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Em que lugar fica a competência |
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As mulheres e a política. Não é engano. Não vou repetir a crónica anterior nem vou repisar o que afirmei. A tomada de posse do governo espanhol serve de mote para esta reflexão numa altura em que todas e todos ouvimos falar da grande ‘revolução’ de Zapatero. Um executivo com mais ministras do que ministros e com a primeira mulher na história espanhola a chefiar a pasta da Defesa.
Carmen Chácon tem estado no centro das atenções. Aos 37 anos está à frente de um ministério considerado tradicionalmente masculino. Na blogosfera houve mesmo quem a apelidasse como ‘a comandante dos homens da guerra’. Bem, em primeiro lugar é preciso referir que as Forças Armadas não são compostas apenas por homens e que existe um ingresso progressivo das mulheres nessa área, incluindo nos cargos de chefia. Em segundo lugar, elas não são apenas competentes nos cargos de segundo plano ou nos postos honoríficos. Em terceiro, ela não é a primeira ministra da defesa no mundo. Basta relembrar a recente ministra francesa, Michelle Alliot-Marie. Já para não falar de países como Cabo Verde, Dinamarca, Suécia, Noruega…e muitos outros.
A ministra espanhola viu a sua imagem exposta na imprensa de todo o mundo por fazer uma revista às tropas e estar grávida de sete meses. Houve mesmo quem ficasse admirado/a com tamanha proeza nesse ‘estado de graça’. Esquecem-se é que ela já era ministra no anterior governo de Zapatero (na pasta da Habitação) e que já estava grávida. Além disso, estes comentários mostram-nos que ainda existe um longo caminho a percorrer para mudar mentalidades retrógradas e sexistas.
Parece que uma mulher grávida não pode estar activa e ter uma função profissional com grande visibilidade e responsabilidade. Em paralelo, para muitas criaturas parece estranho que ela consiga conciliar o papel de mãe com a função profissional. Já se comenta que Carmen Chácon vai gozar a licença de maternidade e vai conservar o emprego. Qual é o problema? Onde está a notícia? E os comentários sobre a beleza da ministra…ou sobre o facto de ela querer ensinar o feto a contar espingardas. Enfim, é miserável assistirmos a este tipo de discurso.
Carmen Chácon limitou-se a exercer as suas funções de ministra da Defesa. Ela não está com uma doença terminal, pronta a ir para o corredor da morte (como alguns e algumas querem demonstrar). Não sei qual é o problema de ter uma gravidez activa e assumi-la desse modo. Não entendo quais são as incompatibilidades. O importante é que seja competente no exercício das suas funções. Pelo menos é isso que me preocupa.
Infelizmente ainda assistimos a casos de empresas que não contratam mulheres porque existe a possibilidade de elas ficarem grávidas. Zapatero mostra a estes ‘patrões’ que gravidez e competência ‘jogam no mesmo baralho’. A imagem de Carmen Chácon que tem sido extremamente mediatizada mostra alguns progressos num mundo patriarcal. A igualdade de género é uma meta que se vai conquistando diariamente e ainda é necessário muito trabalho para acabarmos com a dicotomia da mulher privada e do homem público. Elas, tal como eles, merecem (repetindo, se tiverem competência para tal) estar em todas as esferas da sociedade.
Quem me dera não ter escrito esta crónica. Isso significava que o facto de Carmen Chácon estar grávida, ser ministra da defesa e fazer uma revista às tropas nesse ‘estado delicado’ não fosse notícia. Resta-me lamentar as vozes que ainda se insurgem contra as mulheres em lugares de chefia e contra a conciliação da vida profissional e familiar (porque só elas ficam grávidas). 29/04/2008 Carla Cerqueira
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