Braga está, até ao próximo dia 12 de fevereiro, sob alerta amarelo, segundo o Instituto de Meteorologia de Portugal, atingindo temperaturas negativas noturnas. Tal situação despoletou preocupação de instituições e da população face aos sem-abrigo bracarenses, tendo a Cruz Vermelha reforçado a sua capacidade para os receber no Centro de Acolhimento Temporário (CAT), no Picoto.
Isadora Barbosa, técnica e socióloga da Cruz Vermelha, conta que "na altura do inverno temos mais procura e em alguns momentos chega a haver uma lista de espera", garantindo, no entanto, que ninguém ficará sem resposta ao pedido de auxílio.
O apoio das instituições
Cruz Vermelha, Cáritas e Santa Casa da Misericórdia são algumas das instituições que têm unido esforços na luta e no apoio aos sem-abrigo.
O presidente da delegação da Cruz Vermelha em Braga, Armando Osório, salienta que têm "uma equipa de rua que auxilia esta EISD (Equipa de Intervenção Social Direta) e que nasceu para apoio a toxicodependentes, mas que acabou por dar apoio a toda a gente fragilizada que anda na rua". Através desta equipa, a Cruz Vermelha distribui um número considerável de refeições diárias aos sem-abrigo, para além de oferecer outro tipo de apoios a quem dorme na rua.
Isadora Barbosa acrescenta que "as pessoas não caem para a rua de um dia para o outro; podem ser trabalhadas em termos preventivos". É precisamente na prevenção que se centra a ação das equipas que integram a Cruz Vermelha.
Armando Osório declarou ainda que não é possível afirmar que Braga é uma cidade com um grande número de sem-abrigo, estando referenciados apenas dez, usando como referência comparativa a cidade de Aveiro, que "tem mais de 100 sem-abrigo."
No CAT, estão albergadas atualmente 47 pessoas. Apesar de referir que nada tem que ver com a administração do espaço de abrigo, a responsável pelo pelouro da ação social e administradora da empresa municipal de habituação social, Palmira Maciel, conta que "muitas vezes vão para lá e ficam como hóspedes, mas a ideia inicial passa por ser um abrigo temporário."
Desde o início da vaga de frio foram disponibilizadas mais 8 camas.
"Sem-abrigo voluntários"
Em declarações a um diário nacional, o presidente da Câmara Municipal de Braga (CMB), Mesquita Machado, afirmou que os sem-abrigo existentes na cidade são-no de livre vontade. Estas declarações geraram polémica e comentários menos agradáveis em diversos blogues e também nas redes sociais.
Contactado pelo ComUM, o chefe de gabinete de Mesquita Machado, Alfredo Cardoso da Conceição, defendeu a declaração do presidente da CMB: "Acho que é uma frase feliz. Descansa as consciências bem formadas e avisa as autoridades que há gente que voluntariamente quer lá [rua] estar."
Palmira Maciel considera que os sem-abrigo são uma responsabilidade de todos e não apenas do município bracarense e realça o papel da Segurança Social no apoio a prestar nestas situações.
Palmira Maciel acrescenta ainda que, no âmbito das competências da autarquia, foi criado um grupo de trabalho constituído por técnicos da CMB e da Segurança Social, pelas instituições de solidariedade social (como a Cáritas e a Cruz Vermelha) e pela empresa municipal Bragahabit, tendo este grupo referenciado todos os casos de sem-abrigo: "Nós conhecemo-los pelo nome, pela sua história, só que a aproximação a eles é complicada. Se estão doentes, são encaminhados para o centro de acolhimento, mas no dia a seguir estão na rua novamente."
Para a vereadora, a ação das equipas de rua é essencial. No entanto, acrescenta que "as equipas de rua distribuem uns cobertores, dão uma refeição quente, mas será isso tirar da rua? Não, é dar-lhes condições para lá continuarem."
Palmira Maciel frisa o que havia sido proferido pelo presidente da autarquia e acrescentou que "se registam situações em que as pessoas são contempladas com alojamento mas preferem continuar na rua."
Preocupação com a crise e aumento do empobrecimento
A crise vivida em Portugal tem gerado também preocupações junto das entidades camarárias bracarenses e das instituições de solidariedade.
Reflexo disso foi a abertura recente de mais uma cantina comunitária da Santa Casa da Misericórdia, que vem ajudar a cantina da Cáritas a alimentar a população carente.
Atento a esta situação, Alfredo Cardoso da Conceição disse temer pelo aumento dos novos pobres que são, na sua maioria, jovens recém-licenciados que se confrontam com o desemprego.
Sublinhando a crescente consciencialização das instituições públicas sobre os problemas sociais, Palmira Maciel comentou: "O desemprego está à vista. Há uns anos atrás não havia nada, quando as pessoas não tinham dinheiro para pagar as rendas não tinham ajuda. Hoje podem dirigir-se aos gabinetes de apoio da Segurança Social para pedir ajuda."
A Cruz Vermelha também se mostra reticente face a toda a conjuntura vivida no país e tem em construção planos de emergência social.
Os sem abrigo em destaque em declarações polémicas
Não foram só as declarações de Mesquita Machado que indignaram a população bracarense. Recentemente, a Secretária de Estado da Saúde francesa aconselhou os sem-abrigo a não saírem à rua, gerando uma onda de contestação por toda a Europa.
Ana Daniela Pereira
Joana Delgado