O obscuro com Pedro Eiras nas “Conversas no Tanque” PDF Imprimir e-mail
No ambiente acolhedor da Velha-a-Branca, Pedro Eiras, escritor e professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras do Porto, apresentou, pelas 22h do dia 28 de Fevereiro, livros e filmes que se relacionam com o medo e a dor, euforia, prazer e masoquismo, a novidade e a repetição, os sonhos e a transcendência num ambiente de conversa informal e amigável.

Recordando a participação como coordenador no curso de escrita criativa da Velha-a-Branca, dirigiu-se ao público presente já seu conhecido como leitor e escritor. Trouxe à conversa um livro homónimo, “As sombras”, conjunto de três peças, caracterizando-as como “contornos não captados por distracção” ou “corpos que se transformam em sombras ou sombras que se transformam em corpos”. Reflecte sobre a sociedade de vigilância e os condicionalismos sociais.

“Numa altura em que o desprazer nos é proibido”, teoriza sobre o estado de prazer constante em que somos obrigados a viver e sobre o masoquismo como forma de subjugação voluntária, pois “decidimos deixar de decidir, perdemos voluntariamente a vontade como forma de combater o controlo”.

O medo e a dor constituem um fascínio pessoal do escritor, referindo um verso de Ruy Belo “Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente”, bem como a novidade e a repetição pelas revisitações e identificações com o terror e histórias obscuras.

Falando sobre o processo de escrita, refere que a “escrita implica um trabalho de leitura demorado” de pensar, escrever e reavaliar o texto.

Ao abordar o tema dos sonhos e das transcendências, leu em voz alta excertos da peça “Carta a Cassandra”, presente no livro “As sombras”, identificando José como um soldado longe do seu país, que escreve uma carta à namorada, dizendo que sente saudades e dando sinais de doença e loucura. Vera, a namorada de José, tem um espírito lúcido e o poder de descobrir o que está escondido, daí ler e reler a carta até encontrar as mensagens que se encontram nas entrelinhas do texto. Qual Cassandra, que recebe o dom de prever acontecimentos horríveis do futuro e a maldição de ninguém acreditar nas suas palavras, Vera desconstrói o texto em busca de mensagens subliminares como um detective ou psicanalista.

Pedro Eiras trouxe ainda “As aventuras 13 – 24 de Sherlock Holmes” de Conan Doyle pela sua componente mística da luta constante entre o bem e o mal representados em Sherlock Holmes e no professor James Moriarty, respectivamente. Referindo a última aventura do volume, verifica que “o bem e o mal anulam-se” através da morte misteriosa das duas personagens.

Com “A Interpretação dos Sonhos” de Freud, Pedro Eiras observa as análises e estudos de caso do psicanalista pela metodicidade e paciência que revela com os seus pacientes.

Por fim, apresentou a obra “De um tom apocalíptico adoptado há pouco em filosofia” do filósofo francês Jacques Derrida pela relação que estabelece entre a psicanálise e a filosofia e entre as dicotomias e opostos, considerando que a oposição não é natural, visto que “não funciona, anula-se”.

Nascido no Porto em 1975, desde 2001 que publicou em livro as peças de teatro “Antes dos Lagartos”, “Passagem”, “Um Forte Cheiro a Maçã”, “Recitativo dos Livros do Deserto” e “As Sombras”, as ficções “Anais de Pena Ventosa” e “Estiletes”, os ensaios “Esquecer Fausto” (Prémio PEN Clube Português de Ensaio em 2006), “A Moral do Vento” e 2A Lenta Volúpia de Cair”. Teve peças de teatro lidas e encenadas em Portugal, França, Grécia, Eslováquia, Brasil. A peça “Um Forte Cheiro a Maçã” foi traduzida para francês, publicada por “Les Solitaires Intempestifs” e transmitida na rádio “France Culture” em 2004.

 

01/03/2008
Maria Ribeiro





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