Moisés Martins: “Não há condições para se ter ideias nenhumas” PDF Imprimir e-mail

Presidente do ICS crítico quanto ao processo de adopção do novo regime de gestão das Universidades pela UM

No âmbito da tertúlia dedicada ao debate sobre as estratégias de desenvolvimento seguidas pela Universidade do Minho (UM) perante o novo regime de gestão das Universidades proposto pelo Governo, Moisés Martins foi bastante crítico para com a acção da Reitoria em todo o processo. O presidente do Instituto de Ciências Sociais (ICS) comentou a aparente “unanimidade” em torno da aceitação do modelo proposto e a ausência de discussão sobre o tema.

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Moisés Martins aludiu à falta de debate em torno das questões fundamentais na UM. Foto: Rosa Azul 

A propósito da mudança na gestão dos estabelecimentos de Ensino Superior, Moisés Martins lamentou a falta de debate dentro da UM. “Hoje, o debate é dificultado a partir de cima. É um debate que eu vejo que deveria ter outras condições de existência”, sublinhou o docente.

O sociólogo lamentou a insistência no modelo matricial de organização da UM que, embora possa ter servido num momento inicial, deixou de ter utilidade para a universidade minhota, uma vez que “exacerbou o seu funcionamento autoritário”, trazendo com isso “problemas seríssimos”: “A Universidade é a casa das ideias, mas vejo que não há condições para se ter ideias nenhumas”.

Um dos principais problemas deste modelo matricial é, para Moisés Martins, a “vasta fragmentação das escolas, de grandeza diversificada”, situação que favorece as escolas maiores que “sempre fizeram o que quiseram”.

Para alterar este estado de coisas, devia-se, no entender do académico, reconfigurar a matriz de modo a estabelecer equilíbrios que ela não tem”, sustenta o docente, dando o exemplo da reformulação dos cursos do ICS aquando da entrada de Bolonha, ao referir que se perdeu uma oportunidade para apresentar uma reestruturação mais alargada dos cursos. Moisés Martins acrescentou que dizer-se que a transição foi feita de acordo com o modelo é “risível” pois fez-se “tudo menos isso”.

O tributo que se paga à virtude

Moisés Martins reconhece alguns aspectos positivos do modelo proposto, como a partilha de recursos entre as Escolas. Porém, não deixa de considerar que o uso que se tem dado “ao modelo tem sido cada vez mais retórico. Muitas vezes há a ideia do modelo matricial quando importa fechar o debate.”

“O modelo matricial é o tributo que o vício paga à virtude. É do vício que vivemos”
, argumentou o presidente do ICS.

O candidato derrotado nas últimas eleições para a Reitoria deu ainda conta do papel menorizado a que têm sido votadas as Escolas e Institutos da UM: “Deveriam servir as Escolas para apoiar os projectos pedagógicos. Mas, damos conta de que as Escolas têm sido formalmente esvaziadas em competências. O funcionamento democrático interno não tem poder efectivo.”

Preocupações com o novo modelo

Na tertúlia também esteve o professor da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto – e membro da Assembleia Estatutária da Universidade Técnica de Lisboa –, José Ferreira Gomes, que alertou para o perigo da “introdução de um regime de governo de topo” das universidades.

“O que se cria é uma instituição que existe para fazer serviço público – as universidades são propriedade do Estado. O Estado entendeu que o serviço público com dinheiros públicos era melhor gerido se mantivesse autonomia face à hierarquia do Estado, mas que funcionaria melhor se tivesse um conselho geral que representasse o interesse público. O Conselho Geral pretende governar a Universidade”, salientou Ferreira Gomes.

Que papel para as Universidades?

O Director da Escola Superior de Tecnologia do Instituto Politécnico do Cavado e do Ave (IPCA), Luís Moutinho, preferiu levantar questões relativas aos objectivos que se pretendem com a reforma: “Que é que queremos atingir? Queremos ser bons em quê? Qual o papel que nós poderemos fazer dentro de um sistema?”

O dirigente levantou a questão da “cooperação ou interdependência” das universidades. “Existem muitas áreas em que sabemos que aquela não é a nossa área de interesse. É para mim impensável que o IPCA se preocupe com física atómica. No entanto, é quase inconcebível para mim que exista uma unidade de Ensino Superior de saúde na UM, que eu tenha um curso de Informática da Saúde e que o nosso contacto seja nulo.”

Luís Moutinho antevê o desafio principal: “Ou a instituição [a UM] se organiza de maneira a responder a tudo aquilo que lhe é pedido – ao nível da organização interna – ou não vai responder a tudo aquilo que a sociedade pede de si. Tem de procurar a sua natureza, a sua forma de intervenção.”

Sobre o novo regime proposto pelo Estado, Luís Moutinho sublinha a “cegueira” do mesmo em relação ao “modelo cultural das pessoas a quem este sistema é suposto aplicar-se.” “Quando se fala do papel das entidades externas nas universidades, esquece-se que esses modelos funcionam bem em países onde essa cultura é diferente – como os Estados Unidos – pois dentro dessas culturas é comum que a participação nas universidades seja muito grande”, sublinhou.

No painel esteve também o docente do Departamento de Engenharia, Joaquim Neves, que lançou um alerta: “o sistema [de gestão das universidades] está desactualizado”.

 

17/04/08
Phillipe Vieira





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