Acho que desde cedo percebi que era isto que queria e que sempre tive uma vantagem: sabia que, para ser o que queria, tinha de sair da “minha ilha” – Madeira – e ir para “o mundo real”. Chamo a esta oportunidade a “segunda experiência”: a segunda vez que saio de casa e vou à descoberta de um lugar novo. Só que, agora, é noutro país.

Sevilha, capital da Andaluzia. Uma cidade quente, uma cidade com ritmo, uma cidade que sabe acolher quem cá chega pela primeira vez. Aqui sinto-me em casa. Não porque o clima é parecido (ou um pouco mais quente!), mas porque as pessoas são calorosas, porque a cidade se “despe” e se dá a conhecer a cada rua que percorres e porque um sentimento de familiaridade te invade de cada vez que pões os pés fora de casa.

Faz um mês que estou em terras de “nuestros hermanos” e, sem sombra de dúvidas, tem sido uma experiência diferente da “primeira”. Aqui não se fala português (talvez um pouco de portuñol, confesso), aqui não se acabam as frases com “alhos e cebolas”, aqui não chove nem faz frio (por enquanto).

Entre as coisas mais complicadas está a língua. Não porque o castelhano é difícil de falar ou de compreender, mas porque aqui em Andaluzia a pronúncia dos nativos é diferente: “comem” as últimas letras das palavras e falam muito depressa. Nas primeiras duas semanas tive esse problema: não percebia metade do que diziam e, agora, não acreditam quando digo que só estou cá há um mês e que nunca tive aulas de espanhol na vida.

Outra das coisas que me fez confusão foi o horário dos espanhóis. Tudo fecha às 14h para a “siesta” e abre a partir das 18h, hora do famoso “happy hour”, em que a cerveja custa 0,40€ e toda a gente sai à rua e vai para os cafés até tarde. Aos domingos está tudo fechado e não existe viva alma na cidade.

 

“De onde és?” “Portugal!” “Ah, Cristiano Ronaldo.”

Até agora, sempre que disse que era portuguesa, ouvi a mesma afirmação: “Ah Cristiano, que orgullo”. Para os espanhóis, Portugal é só isso: Cristiano Ronaldo e, claro, as praias do Algarve. É por isso que tenho, aos poucos, tentado “mostrar” que não somos apenas as praias algarvias, mas que temos cidades fantásticas, boas tradições e uma gastronomia excelente.

Falando agora da parte académica. Estou a estudar no campus da Isla de la Cartuja (antiga EXPO 92), na Facultad de Comunicación. Já comecei as aulas há algum tempo e, na generalidade, tenho gostado de todas as cadeiras que estou a fazer e os professores ajudam-nos muito: tenho sempre alguém sentado comigo nas aulas para ajudar na integração, não só nas turmas, como também a perceber um bocadinho melhor a língua e as suas expressões locais mais típicas.

A ideia que muitos têm de que “Erasmus é como ir de férias” não é, de todo, verdadeira. É verdade que temos mais oportunidades para conhecer outros locais enquanto estamos no nosso período de mobilidade, mas também nos deixaram bem claro desde o início que não somos diferentes dos alunos de cá e que, por isso, a carga de trabalho será igual, embora a nós, Erasmus, perdoem os “pontapés” que damos na língua deles.

Tirando a correria que tem sido todos os dias com as aulas, com os papéis de Erasmus e com os trabalhos que já tenho em todas as cadeiras, posso dizer que, embora só esteja aqui em há um mês, já me sinto parte de Sevilha e ela já me pertence.

Francisca Vilas Boas