“Tempo de Inovação?” em discussão no segundo dia da FLB PDF Imprimir e-mail

Os escritores António Manuel Pires Cabral, Frederico Lourenço e Miguel Real marcaram presença ontem, 30 de Março, na 17ª edição da Feira do Livro de Braga (FLB), no Parque de Exposições de Braga. A conversa girou em torno da pergunta “Tempo de Inovação?”. Os três convidados acreditam que a inovação é necessária mas esta não deve ser “oca”, “soberana” ou “esquecer a tradição”.   

"Tempo de Inovação?" discutido na FLB. Foto: Eduarda Sousa 

A tertúlia entre o segundo painel de convidados da FLB não começou da melhor maneira: os problemas de som eram muitos e os escritores mal se ouviam. Porém, isso não impediu que a conversa, subordinada ao tema da inovação na criação literária, se desenrolasse.

Miguel Real começou por distinguir o escritor do literato: “O bom escritor inova sempre, escrevendo de maneira diferente. O literato tenta imitar os outros autores”. O ensaísta reconhece que “todos os artistas tentam inovar, mas sem solidez, vivência, sentimento, miséria e dor, essa novidade torna-se oca”. A inovação “vazia” é a que recebe sempre maior atenção por parte do público porque, na opinião de Real, tem lugar nos media que vivem da novidade. O escritor sublinha que existem 99% de literatos e apenas 1% de escritores. “O bom escritor perdura no tempo enquanto o literato é rapidamente esquecido”, concluí.

Para Frederico Lourenço, “o desejo de inovar é, actualmente, excessivo e o distanciamento em relação à tradição enorme”. A inovação passa por “reconstruir aquilo que já está feito”, garante Lourenço, acrescentando que “um bom livro tem de ser criativo e deve guardar toda a tradição que está para trás”. “Luís de Camões é frequentemente apontado como um escritor inovador na sua época mas se o compararmos a outros autores contemporâneos chegamos à conclusão que foi um ventríloquo”, exemplifica.

“Hoje em dia a inovação é considerada um valor absoluto mas existem outras virtudes da criação literária que não tem a ver com inovação”, frisa António Manuel Pires Cabral. O escritor preza muito a inovação mas esta nem sempre recebe o seu aplauso: “O célebre acordo ortográfico é por exemplo umas das mais tristes inovações que andam por aí”, desabafa.   

 

31/03/2008
Eduarda Sousa





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