Conrado Kaefe
1- Ponto Omega, Don DeLillo
Don DeLilo já é um dos mestres do romance moderno e no seu último livro faz uma das mais fantásticas construções de personagens do ano passado. Richard Esler escolhe o exílio no deserto como a porta de saída para um mundo desiludido. Tecido com maestria, é quase possível crer que o Tempo, este ser omnipresente, faz parte da narrativa como uma das personagens. Supera Liberdade de Frazen em muito. Destaque também para a tradução de Paulo Faria. (Sextante)
2- O Filho de Mil Homens, valter hugo mãe
Poético e emotivo, o último livro de valter hugo mãe rendeu-lhe o prestígio da crítica brasileira, se bem que os seus trabalhos ainda não foram muito levados a sério pelos escritores e pela Academia (embora seja um sucesso de público). O tema do livro é a criação de uma família imaginária que vai preencher os dias vagos e sem sentido de um homem que nunca teve filhos. (Alfaguara)
3- Coleção O Bairro, reedição, Gonçalo M. Tavares
Depois da chegada do décimo habitante (Sr. Elliot) ao Bairro imaginado por Gonçalo M. Tavares, a editora Caminho decidiu reeditar todos os outros livros e lançá-los em uma caixa. A edição de luxo ainda conta com um postal que traz o Bairro em miniatura. Vale a pena pela obra em si e pelo escritor, que ao lado de valter hugo mãe, está a protagonizar um novo parto na língua portuguesa, como afirmou Saramago. (Caminho)
Menção honrosa
Não posso deixar de mencionar o fabuloso trabalho de edição de Vítor Aguiar Silva com a publicação do Dicionário de Luís de Camões (Caminho). Como obra de referencia, será indispensável para o estudo futuro deste poeta único. A outra menção fica para a edição Poesias Completas (Caminho) do poeta brasileiro, Manuel de Barro.
João Oliveira
1- Catch-22, Joseph Heller
É na guerra e é anti-guerra. Não é O Resgate do Soldado Ryan, porque não há heróis. Mente-se, rouba-se, mata-se e quem não come é comido. E há Yossarian, o anti-herói por excelência, todo um programa de personagem: quer viver para sempre, ou morrer na tentativa. A coluna vertebral da história, essa sim, imita com fidelidade o aspeto de um campo de batalha: o tempo não segue um fio linear, os eventos sucedem-se numa ordem anárquica. É pegar num papel, tentar desenhar uma cronologia dos acontecimentos e baquear perante o aneurisma iminente. Catch-22 cresceu mais que o próprio autor: não se fala no segundo sem referir o primeiro. O livro é de 1961, foi traduzido em 1986 e só agora conhece reedição.
2- Um tratado sobre os nossos atuais descontentamentos, Tony Judt
Não é justo colocar um livro de Tony Judt entre duas obras de ficção. No entanto, os limites da ficção e da não-ficção nem sempre são palpáveis. A análise que Judt faz do acordo social-democrata que permitiu a reconstrução da Europa no pós-II Grande Guerra já parece, cada vez mais, ficção, miragem. Concordando ou não com Judt, há méritos na sua conceção do mundo e da sociedade que poucos lhe negam. Sobre a Confiança, os Objetivos Comuns, a Abundância Privada e a Penúria Pública, o Défice Democrático. Um dos capítulos mais devastadores é dedicado à vacuidade de ideias dos baby-boomers que, do norte ao sul da Europa, conduzem os destinos do continente: não defendem nada em particular, são políticos light.
3- Última Paragem, Massamá, Pedro Vieira
Já tinha patenteado o estilo fluído (quase oral, como Saramago) através de Irmão Lúcia, o blogger, mas só agora se iniciou no romance. Pedro Vieira é um observador nato, capta na perfeição os tiques e os vícios do português do subúrbio (tanto do indivíduo como da língua). A trama propriamente dita não é muito envolvente, o que é pena, contudo, Última Paragem, Massamá vale pelo retrato que Vieira traça do ambiente e do quotidiano. A ironia e o humor já lhe eram reconhecidos e nem todos escrevem assim.