Carolina Lapa
 

Pontos de convergência teórica entre a alegoria da caverna de Platão e a novela da noite

A minha mãe e a minha irmã estavam na sala a ver a novela. Não, perdão, não era novela. Aquela coisa do género de um telefilme, mas que nem chega bem a ser, porque o pior telefilme erótico das duas da manhã terá melhor fotografia e argumento. Não interessa. Elas estavam a ver a novela na sala, no momento em que passei com um prato de comida para o quarto. E pensei que admirava aquela docilidade em frente ao ecrã, a certeza de que ao olhar para aquela que é traída e o outro que é cego (que vai tudo dar ao mesmo), não reparam sequer que a sua própria vida está estagnada, de sofá, durante cerca de uma hora. E invejei. Invejei-lhes aquela capacidade de abstracção do seu umbigo para, naquela hora, só quererem saber da Arlinda que é atropelada quando corre em direcção ao António, com o intuito de lhe dizer que foram feitos um para o outro. Cai-lhe um “amo-te” num último suspiro com direito a golfada de sangue pela boca. Pobre Arlinda…

40, Quinto Frente

Jaz numa cama de cinco andares uma princesa caprichosa, de seu nome vida de estudante. Dorme horas intermináveis e não muda os lençóis. Vive como as ondas: ora rebenta no cais atolada de ideias, ora balança impassível ao som de vozes monocórdicas e tchim tchim de café. De personalidade forte e extremamente sedutora torna-se na nossa melhor amiga durante os primeiros anos da fase adulta.Rodopia-nos no ar com o dedo mindinho, embebedamo-nos de tantas acrobacias de circo. E amamos. Amamos a princesa pela certeza de dias diferentes, mas idênticos na sua forma.

Sem metros barreiras

Habituadinha que estou ao metro do Porto, tenho sempre alguma dificuldade em utilizar outras redes de metro. Não é pela ideia de estar no subsolo (apesar de tudo, o metro do Porto tem 8km(!) de percurso subterrâneo e até acho divertido descer escadas rolantes e escadas rolantes até finalmente chegar ao cais de embarque). Nem tão pouco me aborrece a multidão que se liberta de uma composição e que corre esbaforida para não perder a composição seguinte. É vida. Sangue arterial de quem entra para, quando termina a viagem, se transformar em sangue venoso, mais escuro, mais cansado.

Hoje é Joaquim Pessoa quem fala

Ó caralho! Ó caralho!Quem abateu estas aves?Quem é que sabe? quem éque inventou a pasmaceira?Que puta de bebedeiraé esta que em nós se vemjá desde o ventre da mãee que tem a nossa idade?

Eu quero o magenta só para mim!

Aparentemente, as empresas têm livre arbítrio para fazer o que lhes dá na gana. E nós, quais carneiros a ruminar na nossa vidinha, nem nos apercebemos de que se compram e vendem coisas tão intangíveis como uma cor.

A tarde dos milagres

“Se tiver fé e quiser um milagre na sua vida então ele vai acontecer”. Era o que um pastor brasileiro apregoava, de olhos fitados na objectiva, para quem passava no canal 11 da Tv Cabo na madrugada de quinta-feira.

Há semanas que correm mesmo bem

Quem canta seus males espanta, e quem ouve também. Há semanas que correm mesmo bem. Em sete dias pude assistir a quatro concertos. David Sylvian, José Mário Branco, Quinteto Lusotango e E.A.K. e Crushing Sun. Uma verdadeira montanha russa musical cujo único pré-requisito era ser o mais ecléctico possível.

Sutiã: mamas para que vos quero

O artigo de beleza feminino pelo qual tenho a maior relação amor-ódio faz cem anos. O sutiã. Esse objecto torcionário incomoda mais do que qualquer cilício bem apertado. Porque usar soutien não se trata apenas de mortificação corporal (que levante o dedo a mulher que depois de um dia cheio chega a casa e não se depara com as costas vermelhas e empoladas daquela coisa que insiste em empinar o peito) mas, e sobretudo, de mortificação mental.

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Carolina Lapa
Perspectiva C(r)ónica

Cronista

Estudante
2º ano do 2º ciclo
Ciências da Comunicação
Universidade do Minho

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