Universidade sem urros PDF Imprimir e-mail

Isto foi há dias, entrava eu na universidade, para o primeiro dia de aulas após as férias. Era um grupo de meninas, miúdas, 17-18 anos, que querem todas ser educadoras. De pulmões abertos, trauteavam uma lenga-lenga que não impressionava, a não ser pelo remate e pela adequação do nível de linguagem à faixa etária que é o mercado alvo deste segmento universitário. Rezava assim, o fim da lenga-lenga: “o teu pipi no meu pópó”. Na verdade, não estou certo se não era “o meu pipi no teu pópó”.

Mais à frente, novo momento de tradição académica. “Tens a rata seca, tens a rata seca”, berravam eles. “Tens a pila murcha, tens a pila murcha”, ripostaram elas. Na altura, ri-me. Infantilmente. Segundos depois, a consciência bateu-me à porta: “o teu curso mudou com Bolonha. Estás a rir-te de quê?”

Desviei a marcha para o CP1. À porta, mais uma pandilha de caloiros, no chão, a encher flexões. Desta vez já não sorri. E voltei a lembrar-me de uma frase do actual ministro/liquidatário judicial/coveiro (riscar o que não interessa) do Ensino Superior, Mariano Gago: ““Sou absolutamente contra aquilo que se designa, com algum humor sádico e machista, por praxes académicas, como se nos devêssemos rir disso. São uma escola de falta de democracia e fascismo e devia haver uma atitude de menos complacência por parte de todos, nas universidades e fora delas.”

Se não for pedir muito, há alguém que mostre a esta gente para que que serve a vaselina e o viagra? E, já agora, que lhes explique que o reitor se chama Guimarães Rodrigues?”

É natural que haja quem pense de maneira diferente. É-me difícil compreendê-los e vê-los investir na defesa da banalização da mediocridade, no entanto, a asneira é livre. Por isso, nem me meto na discussão, e apenas quero aqui evocar dois ou três episódios cujo valor é meramente ilustrativo.

Aqui há uns anos, a TVI, que então se benzia diariamente com o sinal da cruz, achou o mercado apetecível e tentou cativá-lo com um programa que se chamava Doutores e Engenheiros. O único mérito do programa foi o ter demonstrado as insuficiências cognitivas e culturais tanto dos estudantes que deram a cara como de quem então geria o entretenimento da TVI.

Não tenho razões para acreditar que o resultado fosse diferente, porque há tradições que ainda são o que eram. E de resto, educação foi algo que o país sempre dispensou. Mas, se não for pedir muito, há alguém que mostre a esta gente para que que serve a vaselina e o viagra? E, já agora, que lhes explique que o reitor se chama Guimarães Rodrigues?

 

15/10/2007
Victor Ferreira





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Comentários
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Vasco 05-11-2007 23:19:24
Não sei onde hei-de deixar este comentário..se calhar deixo-o aqui, porque sim..porque és o ultimo "cronista" da lista de "cronistas".

Confesso que não conhecia este blog. Agora já o conheço. Inclusive comentei um texto que me pareceu digno e bastante interessante (força Joana). Mas tenho que ser sincero, alguns de vocês estragaram-me o gozo todo... eu a pensar que finalmente tinham feito um blog de gente interessante para gente interessante que ainda faz ou fez parte da UM.

E o que encontro?

Nada... um punhado de "adjectivadores" que devem algo à substância. O que é infeliz é que provavelmente conseguem fazer textos interessantíssimos. Mas e fazê-los? Não, vamos apenas concentrar-nos em destronar ideias que afirmamos não ter o mínimo interesse.

Quem estará correcto, aquele que critica logo interessa-se pela mediocridade ou o próprio medíocre? Não estarão os dois embebidos em ignorância?

Sei que muitas vez estamos tão embrenhados em respostas rápidas e ódios furiosos que nos perdemos no caminho..


O pessimismo é contra producente minha gente! Tirem a borra da caneta e escrevam o que realmente importa. Cá estarei para me deliciar.

PS: Peço desculpa pela informalidade da minha escrita, mas a hora já vai tardia e já li muitos comentários...

o Nono 18-10-2007 14:30:20
O princípio da praxe académica de integração dos novos membros é salutar, mas nenhum princípio por mais nobre que seja resiste a quem o poê (mal) em prática.
Nunca fui contra a praxe, fui praxado (por uma única pessoa que se tornou um dos meus melhores amigos,e muito pouco praxado), participei em julgamentos do Caloiro no Teatro circo, mas nunca praxei, por não ter nem apetência nem imaginação para isso.
Claro que me dirão que "este" tipo de prazes aconteçe em todas as academias, mas com o mal dos outros posso eu bem.
O cerne da questão é que os caloiros (que no futuro serão os praxadores) não lêm o Código da Praxe e como tal não o sabem fazer cumprir.

Ps; já agora, qual foi o contributo do vitor ferreira para uma melhor praxe, ou limita-se o autor ao mais simples e intelectualmente preguiçoso que é limitar-se a apontar o dedo a tudo o que está mal? " se não fazes parte da solução fazes parte do problema"
Hugo Torres  - um dó li tá, quem está livre livre está 16-10-2007 14:07:41
Os pequen(in)os poderes (re)produzem baratas tontas.
Samuel  - Escola de mediocridade 15-10-2007 23:56:21
Excelente texto, Vítor. Com o olhar certeiro que te reconheço.
Pronto para a chuva de insultos? É o que dar mesteres-te com os poderes instituidos... ;)
As praxes são uma escola de mediocridade, que (re)criam seres acéfalos e ajudam a manter o satus quo nas Academias e no país. Nada a ver com totalitarismos, estou certo... :o
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