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(des)conhecimento 1.prólogo "El supremo triunfo de la razón es sembrar la duda sobre su propria validez" Miguel de Unamuno - Conheço os segredos do mundo! - De todos, qual é o mais importante? - Que não se podem conhecer este e aquele segredos. - Então não conheces tudo! - Esses não se podem conhecer. - Mas como podes conhecer o que não podes conhecer? - Isso é outro segredo... que não conheço.
Nos últimos dois séculos, presenciámos enormes avanços em todas as áreas do conhecimento científico. O desenvolvimento de novas teorias fundamentais na Física e na Biologia e de novas áreas da Matemática permitiu-nos uma cada vez melhor compreensão do mundo que nos rodeia, quer falemos de algo tão grande como uma galáxia, tão pequeno como um electrão, ou tão complexo como o genoma humano.
Para além disso, a ciência faz cada vez mais parte do nosso dia-a-dia. Os referidos avanços geraram um progresso desenfreado da tecnologia. A Humanidade pôde realizar projectos que pouco antes não passariam de sonhos (ou pesadelos): a electricidade, os transportes, a possibilidade de comunicação (quase) instantânea (desde o telefone à internet), a possibilidade de voar, a chegada à lua, as armas de destruição em massa (estas, sem dúvida, um pesadelo), os antibióticos, a erradicação de doenças tenebrosas, o computador,... Todas estas invenções fazem agora parte do nosso estilo de vida. E ainda, os novos meios de comunicação universal permitiram a aproximação dos resultados da ciência às pessoas de forma nunca antes vista. Nunca tanto se escreveu sobre as grandes conquistas da ciência e da tecnologia, nem sobre as perspectivas (muitas vezes bastante especulativas) do que nos trará o futuro. Através de meios que vão desde os livros de divulgação aos filmes de ficção científica, a própria ciência também se enraizou no universo cultural das massas.
A visão da ciência, em particular da Matemática e talvez da Física, que nos é incutida muitas vezes nas escolas é a de um livro fechado de conhecimentos adquiridos, onde existe uma base já construída (acabada!) que nos permite resolver uma série de problemas. Certa divulgação científica e outros métodos de ensino mostram-nos a ciência como algo em construção, onde existem ainda muitas questões por resolver. Na maioria das vezes, porém, passa a ideia utópica de que todos os problemas científicos admitem uma solução/explicação; quando muito, não a conhecemos de momento. Mas até que ponto é isto verdade? Até onde poderá chegar o nosso conhecimento, através da razão?
Na série de crónicas que hoje inicio, pretendo mostrar o outro lado: a face desconhecida e, mais do que isso, a face insondável do conhecimento. Ao longo das crónicas, apresentarei exemplos de diversos tipos de limites que se impõe ao nosso conhecimento. Contrariamente ao que poderá parecer à primeira vista, este não é o lado negro da ciência, nem é de modo algum cientificamente contraproducente dedicarmo-nos ao seu estudo. À parte o interesse per se destas questões, que não deve ser ignorado, e da sua capacidade inspiradora nos domínios da Arte e da Literatura, o estudo dos limites com que nos deparamos lança luz sobre aquilo que conhecemos e o modo como conhecemos. É também por vezes paradoxal constatar que o conhecimento mais profundo de certas áreas leva à imposição de limites sobre esse mesmo conhecimento. Noutro ângulo, a capacidade de conhecermos o desconhecido pode ser aproveitada, criando possibilidades que doutra forma não teríamos.
