Pedro Romano, um dos maiores impulsionadores do ComUM, faleceu anteontem, 5 de outubro, em Braga. Entre 2010 e 2012 esteve no Jornal de Negócios. Neste momento, estava afastado do jornalismo e era freelancer, mas mantinha uma colaboração com o Jornal Económico, onde era colunista semanal e onde se estreou na profissão, em 2008.

Pedro licenciou-se em Comunicação Social na Universidade do Minho, onde também fez o mestrado. Foi assessor do grupo parlamentar do CDS-PP e passou pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Mais do que um pilar, Pedro Romano é um alicerce do ComUM. Aos 31 anos, deixa-nos um dos fundadores do jornal que o quis – e fez – impresso, em 2008. Uma aventura que merece, sempre e a qualquer altura, ser recordada pela coragem, vontade e ousadia.

O ComUM recolheu alguns testemunhos de quem viveu, conviveu e confidenciou com o Pedro.

“Sem tempo a perder”

Guardo do Pedro Romano algumas imagens fortes.

Uma, a de que era teimoso. Um grande teimoso. Mas não teimoso “porque sim”, nada disso. Acreditava no que pensava, no que queria, no caminho por onde desejava ir, e não mudava se não o convencessem do contrário. Mas só se o convencessem mesmo, mesmo, mesmo, com boas razões, com argumentos a sério!

Outra, a de que era apressado. Parecia querer fazer sempre as coisas depressa. Depressa e muitas. Com intensidade, com entrega, mas com rapidez, para poder logo passar a outras. Sem tempo a perder. Curioso: dir-se-ia que já adivinhava o pouco tempo que teria para fazer o tanto que queria…

Os meus respeitos.

Joaquim Fidalgo, professor na Universidade do Minho

“Olá, eu sou o Pedro do Negócios”

O curso de Ciências da Comunicação (Comunicação Social, à altura) sempre teve uma boa dose de figura memoráveis, os seus cromos e prodígios.

O Pedro Romano teve o condão de pertencer às duas categorias e levá-las a um novo patamar.

Foi esta ambiguidade que o tornou memorável: um nerd popular, possuía uma inteligência invulgar tanto para tecer longos comentários sobre papers do FMI como na escrita de histórias absurdas e hilariantes.

Ao longo dos últimos 12 anos, fomo-nos encontrando e desencontrando em Braga, Lisboa e Nazaré. Combinava a dose certa de intelecto e entusiasmo, desbobinando um conjunto impressionante de novidades próprias e alheias sempre que conversávamos.

Conheci a personagem antes de conhecer a pessoa, principalmente através do seu antigo blog de universidade, o famoso (infame?) “O Número Primo“, e da participação na agremiação desportiva “Os Coxos“. Fiquei a conhecê-lo melhor quando colaboramos no ComUM Online e trabalhamos em grande proximidade aquando da criação da secção humorística do jornal, o InComUM. O Romano era das poucas pessoas que gostava mais de parvoíce do que eu e era esse interesse comum que deixávamos correr livre na dose quinzenal de notícias fictícias, para gáudio dos nossos colegas… e indignação dos visados.

Só quase 10 anos depois descobri que as nossas sessões de deboche tiveram consequências: o nosso colega e amigo Rui Passos Rocha, enquanto director do jornal, foi posto em tribunal por uma dessas brincadeiras. Um inocente sofreu bullying institucional por nossa causa. Senti-me revoltado com a minha impotência.

É essa mesma revolta que sinto por termos perdido um amigo querido, um colega brilhante, o meu blogger/cronista favorito e, claro, um pândego à moda antiga.

E uma pena imensa por aqueles que não tiveram o prazer de o conhecer. O mundo precisa de mais Pedros Romanos. Perdemos o único que tínhamos.

Até sempre, camarada.

Hugo Monteiro

“Podemos tentar dar continuidade ao seu trabalho”

A primeira vez que vi o Romano foi numa aula fantasma. Ele “era” o professor de Semiótica Moisés Martins. Fiquei muito impressionado porque ele foi muito convincente. Empenhou-se a sério naquela brincadeira. E o Romano era isso, um gajo empenhado e motivado em tudo que fazia. Só assim conseguiu criar e manter a edição impressa do ComUM. Só assim conseguiu que a equipa Coxos FC, formada para participar no torneio de CS, ainda hoje exista…e já lá vão mais de 10 anos.

