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Razão pela metade e a razão por inteiro

A ex-Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, esteve há uns dias em Braga, reunida com os responsáveis da Capital Europeia da Juventude (CEJ), para conhecer o andamento do projecto. No final, a antiga governante declarou aos jornalistas que “que se passa fora de Lisboa não chega a Lisboa”.

Está algures entre o trágico e o cómico ver Canavilhas empenhada na sua missão de deputada eleita por Braga. Na campanha eleitoral praticamente não a vimos por cá. Mas agora parece ter descoberto algo que, no Minho, já há muito sabíamos ser uma realidade. O centralismo do país leva a que se olhe pouco para o se faz fora de Lisboa. A parlamentar do PS tem razão objectiva nessa crítica.

Já sabíamos que a antiga ministra da Cultura tinha pouco jeito para a política. Não foi pelo que fez enquanto governante, mas pela forma como tem passado despercebida na Assembleia da República. Até há bem pouco tempo. Depois deu nas vistas com uma proposta sobre direitos de autor que é violenta, desajustada e não agrada a ninguém. E só não se percebe como pode o PS dar cobertura a tão descabida iniciativa legislativa.

Mas o que é certo é que Gabriela Canavilhas errou nas declarações que fez em Braga. Por dois motivos. O primeiro é que ela própria faz parte da máquina a que agora aponta vícios. Defendeu-a enquanto foi ministra e não pode dizer que não tinha noção disso. Se há área em que o centralismo é notório – subsídios, mediatismo, etc – é a da Cultura.

O segundo erro de Canavilhas foi ter misturado a CEJ com a Capital Europeia da Cultura (CEC). São dois eventos diferentes e estão a ter coberturas mediáticas a anos-luz de distância. O que se compreende: são duas realizações incomparáveis e só por bairrismo ou desatenção se poderá pensar o contrário.

São-no do ponto de vista orçamental, de impacto junto da população local e do país, mas também na Europa. Não pode, por isso, Canavilhas, pegar no exemplo de Braga e falar de Guimarães. Ainda para mais quando, apesar dos problemas estruturais da comunicação social nacional, a CEC tem tido uma interessante força mediática junto dos principais órgãos de comunicação social.

Entende-se que Canavilhas o tenha feito, num momento em que começa a ser óbvio o fraco impacto da Braga 2012. A deputada do PS veio dar uma mão à Câmara socialista na tentativa de justificar o fraco envolvimento em que o evento tem resultado. Mas não se pode curar um erro político com outro.

E escrevo erro político, porque começa a perceber-se que foi má ideia fazer coincidir a CEJ com a CEC. Isso abre a portas a comparações que são despropositadas e ainda por cima injustas. Este é um bom projecto, bem pensado e com capacidade para gerar frutos no médio prazo. Noutro ano qualquer, Braga podia estar a viver em festa permanente e a ser uma cidade num clima extraordinário. Num ano como este, vive um festejo assombrado pelo fogo de artifício que se vê do outro lado da fronteira. 

Última vez modificada em sexta, 09 março 2012 00:42
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Samuel Silva

Nascido a 21 de Maio de 1985, é atualmente jornalista do PÚBLICO. É ainda editor do semanário O POVO. Licenciado em Comunicação Social pela Universidade do Minho, fez parte da equipa que lançou o ComUM OnLine, em 2005. Paralelamente à licenciatura, fundou o blogue Colina Sagrada, que se tornou uma referência na região e mais concretamente na discussão da cidade de Guimarães

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