Bem sei que as avós não são todas iguais e muitos terão levantado uma sobrancelha em tom inquisidor quando leram a introdução que escolhi para este artigo. Em boa verdade vos digo que me referia àquelas avós que, por mais que lhe falem em restaurantes gourmet ou cozinha moderna, só conseguem cozinhar enchendo gigantescos tachos com mil e um ingredientes, não só matando a fome a toda a família mas, apesar do aspeto duvidoso, conseguindo criar aqueles pratos intemporais de que todos sentimos falta, quando estamos longe da nossa 'avó'.
Fazer paralelismos entre o universo culinário e o musical, por mais absurdo que pareça, explica bem o ponto de vista que quero aqui sublinhar. No fundo, este disco tem um ecletismo que poderia fazer com que estes jovens músicos passassem despercebidos, por entre tantos artistas novos que aparecem todos os dias com caras bonitas e rotulados de música indie, mas com sonoridades gémeas e sem grande interesse. Neste caso, talvez a satisfação não seja suprema, mas ainda assim fica a curiosidade, porque estes Twin Sister podem ter um som meigo e bonito, mas não se ficam apenas por aí.
De Long Island New-York, este quinteto ativo desde 2008 traz já na bagagem o EP do mesmo ano Vampires With Dreaming Kids e um outro de 2010, Color Your Life, para agora se atirarem ao primeiro álbum de longa duração. Chillwave, indie pop, dreamy, colem os rótulos que quiserem. Em cada música há um bocadinho de tudo, já fiz saber. Mas a mesma sonoridade misteriosa e atmosférica manteve-se do EP para este trabalho, embora com um pouco mais de coesão. Os arranjos estão ligeiramente melhores. Mais polidos, o que lhes dá uma certa liberdade para vaguearem por entre a synth pop em “Daniel” - onde a voz mal se faz ouvir, apenas sussurra, como se estivessem a gravar de madrugada - e um revivalismo post punk bonito como em “Space Babe” – a relembrar alguns sons dos anos oitenta.
Percebe-se que algumas das comparações de músicas com, Beach House ou mesmo Björk fazem sentido, na medida em que melodias tão fortes como “Eastern Green” ou mesmo “Luna's Theme” assentam basicamente em composições vocais simples mas excecionais, sempre cantadas por Estella (vocalista principal da banda) que raramente soa da mesma maneira nas diferentes canções.
A hipnotizante “Gene Ciampi”, com um registo quase poético, soa a uma abertura psicadélica de um filme western para crianças, ou a um filme italiano perdido nos anos sessenta. “Bad Street” surpreendentemente pega ao colo numa disco-pop, sem a deixar cair, mantendo o groove, a lembrar o estilo do David Byrne, mas mantendo uma relação a duas vozes com o guitarrista principal Eric Cardona a juntar-se nas vocalizações. O dueto é tão bem sucedido que também o ouvimos em “Stop”. “Kimmy In a Rice Field” é um bom momento do álbum e uma música que podia ser retirada de um futuro álbum a solo de Estella, com alguns momentos mais previsíveis de sintetizador por vezes. Na música “Spain” podíamos contar com uma aparição do James Bond e seus arquirrivais.
Acho que se justifica dizer que até aqui fizeram sempre tudo bem, desde shoegaze, a disco ou até folk, mas ainda não encontraram bem uma identidade para além deste saltitar entre géneros. Valem assim pela capacidade de explorar as músicas ao pormenor e de mexer no que realmente faz uma boa música.