O meu amigo deixou a UM em 2010 ou 2011, mas manteve sempre a sua ligação à casa. Nos últimos anos ele tem organizado, praticamente sozinho, o Troféu Moisés Martins. Uma competição que permitiu que “velhos” como eu  conhecêssemos as novas caras de CC, revíssemos antigos colegas, amigos, professores.  Era um ponto de encontro muito especial para todos nós e só foi possível graças ao amor e dedicação do nº5 coxeano. Podemos tentar dar continuidade ao seu trabalho, seria uma boa forma de o homenagear. Mas será sempre diferente, porque ele era especial, era único.

Agora resta-nos recordar os bons momentos que ele nos proporcionou. As “flash-interviews” hilariantes publicadas no blog coxeano, os hits da banda “The codice” e as histórias, umas escritas outras não, que eu e outros vivemos com ele.

Nós ficamos com o teu brilho, com a tua alegria, com a tua boa disposição. E tu ficas com a nossa gratidão.

Obrigado, Pedro Romano.

Hugo Pires

“Não quis, fez, o ComUM avançou”

No dia em que o Victor Ferreira anunciou em reunião que teria de deixar a direcção do ComUM para se concentrar no jornalismo profissional, foi o Pedro Romano que me disse avança, pá, que eu vou contigo. Foi o apoio dele, mais do que outra coisa, que me fez querer ser director do ComUM. Com ele ao meu lado, mais outros colegas, amigos do peito e excelentes profissionais, eu soube que tudo valeria a pena: repensar o conceito do jornal, criar um novo site, sonhar e pôr cá fora o ComUM impresso. Todo esse trabalho.

Meses depois, quando o site e o impresso eram o centro do nosso dia-a-dia, e quando, cansado e frustrado porque o ComUM me levava os dias, as noites, os fins-de-semana e as relações familiares e afectivas – o tempo livre, em suma -, foi o Pedro Romano que teve aquela conversa comigo. Aquela que, até este texto, só eu e ele sabíamos que existiu. Aquela que aconteceu perto das duas da manhã, horas depois da reunião de grupo em minha casa. Nessa reunião de grupo, eu com todos os editores do jornal (ele incluído), em que anunciei embargado o meu profundo cansaço, depois de seis semanas, seis edições, de ComUM impresso, e pedi a todos que ficássemos por seis edições, não temos de ir às nove que planeámos, já foi tão bom, não acham?, estou cansado, entendam por favor, preciso de descansar. Essa reunião em que todos disseram havemos de encontrar uma solução, vamos todos dar um pouco mais, tu Rui farás menos, logo vemos, mas vamos tentar continuar até à edição nove.

Depois dessa reunião, eu ainda transtornado porque não conseguira o descanso de que precisava, liga-me o Pedro Romano, vai ter ao sítio x, conversamos um pouco os dois sobre a reunião. Eu fui, encontrámo-nos, e ele tranquilizou-me: eu ficarei a dirigir o ComUM, disse ele, não te preocupes, eu organizo as edições, tu ficas com a paginação, que nisso precisamos mesmo de ti, não te preocupes com mais nada. E deu-me um abraço, compreendeu o meu sentimento. Eu disse-lhe que sim, vamos então a isso. E assim se fizeram mais três edições do ComUM, o Pedro Romano ao leme do jornal e da secção de Sociedade, uma coisa mais a outra, um trabalho impensável, tudo isto às costas dele, e ao mesmo tempo não quis nunca os louros, o nome dele no cabeçalho do jornal, cortava rente quando eu dizia que, claro, o nome dele é que devia estar como director. Não quis, fez, o ComUM avançou.

O Pedro Romano era assim: generoso. Dava de si porque sim, porque isso era o que ele achava correcto. Não queria nada em troca. Dava. E eu fiquei-lhe, e ficarei, para sempre grato. Por isso e por tanto, tanto mais.

Rui Passos Rocha, director do ComUM entre 2007 e 2008