O que vestimos pode ser um assunto de Estado PDF Imprimir e-mail
Civilização da imagem. Sim, parece que insisto em referir-me à esteticização do mundo pós-moderno. Por agora detenho-me na imagética política. Actualmente, onde está um ou uma responsável da área política está um assessor de imagem para cuidar da roupa, do cabelo, da forma de falar, da dicção e de muitos outros elementos que concorrem para a definição de uma pessoa. Cuidado com aquilo que se diz ou se veste, principalmente as mulheres…nada que dê a entender a dita sensualidade tipicamente feminina, pois isto pode colocar em risco não só a imagem, mas a segurança nacional.

A simbologia das roupas varia de uma cultura para outra. A roupa que se veste é como que um espelho de nós. Poderia falar da moda ou deter-me sobre os significados simbólicos de cada estilo de roupa. Não o vou fazer. Refiro apenas que as roupas são símbolos de status e diferenciação social e individual. A simples escolha de uma peça de vestuário, que à primeira vista pode parece inocente e sem carga ideológica, aparece recheada de significações. Umberto Eco, no livro “A Psicologia do Vestir”, refere que o vestuário fala, portanto faz parte integrante da comunicação. Assim, o traje precisa de corresponder com a sua identidade e com as expectativas que os outros têm a seu respeito. Hoje em dia “mais do que ser, é preciso parecer”.

Muito recentemente, a chanceler alemã, Angela Merkel, viu-se envolvida numa grande polémica que chegou a ser manchete em vários jornais, sobretudo na imprensa sensacionalista. A notícia era o decote que ostentava na cerimónia de abertura do novo edifício da Ópera de Oslo. Convidada pelo rei Harald V da Noruega, a governante alemã apresentava-se com um vestido de noite azul-marinho e preto com um decote. Angela Merkel acabou por ser o alvo prioritário dos fotógrafos que converteram o seu traje de festa numa notícia, ou melhor, num assunto de Estado. As opiniões dividiram-se. Enquanto uns apelidavam o vestido de “elegante”, outros referiam que era “perverso” e que a chanceler já estava a sofrer influências da primeira-dama francesa, Carla Bruni (que tem aparecido também na imprensa associada a várias campanhas publicitárias que fez e que dão visibilidade ao seu corpo). Para não falar da comunidade turca na Alemanha que achou o vestido escandaloso…impensável para a representante alemã usar.

Diz-se, estereotipadamente falando, que os alemães são disciplinados, bem treinados e preocupados com a segurança. Habituados a ver Angela Merkel vestir fatos cinzentos e muito formais, quando se aperceberam que a governante envergava um modelo menos conservador do que o habitual passaram à censura. Os preconceitos foram activados e a senhora viu o seu peito exposto na imprensa mundial. Será que o seu vestido colocava em causa a segurança nacional? Muito me questiono. Afinal, parece que uma chefe de Estado tem que estar ‘vestida até ao pescoço’. Nada que distraia ou chame as atenções, pelo menos em espaços públicos, mas há que ter também cuidado em casa porque pode estar sempre um paparazzi à espreita. Ela diz que não ficou aborrecida com as notícias, mas apenas surpreendida e disse que teve apenas “intenção de sair da rigidez do vestuário de um chefe de governo numa noite de ópera". O que vale é que o porta-voz do governo alemão já disse que Angela Merkel vai continuar a escolher a sua roupa livremente. Parece que há muitos alemães, mesmo membros de outras facções políticas, que gostariam de controlar o seu guarda-roupa. Deram a entender isso…pelo menos pelos comentários que fizeram acerca do dito decote.

A realidade é que a governante alemã está no centro das atenções dos media. Basta relembrar que chegou ao poder em 2005 e que é a primeira mulher com o posto de chanceler, sem esquecer que provém da Alemanha de Leste. Uma mulher num alto cargo de chefia…e lá se activam os estereótipos.

Hoje em dia, com as novas tecnologias da comunicação, o processo eleitoral ganha outros contornos. O marketing visual está em acção e os candidatos são mais avaliados pelo aspecto estético do que pelas propostas e programas eleitorais. 

Mas este não é caso único. Também Hillary Clinton foi criticada por usar um decote numa sessão do Senado. Um artigo do Washington Post, assinado por Robin Givhan, crítica de moda do jornal, sublinhava o uso do decote como uma “pequena afirmação de sexualidade e feminilidade num Congresso conservador - esteticamente falando". Depois de uma assessora de Hillary Clinton se mostrar indignada com o artigo, tal como muitas leitoras, Givhan argumentou que se estava a referir a “um estilo de vestir e não sobre uma qualquer parte do corpo". A detentora de um prémio Pulitzer tem criticado os códigos de vestir de várias personalidades. Escusado será dizer que Hillary Clinton quer ser a primeira Presidente dos EUA. E já foi muitas vezes referida nos media como mulher do ex-Presidente e não pela sua condição individual, realçando as suas capacidades para o cargo.

Hoje em dia, com as novas tecnologias da comunicação, o processo eleitoral ganha outros contornos. O marketing visual está em acção e os candidatos são mais avaliados pelo aspecto estético do que pelas propostas e programas eleitorais (em 1960 John Kennedy foi o primeiro político a utilizar a televisão como um veículo para vencer as eleições à Presidência dos EUA). O discurso político esvazia-se para dar lugar a um espectáculo muito bem construído, onde não há sinais de uma noite mal dormida, um cabelo fora do lugar ou os sapatos por engraxar. Aí está a ‘equipa de coaching’ a entrar em acção. É essa imagem perfeita que controla o acesso ao espaço público dos grandes líderes políticos. Os meios de comunicação social estão sempre à espera, prontos para os/as ‘apanhar’ em trajes menos apropriados à sua condição…muitas vezes entrando na esfera privada destas pessoas.

E quando são mulheres a situação piora. É usual ouvir as seguintes questões: Como é que ela conseguiu chegar lá? O que é que ela vestiu na cerimónia xpto? Já viram aqueles sapatos ou aquele decote? Não acham que ela não tem sentido estético? Já olharam para o seu passado? Enfim, seria preciso muito mais espaço para continuar a debater esta temática…Resta-nos a esperança de mulheres como estas que nos provam diariamente que os cargos de chefia devem ser ocupados por aqueles e aquelas que têm competência (o que nem sempre acontece, mas isso são outras ‘estórias’).

 

23/04/2008
Carla Cerqueira





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Comentários
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Anónimo  - Muito bem pensado 28-04-2008 14:00:02
Uma boa perspectiva sobre a nossa política. Parabéns pela crónica
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