Os pobres ao pão de letras PDF Imprimir e-mail

Trabalho num gratuito. Eu, dias outros estudante e acérrimo adepto da luta contra a imprensa não paga, trabalho num gratuito. Os jornais à borla, aliás, acabam de ultrapassar em Portugal o volume de circulação daqueles que custam dinheiro, como conta o post do Jornalismo & Comunicação. O fenómeno, já se vê, chegou e não se pense que tem dia marcado para abalar.

Hoje – e cada vez mais – há pouco quem esteja disposto a pagar por um jornal ou revista. E, em boa verdade, esse pagamento não passa de um acto simbólico que beneficia a publicação quanto a níveis de reputação mas que a prejudica porque veda a sua chegada às mãos de mais e mais pessoas. Acto simbólico porque – e isto muitos desconhecem – aquilo que pagamos pelo Público, pelo Correio da Manhã ou pela Visão não paga mais de 10 por cento dos custos dessas publicações.

Por outra, se a gratituidade leva mais facilmente o jornalista ao leitor, também mais levianamente o entrega nas mãos daquele que não é nem nunca será leitor de coisa nenhuma a não ser do panfleto de descontos do Feira Nova. E trabalhar num gratuito tem essa coisa terrível: o descer as escadas do metro e ver páginas empenhadamente escritas ao longo da semana atiradas ao chão, espezinhadas. Mas adiante, que aqui não há choros.

Outro dos problemas que normalmente se aponta aos jornais gratuitos – e com o qual, da experiência que levo, não concordo plenamente (e aqui se começa a desenhar o meu parecer) – é o da sua dependência quanto à publicidade. Cuspamos franqueza, abramos o peito às balas: todos os jornais, gratuitos e pagos, dependem da publicidade. Como é que se pagam o o Metro ou o Sexta (onde trabalho)? Com publicidade. O Público e a Visão? Com publicidade.

O Meia Hora é melhor que o 24 Horas, jornalisticamente avaliando. E é gratuito. Borlas podem não ser sinónimo de má qualidade, parece-me.

A diferença, à data, está em que os grupos mediáticos da nossa praça ainda estabelecem, aqui e ali, critérios que ilibam os seus jornais pagos de publicidades mais agressivas, como capas falsas, e servem-se dos seus gratuitos essencialmente para fazer dinheiro a rodos.

O Sexta nasceu com o mesmo propósito: fazer dinheiro. Mas o Sexta – e bem sei dos problemas do jornal, das suas insuficiências, dos seus limites – é pelo menos diferente do Destak ou do Metro. Não só porque é semanal mas também pelo seu cariz magazinesco. O Sexta – e sei que o Sexta não é a Visão – representa para mim um leve leve traço na grossa linha que há-de fazer de contorno à arquitectura dos jornais em papel que podem e vão continuar a existir. Gratuitos.

Pagar por um jornal é hoje, repito, coisa meramente formal. O Meia Hora é melhor que o 24 Horas, jornalisticamente avaliando. E é gratuito. Borlas podem não ser sinónimo de má qualidade, parece-me. Talvez um retrato errado de quem tem os olhos toldados pela engrenagem da coisa. Talvez. Mas não creio.

A Visão podia ser gratuita. A Visão tem mais publicidade que qualquer outra publicação das que acompanho normalmente.

A fechar, gostaria de falar da Visão. A Visão podia ser gratuita. A Visão tem mais publicidade que qualquer outra publicação das que acompanho normalmente. A publicidade que semanalmente milita nas páginas da melhor revista portuguesa – e digo-o assim, a melhor, à boca cheia – atinge valores que nem vale a pena calcular. E é paga. Muito paga. Suficientemente paga, vá.

Se a Visão fosse gratuita – porque podia sê-lo, uma vez que os 2,75 euros pouco importam quando olhamos às cifras publicitárias – podia ser um caso de enorme sucesso. Vejamos: faria a gestão do seu espaço editorial e continuaria com a muita publicidade; a oferta de anunciantes seria mais que muita se a revista mantivesse a mesma qualidade; e essa, a qualidade, só podia ser mantida. Por que não? Os mesmos jornalistas, os mesmos meios e os vencimentos daquela boa gente de pena afiada a pingarem do mesmo «patrão»: a publicidade.

Está bom de ver que, mudado o canal de distribuição alterado da banca para as estações de metro e de comboio, haveria sempre aquela casta de gente (que me faz comichão) que receberia a boa da Visão de borla e a atiraria ao chão sem pensar que podia ser simpático saber um pouco mais sobre escutas telefónicas ilegais, música na Internet, artistas portugueses a trabalhar no estrangeiro ou das palavras do Lobo Antunes. A tábua de salvação? A crónica do Ricardo Araújo Pereira, acho que só a crónica do RAP podia safar a revista de tal destino.

P.S. – Por certo que há questões editoriais que não abordo, números que desconheço. Mas o essencial do que penso está aqui. O resto pode (e deve) seguir abaixo, no lavar da roupa suja.

