Isto é uma crónica Erasmus – o teor deste texto é explicar a todos os porquê de não deverem querer partilhar quarto durante o semestre que ficam fora.

Quando escolhi fazer Erasmus aqui, em Paris, o principal objetivo era sair do domínio da língua inglesa e aprender uma língua diferente que, apesar de não parecer difícil, tem muito que se lhe diga – principalmente quando os mais novos inventam dialetos em que trocam a ordem das palavras.

Pois bem, sinto que o objetivo da língua está mais ou menos cumprido, uma vez que de todas as vezes que tentei resolver questões burocráticas e falar com professores em inglês nenhum me soube responder – o inglês, que parece extremamente importante no nosso país, aqui vale zero – serve apenas para fazeres batota e comunicares com os outros Erasmus que querem fazer batota como tu.

A minha colega de quarto não faz batota nenhuma – fala pseudo francês comigo, quando há necessidade absoluta, ou checo com a amiga de cabelo vermelho – o resto do tempo, escreve checo ou francês no computador e decora o quarto com Minie’s – aprendi com isto que mesmo que tenhas 24 anos, podes e deves comprar peluches da Minie e fazer-lhes uma photoshoot com o candeeiro a iluminar.

(…)

Para mim, a experiência Erasmus é, acima de tudo, uma pausa nas nossas vidas – as pessoas estão longe, a tua vida fica longe e parada durante algum tempo, e tens imenso tempo sozinho para perceber muitas coisas a teu respeito.

Percebes muito rápido quem são as pessoas que realmente te dão valor – e isso é das coisas mais importantes, uma vez que apenas aqueles que gostam de ti se vão preocupar em manter a mesma relação contigo, e te vão ligar a meio da noite, com os copos, a dizer o tamanho das saudades que sentem tuas.

Para além disso, percebes rapidamente que o conhecimento que achas razoável ter sobre literatura termina quando conheces pessoas de outros países – eu, que sempre me considerei uma pessoa com um hábito de leitura razoável, apercebi-me muito rápido que somos muito fraquinhos em Portugal.

Talvez porque aqui o Cândido de Voltaire custa 2,5€. Ou um livro de George Orwell que em Portugal custa 20€ é facilmente encontrado a 6€ – mãe, vou precisar de uma mala só para livros e, para quem está a ler isto, aprendam Francês e venham cá para completarem a vossa biblioteca.

Também aprendi questões literárias com a minha colega de quarto – aprendi que é perfeitamente normal uma mulher de 24 anos não saber quem é a Simone de Beauvoir e aprendi ainda que é perfeitamente normal ler a saga Harry Potter depois dos 16.

Uma coisa positiva acerca deste país é que percebes muito rápido que a cultura está preservada – os monumentos são talvez um factor de desilusão, mas os museus são gratuitos, os livros são baratos e as pessoas sabem coisas – muitas coisas até.

Viver numa das piores partes da cidade não ajuda muito à tua sociabilidade nocturna – no entanto, todas estas questões logísticas são rapidamente ultrapassáveis quando conheces outros latinos capazes de cooperar contigo em qualquer situação – a cidade viola a tua liberdade, porque és estrangeiro e muito “assaltável”, mas depois de te habituares a sair de casa as 8h e regressar às 00h esta questão deixa de ser uma questão.

Não tenho grande coisa contra a comida francesa – as pessoas alimentam-se bem, perdes imenso tempo a escolher queijo e a tentar experimentar queijo e, o pior de tudo, é que não se vende nem se come bacalhau – aconselho a todos os que pensem viver aqui seis meses a trazer bacalhau no avião, ou a pedir a amigos para o fazerem. O cheiro na roupa eventualmente sai.

A minha colega de quarto também me ensinou que não comer carne, massa e arroz é perfeitamente normal para um não vegetariano – jantar pepino com uma malga de café, ou cereais com café é uma coisa totalmente normal.

Também me ensinou que o hábito do bom-dia e boa-tarde é muito português – o meu pai sempre me disse que bom-dia se dá ao cão que passa na rua e, como a qualquer outro português, não receber resposta dá vontade de mandar umas bocas. Aqui entre nós, o que vale é que os palavrões portugueses têm uma dicção bastante peculiar e quase impossível de traduzir.

Um mês passado, um corte no dedo e três pontos, um teste de economia e uma colega de quarto Checa e a minha experiência tem sido fantástica. Percebes que o facto de seres português te leva a uma técnica de desenrascanço impressionante – quanto mais não seja, percebes que és totalmente capaz de tirar três pontos numa cozinha de residência, com uma estudante de medicina do último ano e um bisturi não cortante.

Filipa Henriques