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Apanhar a viagem do tempo |
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Corremos, mas não o apanhámos. Gritámos de angústia porque ele fugiu. O comboio do tempo embarcou no momento anterior ao que desejávamos. Não o encontrámos. Na rua fica a nostalgia dos tempos em que esperávamos por ele. Nas brincadeiras de criança, nos gestos sem relógio, no tempo sem tempo para contar. Já fora tempo em que tínhamos mais do que tempo para tudo o que queríamos. Hoje não temos sequer tempo para pensar. Nesta fugacidade tenaz, nos gestos que se movem à velocidade de um relâmpago, na luz que se apaga sem sequer darmos por ela. O cansaço invade-nos a alma e vence-nos pela insistência voraz com que consome todas as energias.
Houve momentos que queria não ter tempo para parar. Hoje olho para o lado e sinto o castigo do relógio que teima em acelerar. Passo por muita gente na rua, num andar apressado de quem caminha com um objectivo. Não perder mais tempo. Qualquer conversa de café…o telemóvel toca para dar um recado rápido, mas até para esse há a desculpa do tempo que se faz pouco e da vontade que já não é muita.
O computador sempre presente, companheiro de todos os momentos. Uma espécie de extensão dos nossos braços, da memória, dos afectos que já quase não têm tempo para gente “de carne e osso”. Numa virtualidade que se faz perene, mas que é completamente efémera. Ficam as recordações das brincadeiras no jardim. Quando não havia mais do que raquetes de ténis ou uma bola para jogar ao que pouco gostávamos, mas que nos satisfazia as horas. Agora é a altura de desligar o botão. É preciso voltar à realidade. Será que ainda há tempo para mais uma crónica. São já 4 horas da manhã. O trabalho ficou pendurado na janela de ontem e o amanhã traz mais uma aflição em busca do tempo perdido. Perdido nos infindáveis afazeres que nos consomem, nas distracções que parece que nos tornam mais sociáveis, mas que evidentemente nos tornam vivos. Não importa muito se o tempo partiu no último comboio. Não há nada a fazer. Resta esperar pelo tempo que escasseia entre as mãos, debaixo dos pés, no próprio pensamento…Amanhã há mais uma viagem a toda a velocidade…Resta saber se voltamos a não ter tempo para apanhar o tempo…
10/04/09
Carla Cerqueira
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