500 anos de ignorância PDF Imprimir e-mail

O caso dos alunos ciganos para os quais foi criada uma turma especial numa escola de Barcelos revela um problema que a sociedade portuguesa tem recusado assumir: há 500 anos que os ciganos vivem no país e não sabemos nada sobre eles.

O desconhecimento acerca da cultura romani justifica, de resto, algumas das barbaridades que tenho lido da parte de quem entende que a decisão da escola, corroborada pelo Ministério da Educação, é correcta. 

O que as sociedades ocidentais não toleram é aquilo que me parece um dos atributos mais apaixonantes dos ciganos que, apesar de viveram em Portugal há 500 anos, não abdicaram da sua cultura de origem. Mais: fazem questão de a exaltar e de a valorizar. É isso que “atenta” contra a cultura ocidental, sedenta de monopolizar os padrões culturais. 

E isso acaba por justificar situações como a que aconteceu há uns anos, em Vila Verde, quando quiseram “correr” com os ciganos com o recurso a milícias (muito civilizado, não é?). A mesma comunidade de onde são provenientes alguns dos alunos encaixotados em Barcelos tem sido vítima, ao longo dos anos, de vários casos de discriminação, tendo sido defendida a sua expulsão da zona. 

Mas detenhamo-nos no caso concreto, que está carregado de perplexidades. É indigna a criação de uma turma constituída exclusivamente por ciganos. É uma espécie de apartheid escolar, com o beneplácito do governo de um país democrático e, diz-se, socialista. É ainda mais indigno que estes (17 crianças ao todo) tenham aulas num contentor (a tutela usa o eufemismo “monobloco), no meio do recreio de uma escola primária, ainda que alguns deles tenham aulas de outros ciclos de ensino. 

A DREN justifica que a medida se trata de “discriminação positiva” e tenta maquilhar a situação. Dizem que os jovens foram separados para evitar que pessoas com 18 anos tenham aulas em turmas de crianças de 14. Então e na dita “turma especial” não tem crianças entre os 9 e os 18? E essa diferença de idades não lhes é prejudicial, igualmente? E então só há repetentes entre os ciganos? Só estes é que atrasam o desenvolvimento das restantes crianças? O argumento é frágil. 

O desconhecimento em relação à comunidade cigana gerou uma série de crenças em relação a estes que redundou na discriminação. Apesar de viverem em Portugal há 500 anos, esse tempo não chega para que sejam considerados portugueses como os outros. E isto é quase “natural” para a população maioritária. Como se percebe na justificação da própria DREN, quando diz que o caso se trata de uma “experiência piloto”. E quem são as cobaias? Pois, esses tais cidadãos de segunda.

 

19/03/09
Samuel Silva





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500 anos de ignorância

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Samuel Silva
Do riso e do esquecimento

Cronista

Estudante
2º ano do 2º ciclo
Ciências da Comunicação
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