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Hoje, contra mim escrevo. Vivo em Lisboa há coisa de sete meses e, em todo este tempo, visitei um museu apenas. Um. Não exigirá certamente um esforço intelectual avultado ao leitor, pelo menos ao mais atento, para que adivinhe os caminhos dessa episódica saga museológica: Museu Colecção Berardo, esse mesmo.
Por outra, quando, ano e meio atrás, tive o contentamento de passar dois dias em Viena – numa das minhas escassas viagens, quantidade a que a condição de teso não será certamente estranha – uma das primeiras coisas que fiz, depois de arregalar os olhos à cidade principesca, foi meter pés a caminho do Museu de História Natural. E foram, lá dentro, três horas de enriquecedora solidão. Sete meses, um museu; dois dias, um museu. A média (mais que) desequilibrada leva-me, finalmente, à pergunta: por que raio é que não visitamos os museus da nossa terra e, quando aterramos em Madrid, já levamos a morada do Prado no bolso? Mas isto de os turistas paparem museus é provavelmente das constatações mais óbvias. Como óbvio é que não censuro nem aplaudo a prática, isto é, não julgo que a malta deva esquecer o sol na face e a cerveja no bar para se enterrar em poeiras seculares; mas muito menos concebo que se vá a Paris sem ver o Louvre (apeteceu-me o «ir a Roma sem ver o Papa», mas temi pela ambiguidade do sentido). Se há coisa que o Museu Berardo veio comprovar foi a mentalidade do bom português: se for à borla, a malta vai; se for à borla e passar muitas vezes na TV a anunciar, a malta vai; melhor, se for à borla, passar muitas vezes na TV a anunciar e ficar bem dizer que se foi, aí a malta vai mesmo. Voltando aos museus portugueses, pouco tenho a dizer. Até porque os poucos que visitei, fi-lo como estudante de coisas distantes como o ensino básico e secundário. Não vamos ao museu da nossa terra, isso é certo. Mas se há coisa que o Museu Berardo veio comprovar foi a mentalidade do bom português: se for à borla, a malta vai; se for à borla e passar muitas vezes na TV a anunciar, a malta vai; melhor, se for à borla, passar muitas vezes na TV a anunciar e ficar bem dizer que se foi, aí a malta vai mesmo. O resto – no caso, a exposição – é acessório. A ser assim, alvitro desde já que o Museu de Arte Antiga, Lisboa, tem entrada gratuita aos domingos e feriados. Nunca fui. Conto fazê-lo em breve. Nas entrelinhas, e na ressaca da inauguração de mais um museu – o do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira – já se me varreu o propósito desta crónica. Talvez dizer que me apetece olhar para alguns dos museus que há por cá. E que, definitivamente, tenho problemas com a dita arte contemporânea ou pós-moderna – perdoem-me a indefinição terminológica. A exposição de Robert Rauschenberg em Serralves – da qual só vi algumas imagens no noticiário, mais que suficientes – e a incomparavelmente mais triste história do cão e do rafeiro Guillermo Habacuc Vargas, só vieram solidificar-me as convicções: há artistas duvidosos, mais duvidosos que artistas. 27/10/2007 Hélder Beja
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