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Anatomia de uma dívida

Capa do novo livro do romancista João Tordo Capa do novo livro do romancista João Tordo |
  • Título: Anatomia dos Mártires
  • Autor: João Tordo
  • Editora: D. Quixote
  • 1ª Edição: 2011
  • Género: Romance
  • Veredito: ★★★

Desvendar um mito pressupõe, também, deslindar as entranhas de um povo no qual este mito está inserido. Eis o que descobre João Tordo, em Anatomia dos Mártires.

Saldar uma dívida, há muito tempo cobrada pela consciência, é o objetivo do novo livro de João Tordo, que veio a lume em novembro do ano passado. Anatomia dos Mártires resgata parte esquecida do passado, pré-25 de abril, para reapresentá-lo aos filhos dos portugueses, que deixaram de prestar a respectiva deferência a uma história de batalhas e conquistas. Esta é a condição da personagem principal, como também a do autor. Reconciliar o escritor com o passado é o primeiro dos objetivos a serem cumpridos no longo caminho para se quitar a dívida. 

Porém, como foi dito, este é só o primeiro dos objetivos do autor. Decorrente deste, vem o segundo, e não menos fulcral objetivo, com o escopo maior de prestação de contas, que é reconciliar o público-leitor com o passado. Despertar a consciência de uma juventude para uma personagem tão importante para a História popular portuguesa, quanto para a Revolução de Abril. Catarina Eufémia parece estar relegada à memória dos mais velhos e aos velhos alfarrábios de História do século XX. Recontar a sua história era necessário, de forma a trazer-lhe de volta à vida. Para isto haviam duas possibilidades: escrever um romance histórico, na linha da tradição portuguesa de Herculano e Saramago, que reelaborasse a vida desta ceifadora, refizesse os seus últimos passos até o momento do assassinato cobarde, levado a cabo pelo Coronel Carrajola, ou resgatar o mito dentro de um outro contexto, onde pudesse ser posto em prática, pela ação de personagens, e assim trazido à tona.

Deste enlace inferem-se duas coisas. A primeira delas é a de que escrever um romance histórico exigiria do autor grande acuidade linguística no trabalho de recompor o ambiente português dos anos 50. Depois era ainda necessário uma investigação minuciosa sobre os seus últimos passos, levantando documentação histórica e depoimentos de pessoas que pudessem ter interagido com Catarina Eufémia. O problema está quando a própria informação a respeito da personagem está envolta em brumas e nevoeiro. São inúmeras as contradições que surgem a respeito quando se tenta contar a história da camponesa que enfrentou os desmandos de um latifundiário e assim prenunciou o espírito aguerrido dos revolucionários e comunistas portugueses. Provavelmente estes devem ter sido os empecilhos pelos quais passou João Tordo na hora de elaborar o romance.

A segunda opção era escrever sobre este mesmo processo de investigação. Apontar-lhe as contradições, factos incontestes, depoimentos, fontes. É nesta linha pela qual João Tordo decide enveredar com  Anatomia dos Mártires, que é a história de um jornalista – não nomeado, como já é comum nos livros do mesmo autor – que em busca de impressionar o seu editor, um destes comunistas convictos e ferrenhos, escreve um artigo audacioso sobre a verdadeira natureza dos mártires, o que o leva a questionar a própria figura de Catarina Eufémia. Tudo muda quando este editor, que o defendeu das inúmeras críticas que a revista recebe, aparece em coma, após uma sequência de ameaças. Atormentado sobre as razões que o levaram ao fatídico estado,  o jornalista começa a querer lançar luz sobre quem foi Catarina Eufémia.

O romance desdobra-se em duas partes, conceptualmente, ou três partes,  esquemáticas. Ou seja, conceptualmente, a nível de elaboração temos duas partes onde a primeira nos apresenta o conflito inicial que irá despoletar a curiosidade do jornalista, com a história desta mártir portuguesa, com as consequências desta investigação, e a segunda que é mais um ensaio ou investigação bibliográfica a respeito do tema. Nesta última parte, o livro perde parte da narratividade para tratar dos diferentes imbróglios que são subsequentes a investigação - Catarina era comunista? Catarina foi morta na luta pelos ideais ou na luta pelo simples pão do dia-a-dia? Foi honesta a apropriação que o Partido Comunista fez ao utilizar a sua imagem? Agora, se levarmos em conta a apresentação esquemática da obra teremos três partes, ou capítulos, se assim preferirem: Anatomia dos Mártires, Catarina e Os Apoderados.

A prosa de João Tordo é objetiva e simples, sem grandes esforços para o leitor e sem grandes esmeros para além do cuidado com o escrever correto e bem – não antevemos nele um preciosismo narrativo como em Gonçalo M. Tavares e valter hugo mãe . Os diálogos, motivo de grande número de elogios dos livros de João Tordo, se não são excepcionais, porque grande parte do livro é narrativa, são pertinentes e concisos. O livro é contado na primeira pessoa pela figura do jornalista, daí estarmos dependentes das lembranças do narrador para refazer os diálogos. Mesmo assim, são eficientes em passar os pontos de vistas dos personagens e, de certa maneira, realistas. Pelo menos, dentro daquilo que podemos esperar de portugueses comuns, como são os personagens do livro.

O grande porém do livro reside na própria narrativa. O enredo, apesar de não se valer de grandes reviravoltas ou malabarismos, como se tornou a marca de estilo do autor, não flui com naturalidade. Estamos diante, fique logo claro, de uma obra ímpar na bibliografia de João Tordo. Um romance menos de suspense do que de autoafirmação. E em histórias onde o valor reside mais no conteúdo dos acontecimentos do que no ocorrido em si, Anatomia dos Mártires parece ter um desfecho imposto a toque de força pelo autor. O mesmo pode ser dito sobre a personagem feminina de João Tordo, fruto muito mais da imaginação, do que da análise aprofundada das peculiaridades da alma da mulher. Com isso quero afirmar que Lorna, jornalista irlandesa, que tem grande importância narrativa no livro, é pouco verosímil e ao mesmo tempo a mulher ideal para todos os homens.

Eis o terceiro e último objetivo do autor: contar uma história. A necessidade de se valer do artifício da ficção no intuito de satisfação pessoal. É pela arte do romance, que João Tordo pretende, juntado todos os objetivos de obrigação moral e consciência política, saldar esta dívida que não é somente dele, mas de todos os portugueses que vivem hoje. Por isso, ao fim, podemos afirmar que este romance é ao mesmo tempo intimista/pessoal e coletivo/nacional. Anatomia dos Mártires é, também, um livro para todos aqueles que confundem o nome de Catarina Eufémia com o de uma rainha qualquer.

Última vez modificada em quinta, 16 fevereiro 2012 17:38
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