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O papel da religião na sociedade contemporânea perante a ciência e a explicação racional do mundo foi o tema da conferência que reuniu ontem, na Biblioteca Craveiro da Silva, o padre Anselmo Borges e o cientista Alexandre Quintanilha. À explicação racional do mundo, proposta pelo director do Instituto de Biologia Molecular e Celular, o sacerdote contrapôs um conhecimento duplo, cabendo à ciência a explicação do mundo e à religião a descoberta das “causas últimas”.
Na sessão, promovida pela Fundação Bracara Augusta, Anselmo Borges, que é também docente de Filosofia da Religião na Universidade de Coimbra, admitiu que a história da relação da ciência com a religião é marcado por conflitos, e que “por vezes foi mesmo a guerra declarada”; mas defendeu que estes choques só surgiram quando não se percebeu “que a vida é um livro religioso e não um livro científico”, sendo necessário, por isso, lê-la de um modo “hermenêutico”. Por isso propôs que as duas esferas se autonomizassem, argumentando que a ciência investiga acerca das questões do universo e que a religião reflecte acerca do “fundamento último do mundo, uma questão à qual a ciência não dá resposta”, não podendo, ainda assim, “contrariar a ciência”. Alexandre Quintanilha explicou que a própria questão estava armadilhada, e que a ignorância acerca da origem do mundo não pode servir para justificar uma crença: “Não sei [como foi criado] e não necessito de invocar algo para além da minha ignorância para viver satisfeito”, afirmou. Concluindo, o cientista explicou ainda as diferenças que, no seu entender, separam a religião da ciência: “em ciência, não há nenhuma teoria sagrada, e elas [as teorias] têm de poder ser ‘desprovadas’”. Apesar das diferenças de opinião, Quintanilha e Borges concordaram em relação ao facto da religiosidade ser irrelevante para as obrigações éticas, defendendo que não é da existência de Deus que nasce o dever para com os outros. O docente de Filosofia da Religião explicou ainda que “um crente não está obrigado a mais do que um não crente”. O temor pelas certezas absolutas uniu também os dois intervenientes; Quintaninha alertou para “os fundamentalismos dos dois lados” e Anselmo Borges pôs a tónica na necessidade de a religião estar sempre aberta a reformular-se. A este propósito, o sacerdote referiu o livre 'The God Delusion', do biólogo Richard Dawkins, e explicou que a obra – cuja versão portuguesa é prefaciada pelo próprio Anselmo Borges – “é também importante para os crentes, ao obrigá-los a pensar a sua fé no quadro da modernidade”. 27/10/07 Pedro Romano
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