Existem várias formas de entendermos os limites da ciência. Face a uma perspectiva faustiana, segundo a qual a ciência serviria o propósito tecnológico de manipulação da Natureza, seria importante considerar os limites daquilo que podemos fazer. Um eventual fim do progresso tecnológico poderia gerar um desinteresse económico pela ciência e conduzir ao fim desta actividade. Contudo, apesar de sabermos há muito que é impossível, por exemplo, estarmos em dois locais em simultâneo, isto não constitui propriamente um limite ao nosso conhecimento, tão só um limite à nossa capacidade de realização técnica. (Note-se que temos conhecimento de que são realizações impossíveis.) É importante, contudo, considerar que estes limites tecnológicos podem, por sua vez, impor limites muito mais profundos às ciências naturais, pois poderá ser impossível realizar certas observações experimentais, necessárias para suportar ou falsificar determinadas teorias. É bastante improvável que alguma vez se desenvolvam verdadeiras inteligências artificiais que possam rivalizar com a nossa. Antes de mais, devemos também referir os limites actuais do conhecimento, isto é, da linha que separa o que sabemos do que ainda não conhecemos. Certamente que, a cada momento, o conhecimento é limitado. Não quero com isto dizer que é finito. Apesar de que nunca guardamos mais do que uma quantidade finita de informação, esta permite representar uma quantidade infinita de conhecimento. Repare-se que, para conhecermos a soma de quaisquer dois números inteiros, não precisamos de saber de cor e antecipadamente a soma de todos os pares possíveis (tal seria impossível!): basta-nos conhecermos um método que, como aprendemos na escola primária, admite uma descrição muito simples (e finita!) e que permita obter essa soma para qualquer par de inteiros dado. Também o conhecimento da imensidão do Universo é resumido num conjunto finito de leis. De forma alguma afirmamos que conhecemos tudo. E provavelmente nunca o poderemos afirmar. Já no passado cometemos esse erro, quando acreditávamos piamente no geocentrismo e, mais tarde, e com bases mais sólidas, na universalidade dos modelos de Newton. Existem, e conhecem-se, limites em relação ao que ciência pode neste momento explicar: certos fenómenos não são ainda compreendidos ou previsíveis. Estes limites de compreensão levam a que surjam paradoxos nas teorias científicas aceites ou novos factos que não encaixarão nestas. E estes paradoxos abrirão novas possibilidades de investigação e, possivelmente, conduzirão a novas explicações ou teorias mais completas. Isto já aconteceu no passado: o paradoxo de Aquiles e da tartaruga (que já discuti aqui) levou ao aparecimento da teoria das séries infinitas, os paradoxais resultados da experiência de Michelson e Morley (sobre a velocidade da luz) conduziram à teoria da relatividade, a observação da hereditariedade (que não podia ser explicada cientificamente) estimulou os primeiros estudos sobre genética.
Os limites actuais podem portanto (e estão constantemente a) ser ultrapassados. Poderíamos até pensar (não sem algum exagero, creio) que um dia conheceremos tudo o que nos é possível conhecer. Contudo, existem dois tipos de limites com os quais esbarramos irremediavelmente. O primeiro é a capacidade da mente humana. Até que ponto somos capazes de compreender o mundo que nos rodeia? Certamente que o homem tem descoberto formas de compensar as suas deficiências. Por exemplo, o microscópio e o telescópio colmatam falhas da visão. O mesmo se passa em relação a algumas aptidões mentais menos desenvolvidas, tal como a execução de instruções repetidas a grande velocidade e com grande fiabilidade, na qual os computadores são exímios e de longe nos ultrapassam. Contudo, como teremos oportunidade de ver, os computadores deparam-se igualmente com limites, mesmo neste tipo de tarefa. De qualquer forma, sabemos que o poder do nosso cérebro, mesmo não estando totalmente compreendido, é bastante superior. É bastante improvável que alguma vez se desenvolvam verdadeiras inteligências artificiais que possam rivalizar com a nossa.
O segundo tipo de limite é ainda mais profundo. Trata-se do facto de certas teorias predizerem os seus próprios limites, limites existentes no universo que estudam ou limites à nossa possibilidade de o conhecermos. À primeira vista, poderemos supor que problemas deste género indicam que nos encontramos face a uma teoria pouco adequada. É contudo digno de nota o facto de que isto acontece particularmente nas teorias físicas mais completas que conhecemos (relatividade, mecânica quântica,..). Mais ainda, este género de limite ocorre na própria matemática, na própria lógica, fundamento último da razão e do conhecimento científico. Pelo que somos levados a perguntar se este paradoxal conhecimento do desconhecimento não será uma característica intrínseca do próprio conhecimento. 06/03/2008 Rui Barbosa
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