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Na idade dos seus 50 anos meu pai tomara a firme
resolução. «Amanhã é bom dia para morrer», disse-me, e beijou-me na face como
todas as noites. Senti-me afortunado por ter um pai que, mesmo a caminho da
mortalha, não descuidava o carinho do filho. Depois, julgo, fitei-o com ar
sério e assustado. «Não te ponhas a morrer pai», balbuciei sabedor da resposta.
Manhã de sol. A noite, mal dormida, ainda me boceja ao ouvido. Adivinhei o Tejo reluzindo nas encostas de Lisboa e saltei da mais solitária de todas as camas: a partilhada. Domingo. Adentro-me na primeira das poucas pastelarias abertas. Torrada e meia de leite, faz favor. O camareiro tem o ar serviçal que convém. Dir-se-ia que nasceu para isto. Ao fundo, enquanto passo os olhos nas primeiras páginas d’O Retrato de Dorian Gray, reparo num emaranhado de velhas. Assim, no feminino.
Ontem lembrei-me de ti e das coisas que não fizemos. Das que te não deixaram viver e das outras também. Aquelas tardes em que, depois da classe com a professora Conceição, jogávamos ao berlinde à sombra de árvores que não sei dizer. Depois eram os lanches na casa de um qualquer. O leite fresco e o pão com geleia, os bolos-de-noivo e as broas de mel. Éramos só tu, eu, o Hugo e o Paulo. E havia pássaros também.
«Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem.»Todos os dias me entristeço com a indiferença que carrego. Minto (e é estranha a patologia esta de desdizer o pensamento assim que a caneta beija o papel). Minto porque vezes, tantas vezes há que, tal é a letargia, que reajo indiferente à indiferença.
O passado. Não se vive o passado. Quando muito, vive-se com ele. Opta-se. Nunca fui bom com passados. O meu, guardo-o para mim. Que acho que é assim que deve ser. Faço como escrevia Virginia Wolf. “Cada um tem o seu passado fechado em si, tal como um livro que se conhece de cor, livro de que os amigos apenas conhecem o título”. Nem mais uma linha.
Trabalho num gratuito. Eu, dias outros estudante e acérrimo adepto da luta contra a imprensa não paga, trabalho num gratuito. Os jornais à borla, aliás, acabam de ultrapassar em Portugal o volume de circulação daqueles que custam dinheiro, como conta o post do Jornalismo & Comunicação. O fenómeno, já se vê, chegou e não se pense que tem dia marcado para abalar.
Hoje, contra mim escrevo. Vivo em Lisboa há coisa de sete meses e, em todo este tempo, visitei um museu apenas. Um. Não exigirá certamente um esforço intelectual avultado ao leitor, pelo menos ao mais atento, para que adivinhe os caminhos dessa episódica saga museológica: Museu Colecção Berardo, esse mesmo.
Está tudo louco. Passa-me a ideia pela cabeça de cada vez que faço um extenso zapping pelos quatro canais que a pobre televisão cá de casa, órfã do luxuoso cabo, me vomita. Em Portugal anda tudo a cantar, essa é a primeira constatação. Se quer ser famoso – mais, se quer ser feliz – cante homem, cante com força. Ele é a Operação Triunfo, a Família Superstar e agora até aquela coisa grotesca chamada Casamento de Sonho. Até aí se canta. Da RTP à TVI sempre a descer, como de costume.