 

10/11/2007
Hélder Beja





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Comentários
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Hugo.Torres 07-12-2007 13:50:57
O tempo já deveria ter ditado a expulsão da homossexualidade da indignação, da repreensão e do escárnio social. Colocá-la no seu lugar: na cama. Com sexo e sangue e tripas - de plástico ou não. Confesso a heterossexualidade: há meninas de beijo menos saboroso. (Da barba ainda não me habituei.)

O anonimato é canceroso e paradigmático.
anómino 24-11-2007 10:50:53
outro paneleiro por aqui... a sério... Vai mas é continuar a andar aos beijos em frente à barraca desse curso leproso, pela altura do Enterro da Gata...
Hélder Beja 19-11-2007 12:22:59
um grandessíssimo «troca tinhas». é isso que eu sou. nem mais nem menos. em cheio.
anómino  - Troca tintas 17-11-2007 10:00:49
De acérrimo opositor dos gratuitos a redactor dos mesmos... Uma vez mais... És um troca tinhas...
Hélder Beja 14-11-2007 14:13:08
Caro Manuel,

Nada a dizer quanto à sua opinião. Cada qual com a sua. Respeito.

Apenas corrigir: a Shakira nunca foi capa do Sexta. A capa do nº 1 do Sexta foi o circo tradicional português. A Shakira esteve na capa de um nº zero da publicação, usado depois em acções de publicidade. Por outro lado, o Sexta não é suplemento de coisa nenhuma: o seu método de distribuição é amplo, vai da distribuição em mão, aos hipermercados Continente e às estações de serviço Galp. Para além disso - e porque é um projecto dos dois grupos - o Sexta é também encartado no Público e n'A Bola.

Cumprimentos.
Manuel Costa  - O preço 14-11-2007 00:06:50
Acabei de folhear o Metro. 3 notícias assinadas (o resto era assinado por Lusa ou Metro) e uma publicidade à marca Sony Bravia em todas as folhas. Os coelhos coloridos estavam desde a primeira folha à última. A questão passa por saber se isto é publicidade com informação ou informação com publicidade. Fácil, barato.
O conceito do sexta(e corrige-me se estiver errado) não é o mesmo. Acaba por funcionar como suplemento gratuito do Publico e da Bola. Mas o objectivo é o mesmo.Vender publicidade. E, em última análise, o objectivo é ver e deitar para o chão, porque se toda a gente tivesse uma atitude tipo expresso e levasse para casa, o chão não ficava pintado com o papel que a publicidade pagou. Até isso me parece markting.
Outra das questões passa pela distribuição. O esforço que tu dispendes para ir comprar o jornal não é o mesmo que tu fazes para seres obrigado a pegar no jornal gratuito no semáforo ou no metro. O esforço económico também não é o mesmo.
Pensemos agora nas pessoas que compram os jornais pagos. Finda a leitura, para quê guardar? Não tem o mesmo uso dos gratuitos?
Acho que passa por uma questão mental. Eu vou comprar o jornal para satisfazer a minha necessidade de saber. Logo, guardo o meu investimento em saber e informação até ao fim do dia, pelo menos. O gartuito não foi fruto de uma necessidade minha, mas veio até mim, e não preencheu uma insatisfação face ao querer saber. Apenas acrescentou. E o acréscimo não passou de algumas notícias e, claro está, muita publicidade.
Se a Visão passasse a gratuita iria passar-se o mesmo: alguns que conseguiriam suprir a necessidade com mais vantagem(não pagando e tendo o mesmo benefício) e outros que, não tendo necessidade de suprir essa lacuna, espalhariam mais folhas no chão do metro.
Outra coisa: quem é incapaz de pegar no Destak ou no Metro?E se pedissem 5 cts?Não me parece...

O sexta falhou, quanto a mim, na primeira capa. Shakira, o anjo da colombia(acho que era isto...)?Angelina Jolie surpreendente?Tudo em primeira página..

P.s: Gostei da publicidade que fizeram ao Sexta no publico e na bola, que tinha qualquer coisa com a Paris Hilton e a equipa de Raguêbi...
Hélder Beja 13-11-2007 14:25:58
ainda me lembro do nosso "lado romântico" a dois, de às sextas querermos comprar o Público e não haver moeda(s) no bolso.
Hugo Torres 13-11-2007 11:01:30
Ainda não vi um gratuito que não seja escrito para consumo rápido. O Sexta é o que vai melhor sem dúvida - e a capa falsa desta semana até me deu menos comichão que o normal.

Não sei se os 10% são suficientemente inconsequentes no risco de esperar publicidade a preços mais altos por potenciar o número de leitores. (Há nuances: o público português tem muito o hábito de ler os jornais do café, o que diminui as vendas mas não deve mexer com os lucros publicitários, já que os anunciantes se preocupam com as pessoas que lêem e não com as que compram.) E depois há os anunciantes que estão num jornal porque querem chegar ao 'público-alvo' daquela publicação e não a toda a gente.

Não digo que não. Vamos ver.

E ainda o lado romântico de deixar uma moeda por um jornal. ;)
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