Alexandre Vale
1– Sangue do meu sangue, João Canijo
Sangue do meu sangue é o mais recente filme de João Canijo e representa o corolário do cinema português. A história desta família do Bairro Padre Cruz tem o grande mérito de ser capaz de suscitar o incómodo aos espectadores, face ao retrato de um Portugal real e agitado por problemas de pobreza, de desigualdade de oportunidades, de criminalidade e face às situações que flagelam os membros familiares. O Bairro Aleixo é uma metáfora sobre tudo aquilo que se impõe contra nós, sobre a condição que nos parece forçada e fatal (a hybris) e sobre as adversidades com as quais somos confrontados toda a vida. Contudo, o amor incondicional é a força mais poderosa de todas. E, mesmo com a tragédia a aproximar-se, o amor persiste, e vence qualquer situação. É daí que temos as qualidades redentoras do filme, que nos eleva e nos espanta enquanto pessoas.
2- Drive, Nicolas Winding Refn
A grande surpresa deste ano. Como é que um filme de ação, sobre um condutor de carros de fuga suscitou tanta aclamação pela crítica e deu a Nicolas Winding Refn o prémio de Melhor Realizador em Cannes? Se pensarmos de maneira reducionista, não encontramos a resposta à pergunta. Porque Drive não é um simples filme de ação. É um filme arthouse que honra os grandes marcos de ação e explora as convenções do género, dando-lhe uma pitada de neo-noir. O realizador dinamarquês dá uma aula de filmmaking e serve uma obra memorável, com uma fotografia ousada a criar imagens icónicas e marcantes a cada frame do filme, com uma banda sonora com sentimento genuíno (e nunca forçado) de anos 80 e interpretações fantásticas de um elenco de renome. O destaque vai para um enigmático Ryan Gosling, na pele da personagem principal e Albert Brooks, cuja interpretação de mafioso Durão tem acumulado elogios da crítica e valeu-lhe uma nomeação ao Globo de Ouro de Melhor Ator Secundário.
3– A Árvore da Vida, Terrence Malick
Os anos de ausência de Terrence Malick na atividade cinematográfica serviram para o realizador americano beber da fonte da inspiração e sujeitar-se a um período de profunda reflexão. Fruto deste tempo em que permaneceu afastado, Malick regressou como um realizador iluminado e deu-nos A Árvore da Vida.
O filme, justo vencedor da Palma de Ouro de Cannes, tem imagens lindas, soberbas e magnânimas, que penetram na retina do espectador e tomam conta do nosso espírito, estonteado pela grandiosidade fílmica de Árvore da Vida.
João Oliveira
1- Sangue do meu Sangue, João Canijo
Admito algumas críticas que têm sido feitas ao filme de João Canijo – refiro-me, em especial, a um artigo pertinente no P3. Concedo que a caracterização de alguns ambientes é, a momentos, desmesurada. Os relatos de futebol a pedirem atenção ou a música de Tony Carreira a dizer “estou aqui, olhem para mim” em vários momentos do filme não primam pela subtileza. Mas, apesar de tudo, vale a pena pela técnica, pelos diálogos (a revista Ler de Janeiro tem um bom artigo sobre o assunto), pelo drama amargo e pela imagem da inevitabilidade do modo como se vive, o opróbrio da pobreza no subúrbio, como uma mancha que não sai da roupa. Acaba a última cena e fica a moer na cabeça e no estômago.
2- Meia-noite em Paris, Woody Allen
Admito que andei muito desatento ao cinema de 2011, mas, assim de repente, não me lembro de outro filme de Woody Allen, no ano que passou.
3- Meio Metro de Pedra, Eduardo Moraes
A apresentação de Meio Metro de Pedra ao público português assenta num conceito rock’n’roll q.b.: Eduardo Morais anda de norte a sul do país a mostrar ao público a sua humilde coleção de testemunhos de figuras do rock português que muitos muito pouco terão ouvido falar. Vai de Joaquim Costa a Victor Gomes, dos Mão Morta aos Tédio Boys, dos Jets aos Aqui D’El-Rock (acaba, infelizmente, sem abordar a cena de Barcelos, o que até se entende, por ser ainda muito recente). Já passou por Braga (pela Videoteca Municipal), onde teve um público em número modesto – não há coisa mais underground. Foi gravado sem qualquer tipo de apoio (DIY, claro), já que a bolsa que lhe havia sido prometida chegou já depois de o filme estar pronto. E cumpre o serviço público de destronar Rui Veloso como papá do Rock português, o qual, como afirmam os Tédio Boys, não tem pais, são todos bastardos.
César Carvalho
1- O Cavalo de Turim, Béla Tarr
Béla Tarr, um profeta inspirador das mais imersivas análises sobre o cinema moderno enquanto valor meditativo (sim, de uma forma muito austera mas inigualável), assegura ter dado aqui por terminada a sua riquíssima carreira. Não são as directas referências a F. Nietzsche – aliás, estas servem de impulsão para a mensagem que o filme carrega - nem as inúmeras incursões analíticas além filme, ou mesmo a belíssima carga de silêncio que quase a transporta para o cinema mudo, que fazem desta a obra do ano; toda a estrutura criada pelo realizador húngaro serve o seu propósito de esbarrar nas mais intensas forças contemplativas uma decomposição muito profunda do Homem em imagens e (pouquíssimas) palavras.
2- A Árvore da Vida, Terrence Malick
A obra que confirma Terrence Malick como um dos melhores realizadores da actualidade é uma ode ao pensamento, à Natureza e à procura do verbo de deus em nós e nas nossas preces. As questões, tantas vezes apresentadas, procuram significado para o próprio filme e não são mais que conversas interiores connosco e com esse alguém misterioso (a figura do divino). Toda a história da Humanidade é cunhada de significado metafísico para num simples (e duro) drama familiar erguer a Natureza como a voz mais audível da figura de deus. Uma belíssima fotografia, uma banda sonora celestial, uma prestação admirável dos seus actores, enfim, uma obra ímpar e sensível que se transcende num existencialismo por demais relevante e reflexivo.
3- Uma Separação, Asghar Farhadi
Um drama de decisões, de escolhas, de angústias e, acima de tudo, de um pessimismo arrepiante (mas muito bem demonstrado). Asghar Farhadi provoca, de uma maneira simples, sensações que se confrontam a elas próprias para, no estender de toda a história, fazer sobressair aquelas que aparentemente são as mais brutas e injustas. A caracterização das personagens está irrepreensível – a exigência do enredo requeria uma concepção muito mais “de realidade” do que ficcional – e, deste mesmo modo, o trabalho do realizador iraniano tende a encontrar-se ainda mais com a escola sociológica do cinema do seu país (à imagem de Abbas Kiarostami e de Jafar Panahi).