Todos sabemos o papel que o futebol tem na sociedade portuguesa. Todos sabemos que este desporto assume a coroa de rei, desde há muito tempo, no nosso país. Mas será que temos o futebol que queremos?

Criado em meados do século XIX em Inglaterra, segundo os registos da época, o futebol começou a ser praticado em Portugal no final desse mesmo século. Desde essa altura até hoje muita coisa mudou, obviamente. As regras foram sendo constantemente alteradas, cresceu substancialmente o número de praticantes e de adeptos e o dinheiro começou a ter um papel preponderante nesta modalidade. E a verdadeira essência do futebol? Será que se manteve?

Qualquer desporto se rege pela vertente competitiva, mas também por uma noção de espetáculo, onde a emoção adquire grande importância. Se nos primórdios do futebol a paixão pelo jogo era a principal motivação de quem o praticava, hoje não é bem assim.

Atualmente, a obrigatoriedade de ganhar, seja a que custo for, domina o pensamento de todos os agentes desportivos. Não importa a quantidade de dinheiro que é gasto, não importa a quantidade de treinadores que são despedidos, ou melhor, não interessa o meio que é utilizado desde que o fim seja a vitória. Contudo, as exceções existem, mas não são as suficientes para “contra-atacar” o “poderio ofensivo” das pessoas que mandam no futebol.

Por outro lado, o lado emocional parece ser influenciado negativamente pela “máquina económica” que impera neste desporto. Os adeptos são a força motriz de qualquer clube. Porém, os dirigentes do futebol nacional – aquele que mais nos interessa – parecem “usar” a paixão dos apaixonados por esta modalidade.

Ora vejamos: sabendo-se da enorme vontade que as pessoas têm de ir aos estádios, a cada época, de modo geral, os preços dos bilhetes aumentam em relação à temporada anterior; esta época, tal como tem acontecido noutros anos, a Taça CTT tem-se jogado aos poucos e poucos e em horários contraproducentes para quem trabalha no dia a seguir. Tudo isto para acertar um calendário de uma competição que teima em não agradar, por estas e outras razões, aos adeptos dos clubes participantes.

É evidente que o dinheiro tem um papel fulcral neste desporto. Porém, será tudo isso razão para que se deixe a essência do futebol, que são os adeptos, para segundo plano?

Se olharmos para aquilo que se passa nos estádios dos clubes profissionais do nosso futebol, é desolador ver a pouca quantidade de espetadores. Felizmente, há exceções, e os emblemas minhotos, de modo geral, conseguem contrariar um pouco essa tendência.

Posto isto, já há alguns anos que está na altura de inverter esta ideia de que o futebol é só para quem pode e não para quem quer. Baixar os preços? Se tal implicar estádios bem compostos e o aumento do espetáculo dentro e fora do terreno do jogo, porque não? Não é isso que os adeptos querem?
Se houver mais qualidade, mais gente vai querer ir às partidas de futebol. Assim sendo, os preços que hoje se praticam e que impedem muita gente de assistir aos jogos, seriam bem mais razoáveis e isso acabaria por multiplicar o número de espetadores. Na prática, as receitas de bilheteira até poderiam aumentar.

Um bilhete num desafio da Liga NOS para não sócios pode custar, em média, dez a 15 euros – não contando aqui os preços exorbitantes praticados por alguns clubes quando defrontam o SL Benfica, FC Porto ou Sporting CP em sua casa. Segundo dados dos Transfermarkt, esta época, em média, o número de espetadores em cada jogo do principal campeonato do futebol nacional ronda os 12.000 adeptos. Aparentemente, estes números parecem interessantes, no entanto, é importante notar que são fortemente influenciados pelos cinco clubes que colocam mais adeptos nos estádios em Portugal (SL Benfica, Sporting CP, FC Porto, Vitória SC e SC Braga). Ao fazermos o mesmo exercício só para os outros clubes, que são mais de 70 por cento do campeonato, os valores andam à volta dos 3.600 adeptos por jogo.

Se fossem reduzidos para metade os preços dos bilhetes, a quantidade de pessoas que iam aos estádios não seria o dobro? Ou até ao triplo?

Até pode nem ser a melhor solução, mas alguma coisa tem que mudar. Sem os adeptos, o futebol não é nada; e quando se tomam decisões que impliquem, direta ou indiretamente, o seu afastamento dos recintos desportivos, é sinal de que o desporto-rei não está num bom caminho. Se não se fizer nada para mudar isso, a coroa corre o sério risco de cair.