A minha mãe e a minha irmã estavam na sala a ver a novela. Não, perdão, não era novela. Aquela coisa do género de um telefilme, mas que nem chega bem a ser, porque o pior telefilme erótico das duas da manhã terá melhor fotografia e argumento. Não interessa. Elas estavam a ver a novela na sala, no momento em que passei com um prato de comida para o quarto. E pensei que admirava aquela docilidade em frente ao ecrã, a certeza de que ao olhar para aquela que é traída e o outro que é cego (que vai tudo dar ao mesmo), não reparam sequer que a sua própria vida está estagnada, de sofá, durante cerca de uma hora. E invejei. Invejei-lhes aquela capacidade de abstracção do seu umbigo para, naquela hora, só quererem saber da Arlinda que é atropelada quando corre em direcção ao António, com o intuito de lhe dizer que foram feitos um para o outro. Cai-lhe um “amo-te” num último suspiro com direito a golfada de sangue pela boca. Pobre Arlinda…
Jaz numa cama de cinco andares uma princesa caprichosa, de seu nome vida de estudante. Dorme horas intermináveis e não muda os lençóis. Vive como as ondas: ora rebenta no cais atolada de ideias, ora balança impassível ao som de vozes monocórdicas e tchim tchim de café. De personalidade forte e extremamente sedutora torna-se na nossa melhor amiga durante os primeiros anos da fase adulta.Rodopia-nos no ar com o dedo mindinho, embebedamo-nos de tantas acrobacias de circo. E amamos. Amamos a princesa pela certeza de dias diferentes, mas idênticos na sua forma.
Habituadinha que estou ao metro do Porto, tenho sempre alguma dificuldade em utilizar outras redes de metro. Não é pela ideia de estar no subsolo (apesar de tudo, o metro do Porto tem 8km(!) de percurso subterrâneo e até acho divertido descer escadas rolantes e escadas rolantes até finalmente chegar ao cais de embarque). Nem tão pouco me aborrece a multidão que se liberta de uma composição e que corre esbaforida para não perder a composição seguinte. É vida. Sangue arterial de quem entra para, quando termina a viagem, se transformar em sangue venoso, mais escuro, mais cansado.
Ó caralho! Ó caralho!Quem abateu estas aves?Quem é que sabe? quem éque inventou a pasmaceira?Que puta de bebedeiraé esta que em nós se vemjá desde o ventre da mãee que tem a nossa idade?
Aparentemente, as empresas têm livre arbítrio para fazer o que lhes dá na gana. E nós, quais carneiros a ruminar na nossa vidinha, nem nos apercebemos de que se compram e vendem coisas tão intangíveis como uma cor.
“Se tiver fé e quiser um milagre na sua vida então ele vai acontecer”. Era o que um pastor brasileiro apregoava, de olhos fitados na objectiva, para quem passava no canal 11 da Tv Cabo na madrugada de quinta-feira.
Quem canta seus males espanta, e quem ouve também. Há semanas que correm mesmo bem. Em sete dias pude assistir a quatro concertos. David Sylvian, José Mário Branco, Quinteto Lusotango e E.A.K. e Crushing Sun. Uma verdadeira montanha russa musical cujo único pré-requisito era ser o mais ecléctico possível.
O artigo de beleza feminino pelo qual tenho a maior relação amor-ódio faz cem anos. O sutiã. Esse objecto torcionário incomoda mais do que qualquer cilício bem apertado. Porque usar soutien não se trata apenas de mortificação corporal (que levante o dedo a mulher que depois de um dia cheio chega a casa e não se depara com as costas vermelhas e empoladas daquela coisa que insiste em empinar o peito) mas, e sobretudo, de mortificação mental.