A festa já se ouve pela Rua do Souto, a “Saia da Carolina” ganha ritmo com gaitas de foles e bombos. Dois cabeçudos rodopiam pela cidade de Braga e assustam algumas crianças pelo caminho. Quem passa pela Avenida Central é convidado a aprender a tocar instrumentos tradicionais e a dançar folclore. É o início da 3.ª edição de festival “Do Bira ao Samba”. Um fim-de-semana onde tanto se dança o vira como se dança o samba. São os Bomboémia, ritmados por tradições portuguesas e brasileiras, quem se encarrega deste festival com uma relação improvável entre as duas culturas.

Mas ainda há muito trabalho a fazer

Num prédio que passa despercebido pelas ruelas de Braga, há quem ainda esteja a preparar os últimos retoques para o Monumental Cortejo de Carnaval Fora de Época. À medida que se sobe a escadaria, encontram-se vestígios do brilho que vai desfilar no sábado. Asas, plumas, capacetes, máscaras penduradas no teto, tecidos recortados no chão, caixas e caixotes, garrafas recheadas de pedras brilhantes, todo um conjunto de figurinos à espera de ganhar vida. Nuno Costa é um dos principais responsáveis por esta desordem colorida. “Hoje deitei-me às nove, ainda não eram dez e já estava a pé”, conta o criador de todos os trajes utilizados no festival. Um trabalho árduo que dura desde janeiro de 2017, mas “amanhã vão ser sete da tarde e ainda vai haver alguma coisa para fazer”.

Ana Maria Dinis/ComUM

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O desfile carnavalesco é o ponto alto do festival e há todo um processo criativo que envolve desde a escolha do tema à idealização dos figurinos. “Samba Augusta” é o mote para este ano, inspirado nas influências da Roma Antiga na cidade de Braga. Nuno segura nas mãos uma coroa egípcia: “As pessoas não imaginam o trabalho que isto dá”. Inúmeros são detalhes que passam por várias etapas e por várias mãos até se conseguir um produto final muitas vezes despercebido aos olhos do público, reforça. Os dourados e os brilhantes desta coroa representam a deusa Ísis, que tinha um templo de adoração “ali ao pé da Sé”. Não só desta deusa se compõe o desfile, há também outras deusas, guerreiras, profetizas, sacerdotisas e uma representação do imperador César Augusto.

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Depois de tirar um curso de criação e costura há 5 anos atrás, Nuno Costa, abriu o seu próprio atelier. De roupas de criança e vestidos de noiva, aventurou-se mais tarde em figurinos mais exóticos com a sua participação numa escola de samba. É também membro dos Bomboémia e um dos principais organizadores de “Do Bira ao Samba”. No sábado, espera que a chuva não passe por Braga, pois “tudo isto ao sol brilha mais”.

O traje que assenta no Minho e no Rio

Tem tudo aquilo que um traje folclórico feminino costuma ter, mas a cor é só uma. Nuno Costa desenhou e criou uma réplica da roupa tradicional minhota toda em branco. O tecido de uma cor que quebra a tradição, lembra o estilo carioca ou as vestes das mães do santo.

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As várias peças que formam o traje estão penduradas numa cadeira, Nuno mostra-as uma a uma. “Nunca vi um avental em branco”, conta o designer relativamente à reação do alfaiate a quem recorreu para tecer aquela peça. Há várias camadas de tecido com diferentes pormenores, maioritariamente em fazenda, com apontamentos bordados em veludo e ainda pequenos cristais distribuídos pela saia e socas, que aos olhos de Nuno, lembram “as soquinhas da Cinderella”. E assim, o Minho encontra-se com o Rio de Janeiro num figurino tradicional único.

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A junção das duas culturas pode, no entanto, ser considerada um erro aos olhos de estudiosos em tradições, explica Henrique Antunes, também membro dos Bomboémia e organizador do festival. Mas para quem vive o ritmo da música tradicional, arrisca-se a considerar que “pelo menos 1% do samba, vem do vira”. Uma afirmação que não se baseia em dados históricos, mas que surge do “sentimento de cada um”.
Contudo, a Nuno pouco lhe importam os factos históricos para este caso e esclarece que “isto não é um traje de nenhum rancho”. É um traje Do Bira ao Samba.

Quando o figurino sai do atelier, é hora de brilhar

O cortejo é “fora de época”, mas começa como quase todos os desfiles carnavalescos: cinzento e a ameaçar a chuva. Junto ao Arco da Porta Nova já se vêem plumas coloridas ao vento, a elas juntam-se concertinas, bombos, pauliteiros e membros de grupos folclóricos. Cada um com a sua arte e função, esperam o grande momento.

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A energia fervilha nos corpos quando se ouve a primeira batida da bateria, começa-se a sambar mas também há espaço para se dançar o vira ao som da concertina. Na frente desfilam as duas musas do festival. A musa do samba, em tons quentes numa pele morena, e a musa do vira, mais pálida, com o inédito traje branco.

Em 1961, João Gilberto cantava sobre o efeito do samba: “Quanto se canta todo o mundo bole”. Braga rende-se tal como na canção. A alegria do desfile conflui com a vida quotidiana da cidade, dança-se de um lado e do outro “dançam” bandejas de comida nas esplanadas dos restaurantes.

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Mais atrás, vêem-se as “saias da Carolina” a girar e a saltar com o seu par, contagiam o público com uma energia mais “caseira” e familiar a todos. Vindos de Miranda do Douro, também desfilaram saias de “Carolinos”, com paus no ar e ao som do tambor e gaitas de foles, uma dança de influências guerreiras que não deixa ninguém quieto.

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Os compassos tropicais e o samba no pé misturam-se com o som das violas e com os passos do “malhão”. Dois países de mão dada a dançar. Fica a imagem metafórica para um festival improvável, que trouxe um novo ar à cidade de Braga.

Ana Maria Dinis

Joana Lopes Ferreira