Luís já foi a Paris” e também “Freud Explica”. Todas elas com múltiplos estilos, tudo concentrado e tudo coerente, tal como uma orquestra. O sarcasmo das letras totalmente em português, em simbiose com os vários andamentos das músicas é algo que neste país não se ouve igual. Uma sintonia perfeita que dá imenso prazer em contemplar ao vivo.

Diogo Rodrigues/ComUM

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O humor não se fica pelas letras, João Figueiredo, baixista, deixa sempre o público menos tímido à medida que intervém. Ora porque diz que a próxima música é uma balada, quando na verdade cola-se a uma de metal. Ora porque solicita o calor humano das pessoas, pedindo que se aproximem do palco. Uma banda “camaleão” como esta deveria já ter pisado outros palcos, mais vistosos, em consonância com a sua categoria.

O trio portuense Malcontent cumpriu aquilo que já era esperado. Muito rock’n’roll, muita distorção e uma invejável técnica saltada à vista pelo baterista. Com o aproximar da noite, aumentava o número de pessoas em frente ao único palco do festival. Foi notória também a dicotomia existente nas primeiras filas, com crianças e adultos a o ouvir o puro rock da banda que editará um novo disco ainda este ano.

Mais uma banda de Braga e mais um grande concerto. Os Bed Legs foram a banda ideal para elevar o festival que pecou pela pouca adesão do público. Interpretando dois dos maiores sucessos logo no início, com “Vicious” e “Black Bottle”, Fernando Fernandes cativou, como já é hábito, a plateia com a sua inesgotável energia. Foram três as vezes que o frontman saltou do palco para junto do público e teve sobre si apontados vários telemóveis e máquinas fotográficas de fãs de longa data, ou de novos admiradores. Mais uma vez incentivados por “Ferna”, que aconselhou a “celebrar a vida”, eis que na última música, “You Girl” aconteceu o habitual mosh. Ainda que tenha sido travado pelos seguranças do festival, algo inusitado, mas justificado pelo facto de estarem presentes muitas crianças na plateia que foi a mais concorrida de todo o festival.

Diogo Rodrigues/ComUM

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Para fechar esta primeira edição do Gerês Rock Fest, os Blind Zero, encabeçados por Miguel Guedes, não se esqueceram de tocar os temas que os trouxeram para o panorama musical nacional. “Snow Girl”, “Shine On” e “Slow Time Love” arrancaram os maiores aplausos, com o público a cantar esses mesmos êxitos. “You Have Won”, último single, foi também ouvido. Quase no fim do concerto, a chuva fraca que caiu sobre o Campo do Gerês arrefeceu o festival e a atuação, obrigando o público a abandonar o recinto, deitando assim por terra um possível encore que estaria a ser preparado.

Diogo Rodrigues/ComUM

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O encerramento oficial do Gerês Rock Fest esteve a cargo de João Pereira, com a sua Bazuuca SS e os seus clássicos dançáveis de rock’n’roll e não só.

O Rock no Parque Nacional

Pela primeira vez realizou-se um festival de música às portas do Parque Nacional da Peneda do Gerês. Segundo a organização, o licenciamento necessário para a realização deste tipo de certame foi “difícil e bastante burocrático”. Com todos estes esforços de descentralização dos festivais, esta primeira edição ficou “aquém das espectativas”. No entanto, o objetivo é continuar já no próximo ano com a segunda edição deste Gerês Rock Fest, sempre no Campo do Gerês, “pelo menos enquanto nos deixarem”, confessa um dos elementos organizadores do festival. Ainda que os patrocínios não sejam muitos, pensa-se que os ganhos serão suficientes para cobrir os custos da edição deste ano.

Envolvido por montes e por uma área protegida, o contacto com a natureza é garantido. A partir do momento em que se está a caminho do Gerês, o encontro eminente com vacas em plena estrada é (quase) certo. O campismo do festival, para além de estar circundado por um enorme arvoredo, fica paredes meias com um clube de equitação, logo, os cavalos fazem parte da paisagem contemplada pelos festivaleiros que encheram por completo o espaço reservado à montagem de tendas. A maioria deles não veio de longe. “Nós e os nossos amigos somos daqui de Terras de Bouro”, disseram umas campistas que estavam com um grupo composto por cerca de quinze pessoas. Outros vieram de Braga e até havia gente de Lisboa.

Se é preferível um festival em plena natureza, ou num meio citadino? Isso é algo quase unânime. Um festival em contacto com a natureza tem outro sabor.