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Hoje desvio-me um pouco do tema das curiosidades e descobertas da matemática, da ciência e da tecnologia. O motivo? O novo Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior, que entrou recentemente em vigor e que vem obrigar as universidades a proceder à alteração dos seus estatutos.
Sem dúvida que a estrutura da Universidade do Minho está longe de ser democrática. Em particular, note-se por exemplo que a eleição do Reitor cabe à Assembleia Universitária, da qual metade dos membros são-no por inerência (entre os quais, pasme-se, a própria equipa reitoral em funções) e os restantes são representantes de alunos, docentes e funcionários, eleitos directamente para o cargo, apesar de, em geral, fora do contexto da escolha do Reitor. Seria, portanto, em meu entender, bem-vinda uma reforma dos estatutos da Universidade no sentido da criação de órgãos de representação mais democrática (começando desde logo pela eleição directa do Reitor), por forma a caminharmos para uma universidade pluralista, aberta a todas as opiniões e atenta às necessidades da comunidade académica, que se constituísse realmente como um local de formação para a cultura e cidadania. Contudo, desengane-se quem pensa que a reforma proposta pelo governo vai de encontro a estas espectativas. Na verdade, em substituição da lei da autonomia (em vigor há quase 20 anos, desde a sua aprovação por unanimidade no Parlamento), chega-nos um novo regime, aprovado exclusivamente com os votos da bancada do PS, que provoca um enorme retrocesso na conquista da liberdade e da democracia. Atente-se a algumas das suas imposições. As universidades passarão a ser governadas por um Conselho Geral a quem competirá eleger o Reitor, que, por sua vez, concentrará em si os poderes do actual Senado. Este, se não for extinto, tornar-se-á um mero órgão consultivo da reitoria. Mais surpreendente ainda é a constituição do referido Conselho Geral, que será composto no máximo por 35 membros: os estudantes vêm a sua participação reduzida para 15 por cento, o pessoal não docente nem sequer tem direito a representação e um mínimo de 30 por cento deste conselho deverá ser composto por notáveis personalidades externas, de reconhecido mérito nos sectores académico ou económico. Durante uma semana que passei em Coimbra, no final do ano passado, reparei que grande parte dos estudantes estava ciente do processo que então se desenrolava. E notei que se preocupavam, reagiam, manifestavam o seu descontentamento. O mesmo não poderei dizer aqui no Minho. Não se corre então o risco de que os poderes político e económico se imiscuam nas instituições de ensino superior? Que, incorporando-se os falados gestores profissionais, estas passem a ser geridas por uma lógica de mercado, à semelhança das empresas? Que os cortes no orçamento levem as instituições a optar por consórcios empresariais (ou mesmo pela figura da fundação de direito privado), sujeitando-se a que as decisões sejam tomadas por imposição dos interesses económicos, ao invés de em prol dos alunos, investigadores e funcionários? Não se poderá afirmar que, sob o chavão "da abertura à vida social, cultural e económica exterior", esta reforma põe em causa a garantia constitucional de "autonomia estatutária, científica, pedagógica, administrativa e financeira" das universidades? Não, segundo o ministro Mariano Gago: “um contributo decisivo para a modernização do ensino superior português”. É assim mesmo, adaptando o que já outros costumavam dizer: tudo pelo ensino superior (e pela nação!), nada contra o ensino superior. Viva o Governo! Viva Portugal! Durante uma semana que passei em Coimbra, no final do ano passado, reparei que grande parte dos estudantes estava ciente do processo que então se desenrolava. E notei que se preocupavam, reagiam, manifestavam o seu descontentamento. O mesmo não poderei dizer aqui no Minho. Parece-me que tudo isto tem passado ao lado da nossa vida académica: muitos alunos nem sequer terão ouvido falar do RJIES. E porquê tanta falta de informação? Nesta altura, a UM, assim como todas as instituições de ensino superior do país, prepara-se para eleger os representantes dos docentes e alunos na assembleia que irá aprovar os novos estatutos, à luz do novo regime júridico. Urge certamente promover na comunidade académica (e, em particular, entre os estudantes) um debate sério acerca do que poderá ser feito para minimizar o aumento do défice democrático das instituições, dentro do quadro criado pelo RJIES. Convém lembrar que a lei deixa alguma margem de manobra em alguns pontos, tais como a participação activa dos alunos e funcionários, a manutenção do Senado e dos órgãos de gestão das Escolas e Departamentos, que poderão passar a ser nomeados pela reitoria ou preservar o processo eleitoral e os conselhos representativos. A acção da assembleia estatutária será crucial neste aspecto, pelo que devemos estar bem informados na altura de escolhermos os nossos representantes. Mas ao que parece, a grande maioria de nós não quer saber se a sua voz é ou não ouvida nos locais de decisão e governo da universidade. Desde que se não deixe de ouvir as reverenciosas saudações aos digníssimos e reverendíssimos prelados do colégio pontifício e demais dignatários eclesiásticos da hierarquia - essa sim, a única que realmente nos interessa - da melhor academia do país... Isso sim, já justificaria uma reacção estudantil. 23/10/2007 Rui Barbosa
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